Teatro da Vertigem festeja dez anos

Dez anos nos separam da primeira produção do Teatro da Vertigem, a polêmica Paraíso Perdido, que ocorria no interior da Igreja de Santa Ifigênia, com direção de Antônio Araújo. Três anos depois, nascia O Livro de Jó e, em 99, Apocalipse 1,11. Nos três espetáculos, havia a discussão sobre a religiosidade e o sagrado atrelada a espaços cênicos estendidos para fora dos limites do palco italiano: a igreja; o hospital e o presídio. Para contar a história de um grupo que atomizou a linguagem espacial do teatro brasileiro contemporâneo, será lançado hoje, na Fnac, a edição Teatro da Vertigem - Trilogia Bíblica, com mesa de debates após. O ciclo comemorativo inclui remontagens das peças (os espaços originais estão sendo renegociados) e a transação de uma sede própria com a Secretaria Municipal de Cultura."Penso que a questão religiosa não foi resolvida, mas me parece fechada. Se um dia voltar, será muito diferente", disse o diretor Antônio Araújo, em entrevista ao Estado na última quinta-feira. Em Paraíso Perdido, o grupo trabalhou sobre o poema de John Milton, com dramaturgia de Sérgio Carvalho.O segundo ganhou a fala poética de Luís Alberto de Abreu, sustentada sobre o herói bíblico Jó, mais uma montagem de impacto, dialogando no interior do hospital desativado Humberto I. O espetáculo também impulsionou a carreira do ator Matheus Nachtergaele, com seu Jó nu e ensanguentado.Delegacias e prostituição - O fim dos tempos foi visitado em Apocalipse 1,11 com a participação do escritor e dramaturgo Fernando Bonassi, visitando o livro último da Bíblia, com a interferência dos resultados de workshops e inúmeros laboratórios dos atores em delegacias e zonas de prostituição. A encenação ocorria nas dependências do presídio (também desativado) do Hipódromo. Nas três montagens, o grupo desenvolveu sua dramaturgia apoiada no processo colaborativo, em que o dramaturgo acompanha todos os ensaios num exercício de retroalimentação com atores, diretor e as outras instâncias do fazer teatral.Antônio Araújo vive uma fase fértil (está terminando seu mestrado sobre o processo colaborativo nas montagens do grupo, ajudou na organização do livro comemorativo e renegocia as três remontagens em São Paulo), mas aparentemente distante das inquietações para o próximo espetáculo. "Estamos em transição", diz ele, "à procura de uma sede".O objetivo é remontar às origens do Teatro da Vertigem - nascido na Universidade (a maioria dos atores e o próprio Araújo era egressa da Escola de Arte Dramática da USP) - na criação de um centro de estudos e pesquisa, onde se possa aprofundar não só linhas estéticas, como investigar os processos de interpretação. Araújo enfatiza que essa pesquisa teórica surgiu fortemente no primeiro espetáculo, a partir de estudos de mecânica clássica, baseada, entre outros, em Newton. "Com três espetáculos montados em dez anos, não dá mesmo para dizer que somos um grupo comercial."Negociações - O Teatro da Vertigem e o diretor de programação dos teatros municipais, Celso Frateschi, estão perto de pôr um bom termo à questão. Segundo Araújo, as negociações correm adiantadas. "Dos espaços que vimos até agora, gostamos da Casa Número 1, no Centro Velho, com duas salas de tamanho médio para ensaios. O martelo ainda não foi batido, mas acho que tudo estará resolvido até o segundo semestre."Trilogia Bíblica refaz com muito esmero a trajetória dos dez anos do Teatro da Vertigem. Além dos textos, há mais de 140 imagens - muitas inéditas - dos processos de encenação, dos trabalhos de concepção da cenografia e dos figurinos, das relações com a iluminação e o som, e da produção. O livro está dividido em quatro partes: ensaios de Aimar Labaki, Silvana Garcia e Sílvia Fernandes; depoimentos dos atores sobre a criação (do ponto de vista da sala de ensaios) dos espetáculos; os textos integrais das três peças; e uma amostragem significativa da recepção crítica dos trabalhos no Brasil e exterior, com críticas como as de Mariângela Alves de Lima, do Estado. Há, ainda, uma cronologia e a bibliografia completa do Teatro da Vertigem.A coletânea de textos e fotos integra uma edição cuidadosa, com um projeto gráfico original de Rodrigo Cerviño Lopes (fechado, o livro causa uma impressão de desmoronamento, com sua geometria alterada; aberto, remete às asas de um anjo, homenagem ao personagem marcante de Paraíso Perdido). A edição é de Arthur Nestrovski. Após o lançamento do livro, será promovida mesa-redonda com a participação do professor da ECA/USP Jacó Guinsburg, dos críticos Alberto Guzik (O Estado de S. Paulo) e Sérgio Salvia Coelho (Folha de S. Paulo), além de Antônio Araújo e Arthur Nestrovski.Serviço - "Teatro da Vertigem - Trilogia Bíblica". Apresentação Arthur Nestrovski. Editora Publifolha. 360 págs. R$ 49. Hoje, às 19h, na Fnac. Av. Pedroso de Morais, 858, tel.: 3097-0022

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.