Teatro é tema de debate em BH

O teatro foi o tema do primeiro dia de seminários do 1.º Salão do Livro de Minas Gerais e do Encontro Internacional de Literaturas em Língua Portuguesa, eventos que acontecem até o próximo dia 20 em Belo Horizonte. O público, de todas as idades, lotou o auditório do Centro Cultural da UFMG para ouvir e debater com João das Neves, dramaturgo, diretor e escritor mineiro; Alcione Araújo, também dramaturgo e escritor; Cunha de Leiradella, escritor português radicado no Brasil e Leopoldo Amado, autor de estudos sobre a literatura da Guiné Bissau, com mediação de Bernardo da Mata Machado. O seminário foi marcado por um tom crítico do início ao fim. As discussões giraram em torno da diferença entre teatro e tevê e o papel da cultura. Leopoldo Amado abriu a discussão, levantando questões sobre a cultura de seu país, a Guiné Bissau. Mestre em Estudos Africanos pelo Instituto de Ciências Políticas e Sociais de Lisboa, Amado é vice-presidente e coordenador de Projetos da Liga Guineense dos Direitos Humanos e consultor de organizações não-governamentais e organismos internacionais. "No meu país, não há o menor interesse por parte do Estado em investir em cultura", afirmou. "Não há em Guiné Bissau uma só casa de teatro", continuou, lembrando que seu país possui cerca de 80% de analfabetos.O escritor Cunha de Leiradella teve como principal assunto a desvalorização das produções e movimentos criados fora do eixo Rio-São Paulo. Leiradella nasceu em Portugal, mas vive há 42 anos no Brasil. É autor premiado de peças como As Pulgas e Homem Sentado, além de vários romances e contos. Chamando Minas Gerais de país, ele lamentou o fato de os investimentos estarem voltados para as montagens paulistas e cariocas. Criticou as peças "caça-níqueis" sem conteúdo, que muitas vezes adaptam textos literários para se tornarem "vendáveis". Para ele, a linguagem literária é completamente diferente da linguagem teatral.João das Neves, entretanto, ressaltou que, no Brasil, seria um desperdício não adaptar textos literários para o teatro. "Não há como separar a palavra do teatro. No Brasil, há textos maravilhosos, ótimos escritores. Guimarães é um deles", afirmou. João, que também é ator, foi um dos fundadores do grupo Opinião, em 1964, e sua peça mais conhecida, O Último Carro, ficou mais de dois anos em cartaz no Rio de Janeiro e em São Paulo, no fim da década de 70. Para ele, "a cultura não é isso que está na televisão. Cultura se transmite, não se vende", disse, firmando sua posição radical com relação ao assunto. Assim, o teatro seria uma maneira de se retomar a verdadeira cultura e a arte, o que é diferente do que é vendido na "indústria do entretenimento", repetitivo e vazio.É da mesma opinião Alcione Araújo, autor de mais de 13 peças e alguns trabalhos para televisão, como a série Malu Mulher. Dispensando detalhes sobre seu currículo, ele defendeu a idéia de que há uma banalização dos aspectos e valores humanos na televisão, no cinema e na música. Retomando João das Neves, afirmou que a "indústria cultural" só tem o compromisso do lucro e, portanto, não tem compromisso com a essência da obra de arte ou com a originalidade. Ele disse que, no Brasil, ainda impera a filosofia "povo entretido é povo que não pensa". "Nossas leis de incentivo à cultura outorgaram aos empresários o direito de escolher o que o povo deve ver e ouvir, de acordo com seus interesses", disse Araújo. Os motivos destes percalços seriam vários. O poder adquirido pela televisão, a internacionalização das grandes empresas e a fragmentação trazida pelos valores "pós-modernos" são apenas alguns deles. Ele chamou a atenção também para a falta de preparo das universidades. "Aqui, as pessoas fazem uma diferença esquizofrênica entre educação e cultura. O sistema educacional brasileiro está falido", atacou. Apesar disso, lembrou que os educadores e professores são, hoje, os grandes aliados para que essa mentalidade de "cultura de massa" possa mudar.Para Araújo, entretanto, há uma luz no fim do túnel: o teatro, que seria a saída para a retomada da arte e da originalidade destruídas pela telinha. "O teatro não é um meio de massa, como a televisão e o cinema. Ele é formador, sim, de uma massa crítica, capaz de questionar. E isso deve ser feito através da poesia, deixando o realismo absoluto de lado, estimulando a imaginação das pessoas", defendeu. Nessa terça os seminários continuam paralelamente à programação normal do evento. À tarde, na Biblioteca Pública Infantil e Juvenil (R. Carangola, 288), os convidados Ana Maria Machado (RJ), Fanny Abramovich (SP), Maria José Sottomayor (Portugal) e Ricardo Azevedo (SP) debatem o tema A Literatura Infantil nos Países de Língua Portuguesa. Às 19h30, no Centro Cultural da UFMG (Av. Santos Dumont, 174), o tema é Narrativa, com a presença de Artur Pestana (Pepetela) (Angola), Carlos Heitor Cony (RJ), José Eduardo Agualusa (Angola), Paulina Chiziane (Moçambique) e Teolinda Gersão (Portugal).Mais informações pelo telefone 0--31 277-4553 ou pelos sites www.salaomg.com.br e www.encontrodeliteratura.com.br

Agencia Estado,

15 de agosto de 2000 | 15h19

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