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Teatro da Vertigem comemora 21 anos com exibição de suas obras e nova produção internacional

Em duas décadas, compainha é uma das mais enraizadas e preocupadas com a cidade ao seu redor

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2013 | 19h28

O Teatro da Vertigem nasceu há exatos 21 anos com a proposta de se relacionar com a cidade de maneira diferente. No lugar dos palcos convencionais vieram prédios com significado urbano – igreja, presídio, hospital. Em seus trabalhos mais recentes foi a própria metrópole a transformar-se em cenário e protagonista. “Somos fruto de São Paulo. Da loucura e da energia dessa cidade”, crê o diretor Antônio Araújo, que comemora o aniversário nesta sexta e sábado, com uma retrospectiva em vídeo de todas as criações do grupo, que acontece na Praça das Artes, centro da capital.

Nessas duas décadas, talvez não exista uma companhia tão enraizada e preocupada com o que está imediatamente ao seu redor quanto o Vertigem. Mas é preciso considerar também – ainda que soe paradoxal – que possivelmente nenhuma outra tenha conseguido tamanha projeção e reconhecimento para além das fronteiras do País.

Recebeu, na última Quadrienal de Praga, o prêmio de melhor espetáculo do planeta para BR-3, participou de inúmeros festivais – Alemanha, Polônia, Portugal, Rússia, Colômbia, Dinamarca – e, agora, foi convidada a conceber uma obra especialmente para o projeto Villes en Scène (Cidades em Cena), do Teatro Nacional da Bélgica. Instados a discutir a problemática urbana, seis encenadores de diferentes pontos da Europa foram selecionados. Entre eles, nomes de imensa relevância para o teatro contemporâneo, como o francês Joël Pommerat e o sueco Lars Norén. O único artista de fora do continente a integrar esse time é justamente o diretor do Vertigem. “Em um panorama cheio de contrastes, ele foi convidado a agir como um observador externo”, comenta a revista belga Alternatives Théâtrales, que dedicou uma edição especial ao Villes en Scène.

A proposta deve obrigar Antônio Araújo a passar boa parte de 2014 na Europa. Serão dois meses de ensaio, um mês de temporada da peça, que tem estreia prevista para maio. De lá, uma possível extensão para o Festival de Teatro de Avignon, na França, que atua como coprodutor do espetáculo.

Será a primeira vez que a mostra de Avignon – uma das mais importantes do mundo – financia uma criação brasileira. “Se pudesse escolher, eu preferiria que a nossa primeira produção internacional começasse de maneira mais modesta. E, aí um dia, viria Avignon. Não agora”, comenta o diretor. “Mas acabou acontecendo desse jeito.”

Dizer Coisas que Não Pensamos em Línguas que Não Falamos é uma cooperação multinacional. Terá atores e técnicos franceses e belgas. Mas também uma considerável equipe brasileira. O texto foi escrito pelo romancista Bernardo Carvalho. Haverá dois intérpretes do Vertigem. O iluminador Guilherme Bonfanti e o cenógrafo Marcos Pedroso também irão.

Em visita a Bruxelas, eles já selecionaram o espaço de apresentação do espetáculo. Diferentemente dos outros seis criadores, Araújo será o único a encenar a obra fora do teatro: Irá cenografar o prédio da Bolsa de Valores da cidade e levar os espectadores para percorrê-lo.

Na trama, um antigo exilado político, que viveu na Bélgica durante a ditadura brasileira, retorna ao país europeu. Vai acompanhando sua filha, que se tornou uma brilhante economista brasileira e está lá para participar de um congresso. “Existe na montagem um choque entre a antiga Europa, que esse homem conheceu, e a Europa em crise que ele vê hoje”, pontua o encenador. “Mas já disse para eles que São Paulo acabará aparecendo também, de alguma maneira. Não conseguiria fazer de outra forma.”

As celebrações estavam previstas para o aniversário de 20 anos, em 2012, mas foram sendo adiadas pela sucessão de projetos do grupo e acontecem só agora. Os filmes a serem exibidos para o público na Praça das Artes são registros das criações do Vertigem. Inclusive das mais antigas, inéditas em vídeo: Paraíso Perdido, O Livro de Jó e Apocalipse 1,11. Esses filmes serão precedidos por um bate-papo entre artistas que passaram por diferentes fases do grupo. “Não queria uma celebração nostálgica”, ressalva Araujo. “É um momento para discutir o que passou e pensar no que ainda vai ser feito.”

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