Teatro de Hilda Hilst começa a ser resgatado

Se até hoje nenhum crítico ou pesquisador conseguiu explicar por que a dramaturgia de Hilda Hilst permanece no anonimato, há cerca de 35 anos, então nos agarremos de uma vez a Pascal, que sabia ter o coração razões que a própria razão desconhece. Ao compor com olhos de dentro, os personagens da dama HH expressam a angústia da busca por uma verdade, que valide o sentido da existência; mas essa busca é sempre ofuscada pelas arbitrariedades do poder. É preciso não esquecer que sua produção dramatúrgica nasceu nos anos seguintes ao golpe militar no Brasil.Haja vista que se trata de textos que não oferecem as costumeiras concessões abertas a públicos sempre ávidos por rir e aplacar um pouquinho do doloroso conjunto de dissabores da vida. Talvez por isso sua dramaturgia também interesse tão pouco a grupos e diretores de teatro, de modo geral, pouco hábeis em construir com seus públicos novas formas de comunicação que não cedam ao riso fácil ou, por outro lado, ao hermetismo caquético. De suas oito peças, produzidas entre 1967 e 69, O Verdugo foi o único texto premiado, com o Anchieta de 1969 (e editado no ano seguinte). Uma única vez foi montado (1973), com direção de Rofran Fernandes. Outras peças tiveram montagens acadêmicas, amadoras, pouco conhecidas. Que pena.A Nankin Editorial resgata em boa hora a produção dessa escritora septuagenária, filha de alsacianos e natural de Jaú, interior do Estado, moradora há mais de 30 anos da Casa do Sol, uma chácara onde ?se esconde?, em Jaguariúna (região de Campinas). Trata-se do teatro reunido de Hilda Hilst, organizado em dois volumes. No primeiro ? de que trata esta resenha ? está o conjunto da primeira metade de suas peças, num total de oito: A Empresa (ex-A Possessa) e O Rato no Muro, ambas de 67, e O Visitante e Auto da Barca de Camiri, de 68. O segundo volume é composto por Aves da Noite, O Novo Sistema, de 1968, e O Verdugo e A Morte do Patriarca, de 1969. Nota-se que sua obra teatral foi escrita no período de piores repercussões após o golpe militar de 64, no Brasil.Não são peças de fácil leitura, no sentido que não oferecem enredos muito aparentes, seus personagens são substantivos demais para serem simples cópias da vida, os ambientes carregam uma atmosfera claustrofóbica e o gênero é híbrido, miscigenando o lírico, o épico e o dramático. Todas essas características estão presentes já na primeira peça, A Empresa (conforme Hilda, uma ?estória (sic) de austeridade e exceção?. A protagonista América é estudante que coloca em dúvida as postulações do colégio interno onde estuda. Perseguida pela superintendente, depois pelo monsenhor e o inquisidor, acaba se deixando morrer, mas não cede à hipocrisia que inflige a ordem e a disciplina às demais estudantes. O leitor tende a observar, perplexo, como a história que América contara às colegas, sobre a injusta relação entre homens e máquinas, vai gradativamente se tornando realidade, tendo a própria América como protagonista.A segunda peça soa como uma liturgia. Composta por diálogos menos rebuscados que a primeira, porém, em linguagem mais ornamentada, barroca (antecipando a terceira peça, O Visitante), O Rato no Muro repete as emanações do ambiente religioso. Hilda estudou durante oito anos como interna no colégio de freiras Santa Marcelina, em São Paulo, o que justifica a intimidade com os fatos transcorridos nas duas primeiras peças. Do colégio interno para o convento, O Rato no Muro enfoca os tormentos de nove irmãs que tentam, em vão, resistir às imposições da irmã superiora. Nomeadas ?A?, ?B?, ?C?, e assim por diante, até ?I?, reagem em segredo contra as proibições superiores, mas não conseguem rebelar-se efetivamente. A única irmã consciente é a ?H?, que tenta acordar as companheiras. No posfácio escrito pela dramaturga Renata Pallottini, ela se pergunta se a irmã ?H? não seria uma espécie de alter ego da própria Hilda Hilst? O rato é o perigo que desafia essas mulheres. (O mesmo símbolo do rato vai aparecer em Aves da Noite e também em sua prosa de ficção.)O Visitante é uma peça magistralmente escrita. Terceiro texto do volume, mistura o lírico ao dramático, conseguindo um efeito estranho, perturbador. Ao sugerir o cenário de O Visitante, a autora emenda: ?Pequena peça poética que deve ser tratada com delicadeza e paixão.? Aborda a relação entre personagens complementares, mãe e filha. A sensual Ana está grávida. De gestos duros e disciplinadores, Maria, sua filha, desconfia que é de seu marido, simplesmente intitulado Marido. Este aparece à noite com um misterioso convidado, o Corcunda, que se diz chamar Meia-Verdade. É na história desse homem que Maria agarra-se para subentender que é dele que a Ana está grávida. História de conotações simbólicas, faz surgir uma forte característica que acompanha toda a obra de HH: a exposição dos opostos, a jovem e a velha, a lascívia e a disciplina, a verdade e a mentira, a prosa e a poesia. No posfácio escrito pela dramaturga Renata Pallottini, em que cita o estudo da pesquisadora Elza Cunha de Vicenzo, ?é muito difícil contar as histórias a que se referem esses textos?. O que é mais forte na obra cênica de HH são, sem dúvida, os personagens e seus pensamentos. Isso fica evidente na quarta e última peça do volume, O Auto da Barca de Camiri, que retrata de forma alegórica a parábola da morte, na Bolívia, do líder revolucionário Ernesto ?Che? Guevara. Em um julgamento ? ou algo muito semelhante ? , comandado por um Juiz Velho e um Juiz Jovem, um Trapezista, o Passarinheiro, o Agente e o Prelado, além de representantes do povo, entre outros, dão-se testemunhos sobre um Homem que levava nas mãos ?um possível maná?. Hilda parece assemelhar a figura de ?Che? à de Cristo, como evocavam as fotos da morte do líder guerrilheiro. No fim, o destino se mostra mais forte que o desejo: sons de metralhadoras executam o Homem; em seguida, os pássaros e os cães, para que não se transformem ?em guardiães! do morto?.As peças de HH evocam em tom angustiante sua perplexidade diante de um mundo governado pela força que subjuga e humilha. Não se pode esquecer que sua produção dramatúrgica nasceu durante a vigência da ditadura militar e o teatro era uma das maneiras mais contundentes dos artistas de gritarem, sempre sob metáforas, sua revolta, além de tecerem seu libelo com o público, contra os males da repressão. O crítico Anatol Rosenfeld, num dos poucos artigos formulados sobre a obra da escritora, atesta que ela produziu ?três gêneros fundamentais de literatura ? a poesia lírica, a dramaturgia e a prosa narrativa ?, alcançando resultados notáveis nos três campos de atuação?. Ela publicou seu primeiro livro de poesias aos 20 anos (Presságio, 1950), logo seguido de obras como Balada de Alzira (1951), Balada do Festival (1955), Trovas de muito Amor para um Amado Senhor (1960), Tu não te Moves de ti (1980). Dentre sua obra mais recente, destacam-se A Obscena Senhora D e sua trilogia erótica, composta de O Caderno Rosa de Lori Lamby (adaptado para o teatro, no ano passado, com a atriz Iara Jamra), Contos Grotescos/Textos d? Escárnio e Cartas de um Sedutor.?Acho que se escreve por uma compulsão mesmo, não é? Você não sabe dizer exatamente por quê. Mas tem necessidade de comunicar aquilo para o outro, de alguma maneira...?, disse Hilda em reportagem ao jornal O Estado de S.Paulo, em maio de 97.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.