Teatro jovem do Brasil e da Dinamarca

Sonhos e conflitos de adolescentes são encarados seriamente no Centro Cultural Elenko - KVA. Organização não-governamental fundada há três anos com o objetivo de estimular a criação artística entre jovens de 13 e 19 anos, o KVA promove pela primeira vez um intercâmbio internacional de espetáculo teatrais criados por adolescentes.Amanhã, serão apresentados no KVA os espetáculos Esquina Brasil (às 17 horas), criado pelo grupo Submundo, do Centro Cultural Monte Azul, localizado na periferia; e Volven, do grupo dinamarquês Ragnarock, às 20 horas. O evento vai oferecer ao público interessado - estudantes, professores e artistas - uma oportunidade única de investigação do universo desses jovens. Prato do Dia, criado pelo grupo de jovens de classe média do KVA, será a atração de sexta-feira às 17 horas.Como todos os espetáculos foram criados a partir de improvisações sobre temas que afligem os adolescentes, o espectador poderá detectar diferenças e semelhanças entre ambições e problemas que atingem jovens de diferentes classes sociais e, no caso da Dinamarca, de uma outra cultura. Em Prato do Dia, há espaço para o humor, por exemplo, na cena em que os atores do KVA recriaram problemas como o peso das mochilas na ida ao colégio e a deficiência dos meios de transportes coletivos, utilizados com freqüência por quem ainda não tem a ambicionada "carta", a licença para dirigir.Mas nem tudo é tão "leve" no cotidiano desses adolescentes. "A violência urbana é uma preocupação constante" diz Rosana Seligmann, que divide a direção do espetáculo com Christian Duurvoort. "O ponto de partida para a inspiração do espetáculo foram as fotos de Sebastião Salgado expostas no Sesc Pompéia", esclarece. "O medo de sair à noite é comum a todos", diz. "Quando os pais deixam, o que nem sempre ocorre, são eles próprios que temem pegar ônibus tarde, na volta de um programa".Os atores do KVA ainda abrem espaço no espetáculo para refletir sobre a educação no Brasil. "Em algumas cenas eles questionam qual o papel da escola em suas vidas, qual a real contribuição do aprendizado escolar em seu desenvolvimento como cidadãos". Também criado a partir das experiências pessoais dos atores do grupo Submundo - integrado por dez atores cujas idades variam entre 13 e 18 anos -, o espetáculo Esquina Brasil mostra um dia-a-dia bem mais barra-pesada. "Não ter o direito de escolher uma profissão, seja ela a de ator ou técnico de informática porque não há dinheiro nem tempo para a formação é uma das principais angústias dos adolescentes da periferia. "E os pais cobram cedo o trabalho dos filhos, porque precisam desse apoio", diz o diretor Gil Marçal, de 21 anos. O ensino também é abordado pela turma do Centro Cultural Monte Azul. "A galera aqui sente que está sempre atrasada no que diz respeito ao ensino", comenta Marçal."Depois de muito esforço, quando um número maior de jovens está conseguindo terminar o colegial, isso não serve mais; atualmente, para ser alguém é preciso terminar uma faculdade e ainda ter um mestrado", diz. "O eixo central de Esquina Brasil são as manifestações sociais", explica Marçal. Tudo começa quando um garoto reúne os amigos para buscar uma solução para a falta de comida em sua casa no dia do aniversário de sua mãe. Juntos, decidem fundar o MSCB, o movimento dos sem-cestas básicas e fazer uma manifestação em frente do fictício "Ministério da Comida".A partir daí, a discussão se amplia e eles descobrem não precisar "só de comida", porém "comida, diversão e arte". Chama a atenção a solução encontrada por um dos manifestantes para conseguir dinheiro para a organização. "Ele seqüestra uma turca endinheirada", diz Marçal. A violência é uma atitude isolada e, ao fim, amenizada na peça quando a turca acaba aderindo à causa. Mas o rumo dos acontecimentos muda radicalmente quando uma tragédia atinge o grupo.Dirigido por Joachim Clausen - ator do Odin Theatre criado por Eugenio Barba - o Ragnarock tem vários espetáculos em seu repertório. Volven, o escolhido para vir ao Brasil, tem uma linguagem centrada na expressão corporal e na música e inspira-se na mitologia nórdica. "Volven é uma mulher forte, que tem a capacidade de ver o futuro", diz Ursula Gudmundsen-Holmgreen, produtora do grupo e mãe de uma das atrizes.A viagem, patrocinada pelo governo da Dinamarca, vai estender-se a Santo André, onde o grupo apresenta Volven no sábado, na Escola Livre de Teatro de Santo André, e à Bahia, para onde os atores vão viajar num ônibus especialmente fretado. O desejo dos adolescentes dinamarqueses - com idade entre 13 e 19 anos - é apresentar o espetáculo no sertão brasileiro.Segundo Ursula, as angústias dos adolescentes dinamarqueses mudaram radicalmente nos últimos tempos. "Há dez anos, o desemprego era um problema para os jovens", afirma. A drástica redução dos nascimentos e o crescimento econômico contribuíram para eliminar o fantasma do desemprego. "Hoje, os jovens são minoria no país e a maior angústia é a escolha de uma profissão".Intercâmbio Teen Brasil/Dinamarca. Amanhã, às 14 horas aula aberta com Joachim Clausen, diretor do Musikteatergruppen Ragnarock da Dinamarca; às 17 horas, ´Esquina Brasil´, com o grupo Submundo de Teatro da Favela Monte Azul, direção de Gil Marçal, 60 minutos; às 20 horas, ´Volven´, musical com o Musikteatergruppen Ragnarock da Dinamarca, 50 minutos. Grátis. Centro Cultural Elenko - KVA. Rua Cardeal Arcoverde, 2.958, tel. 870-2153

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