Teatro da vida real nas ruas de SP

Começo da Avenida São João, centrode São Paulo, área restrita a pedestres. Ao lado do prédio dosCorreios, num pequeno palco circular, um grupo de jovensimprovisa uma cortina, arruma cenários, prepara uma apresentaçãoteatral. Mais uma peça da Mostra Teatro Cidade, promovida pelaSecretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que teve início naquarta-feira e, até o dia 16, exibe dezenas de peças grátis, noTeatro Municipal e, durante a semana, também nas ruas.Quinta-feira, 13 horas, sol a pino. Apesar do forte calor,rapidamente um pequeno grupo de curiosos cerca o palco.Entre eles está Bárbara Guimarães, de 18 anos,funcionária da loja C&A. Não está ali por acaso, como a maioria."Gostaria de acompanhar toda a mostra. Pego no trabalho às 15horas e vim mais cedo para ver essa peça. Ontem à noite fui aoMunicipal ver Cabaré, também na mostra. Adorei." Um acordoamigável e as lojas e lanchonetes diminuem o volume dasaparelhagens de "som" para que o público possa escutar osatores. O grupo Becas, do bairro de M´Boi Mirim, zona sul,formado por jovens do Projeto Bolsa Trabalho, anuncia o inícioda apresentação. O programa da mostra afirma tratar-se de cenasde Teatro do Oprimido, um método teatral criado pelo diretorAugusto Boal que engloba diferentes técnicas de criação cênica,difundidas no mundo inteiro. Logo se percebe que a opção recaiusobre o chamado Teatro Fórum - um tipo de técnica na qual ogrupo apresenta uma peça bem curtinha e, ao chegar numacena-chave, o público é convidado a interferir.De início, no palco, apenas um sofá e uma caixa envoltaem pano, que faz as vezes de televisão. Diante dela, um casaldiscute. Enquanto ele vê o jogo do São Paulo, ela quer ver o fimda novela. A discussão é interrompida por um telefonema. Algunsamigos do filho vêm buscá-lo para uma festa. Imediatamente a"mãe" esquece a novela. "Sair a essa hora da noite?",questiona. "Muito perigoso." E cobra do pai uma proibição quenão vem.Cena seguinte, os jovens estão na festa. Dançam,divertem-se, paqueram. E voltam a pé para casa. No caminho sãointerrompidos por uma batida policial. Os policiais agem comviolência. Mulheres para um lado, homens para o outro, com asmãos na cabeça. Enquanto elas gritam histéricas sob a mira dorevólver de um dos policiais, o outro grita com os garotos,obrigados a entregar carteiras, óculos e boinas aos policiais. Acena é violenta, os policiais humilham os garotos. O público seaproxima, silencia. Os policiais perguntam aos berros, a cadagaroto, se eles "têm passagem" (a frase é dita assim, com essaredução, todos entendem se tratar de passagem pela polícia).Subitamente, um gesto em falso, e um dos garotos leva umtiro fatal. Justamente o filho do casal da cena inicial. Opoliciais nervosos gritam - "se cagüetar, ´nóis volta´ e matatodo mundo". Sobram apenas as garotas no palco que perguntamumas às outras como contar para a mãe do amigo o que ocorreu.A cena é interrompida nesse ponto. O apresentador sobeao palco para perguntar ao público se ficou claro para todomundo o que aconteceu ali. Um rapaz de boné na cabeça queacompanhara tudo em total imobilidade balança a cabeça.Assusta-se com a aproximação da reportagem. Não quer serfotografado e prefere não se identificar - "Estou tentandovoltar na paz para a sociedade", diz em voz baixa."Criminalidade não leva ninguém a lugar nenhum." Tem 26 anos eesteve preso por assalto à mão armada. "Quando eu era um ladrão, era calmo com minhas vítimas, mas a polícia sempre foiignorante comigo. Eles são assim mesmo."Conforme solicitação dos atores, um rapaz do público seofereceu para subir ao palco e fazer a cena diferente. Os atoresrepetem a cena da "batida", mas desta vez há mais um rapaz. Elereage, diz aos policiais que eles serão denunciados, que elesnão têm o direito de fazer aquilo. O nome do corajoso é Gilvandos Santos Viana, professor da rede pública. "Isso que elesmostraram é comum entre jovens da periferia. Falta conhecimentodos direitos deles." Mas o público não fica satisfeito com asolução.Um novo voluntário se apresenta. Rogério de Paula, de 35anos. Sua atitude é diferente. Ele fica junto às mulheres, debraços abertos, para protegê-las. Pede calma. Ele finge estar deacordo, para depois denunciar. Também não convence. Rogériopergunta aos atores se eles têm solução melhor. Ninguém tem. Daplatéia, uma mulher diz que a solução seria a interferência depoliciais honestos. A cena se repete. Desta vez, em plena batida chega um policial "do bem" e dá voz de prisão aos policiaisviolentos. Pela primeira vez o público aplaude. Pelo menos naficção, o final é feliz.Mostra São Paulo Teatro na Cidade. Palco: amanhã,às 18 e 21 horas, A Comédia do Trabalho; domingo, às 17 e 20horas Almannacco Bananére; Saguão: amanhã, às 11 horas,Cidade Azul; às 15 horas, Por Que o Mar Tanto Chora?; domingo às 11 horas, O Senhor dos Sonhos; às 15 horas, A PrincesaJia. Para as apresentações no palco, retirar convites no dia dasessão, a partir das 10h30; para as do saguão, retirar no diaanterior, a partir das 10h30. Teatro Municipal. Praça Ramos deAzevedo, s/n.º, São Paulo, tel. 222-8698. Até 16/2.

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