Arquivo/ AE
Arquivo/ AE

Teatro Municipal homenageia Villa-Lobos

Em quatro concertos, tributo ao compositor brasileiro terá algumas de suas obras-primas

JOÃO MARCOS COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h12

Como homenagear um evento tão importante e polêmico para a cultura brasileira como a Semana de Arte Moderna, distante 90 anos de sua realização, naquelas três noites memoráveis de fevereiro de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo? No mínimo, tentando respirar os mesmos ares de paixão pelo novo e por demolidoras polêmicas - suas marcas mais memoráveis, que mudaram a face da cultura brasileira nas décadas seguintes.

Passeando hoje pelos amplos espaços do recém-reformado teatro - a casa onde tudo aconteceu 90 anos atrás -, ainda dá para se espantar com frases-punhais como esta, pronunciada por Mario de Andrade em palestra no dia 15 de fevereiro de 1922 naquele mesmo lugar: "Os velhos morrerão, senhores" (entre assobios, ironias e hostilidade franca, ele tentava explicar as teorias da arte moderna).

Deve ter soado como pedras jogadas na cruz. É por isso que, a cada efeméride envolvendo a Semana de Arte Moderna, as novas gerações precisam ter contato imediato com o parto necessariamente violento da modernidade no País. Foram três noites de conferências, audições musicais, leitura de poemas e uma exposição de artes aberta de segunda a sábado no saguão do Teatro Municipal.

O capítulo musical foi especialmente marcante, com a presença de Villa-Lobos e de vários dos músicos mais destacados daquele momento - Ernani Braga, Paulina d'Ambrósio, Alfredo Gomes, Fructuoso de Lima Vianna e a primeira mulher do Villa, Lucília, excelente pianista, entre outros - executando música nova, recém-escrita, daqui e de Paris. Villa reinou nas três noites: música de câmara na primeira, pianística na segunda com Guiomar Novaes e o excepcional Quarteto Simbólico na terceira.

Não se trata de propor a recriação literal das músicas interpretadas naquelas três noites (13, 15 e 17 de fevereiro de 1922). Mas de, ao menos, arriscar um pouco: encomendar criações a jovens compositores contemporâneos em torno da Semana poderia injetar mais sangue nas veias desta comemoração. Afinal, a Semana demonstrou também o descompasso entre criadores radicais e intérpretes presos ao passado. Guiomar deixou claro, por exemplo, que não concordava com aquele radicalismo todo; logo ela, que teve seu nome colocado em grandes cartazes à frente do teatro, só para chamar mais público, em eficiente truque de marketing.

Apesar disso, os quatro concertos que se realizam este mês no Teatro Municipal, tendo como mote a Semana, optam, no geral, por uma perspectiva mais plácida, o que não quer dizer, necessariamente, que sejam descartáveis. Ao contrário. O público poderá assistir, pela primeira vez em São Paulo, ao único musical que Villa-Lobos compôs para a Broadway, Magdalena, no fim de sua vida - e numa montagem estreada em 2010 no Chatelet de Paris. Pouco importa que seja uma colcha de retalhos de obras anteriores, como se constatou na estreia brasileira em Manaus, anos atrás. Importa mais a ousadia do Villa impondo-se na Broadway.

Outra gema villa-lobiana e uma de suas obras para piano e orquestra mais importantes é Momoprecoce, que será solada por Pablo Rossi, ao lado da Orquestra Experimental de Repertório, regida por Jamil Maluf.

Item igualmente raro é a ópera Pedro Malazarte, com música de Camargo Guarnieri e libreto de seu guru Mario de Andrade. Guarnieri, compositor até hoje subavaliado e nosso mais qualificado criador musical nacionalista da era pós-Villa-Lobos, concretizou o sonho de Mario de pôr de pé uma música brasileira. Sua suíte sinfônica Vila Rica foi coreografada por Lara Pinheiro e será dançada pelo Balé da Cidade de São Paulo.

No domínio da música para piano, Caio Pagano, um dos mais experientes e talentosos pianistas brasileiros da atualidade, interpreta peças curtas de Claude Debussy e do Villa (o primeiro era, naquele momento, um claro guia preferencial do jovem brasileiro), com direito a algumas executadas originalmente na Semana, como La Soiree dans Grénade e Minstrels, de Debussy, e O Ginete do Pierrozinho do Carnaval das Crianças, do Villa.

Na segunda parte, junta-se ao ótimo Quarteto da Cidade de São Paulo no Quinteto para Piano e Cordas, de Robert Schumann, obra-prima romântica europeia por excelência. Pena que o raro Quarteto Simbólico (Impressões da Vida Mundana) para instrumentação originalíssima - flauta, saxofone alto, harpa, celesta e coro feminino (este oculto) -, composto um ano antes da Semana e destaque do concerto inteiramente dedicado a obras de Villa-Lobos no dia 17 de fevereiro de 1922, tenha ficado de fora das comemorações dos 90 anos.

Em compensação, o concerto de encerramento, dia 26, percorre um expressivo arco histórico do nacionalismo brasileiro. Começa com Batuque, de Lorenzo Fernández - desde 1930, data de sua composição, e até hoje uma das peças nacionalistas brasileiras tipo exportação mais tocadas no mundo inteiro.

Continua com Momoprecoce, que o Villa compôs em 1929 em Paris e dedicou a Magda Tagliaferro. Ambas as obras mostram o ideário nacionalista de Mario de Andrade, calcado basicamente no folclore, e que repudiava a música popular urbana. De modo inteligente, o concerto da Experimental de Repertório regida por Jamil Maluf encerra-se com a Sinfonia Popular n.º 1, do gaúcho Radamés Gnattali, obra de 1955 que sintetiza o universo deste compositor notável - o primeiro a mergulhar na música popular urbana como fonte e matriz de sua criação.

Tudo o que sabemos sobre:
Villa-LobosSemana de Arte Moderna

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.