Teatro da Insônia leva Saramago ao palco

Indiscutivelmente, José Saramago fez de sua literatura arte de contestação. Em Ensaio sobre a Cegueira, por exemplo, lançado em 1991, o escritor português partiu de um incidente pessoal - um descolamento da retina - para chegar ao entendimento de uma sociedade decrépita, tomada de uma cegueira branca capaz de abalar o sistema nervoso do leitor mais indiferente. O elenco do Teatro da Insônia, integrado por jovens atores formados na Escola de Teatro Célia Helena, atraído pelo livro, resolveu levá-lo à cena e estréia hoje uma versão épico-dramática do romance do autor português. A direção do espetáculo é de Marco Antônio Rodrigues (Babilônia, Copenhagen, Folias Fellinianas e Happy End), com adaptação do diretor e dramaturgo Reinaldo Maia (Babilônia e Folias Fellinianas)."Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara", epigrafa o autor, em citação ao Livro dos Conselhos. Prenúncio à crítica que fará às sociedades contemporâneas. A adaptação de Maia obedece à macroestrutura do romance. Um dia, numa tarde qualquer, o motorista de um carro percebe estar cego envolto em treva branca. O mesmo tipo de cegueira acometerá incontrolavelmente as multidões que serão colocadas de quarentena num manicômio. Desprovidos de tudo, serão obrigados a reaprender as formas de convívio, a partir das leis do afeto e dos instintos. Viagem ao inferno, Saramago aponta para a violência dos tempos obscuros. "Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que nós somos", diz uma das personagens."Saramago mostra com crueza e crueldade a capacidade que a sociedade tem de se destruir", afirma o ator Bruno Guida, de 22 anos, que interpreta vários personagens, entre eles o Velho da Venda Preta, personagem de timbre heróico, que no manicômio para onde foram encaminhados os cegos, "leva esperança às pessoas". Para Guida, o fato de o escritor ser comunista, engajado, reflete no conteúdo de sua obra. "Em Ensaio, há o alerta sobre os perigos dos homens se devorarem uns aos outros. Mas, como toda grande obra, ao não oferecer uma solução, obriga-nos a refletir.""O que nos chama a atenção na obra de Saramago é a volta do homem a um estado primitivo, pautado pelas relações básicas de afeto", diz o ator Flávio Tolezani, de 23 anos. Dentre outros, ele encarna o personagem Médico. "Ele possui um instrumental adequado para ajudar as massas, mas não o faz por ter medo de perder seu status."O diretor Marco Antonio Rodrigues, conhecido por montagens radicais e por seu bastão partidário, insere na montagem momentos de narrativa épica (no caso, com trechos do livro narrados na terceira pessoa que diminuem o impacto fabular), opção que Brecht empregou em seu teatro como forma de convidar o público a refletir, distanciando-se da emoção catártica. "A cegueira branca daquelas pessoas é a metáfora da cegueira da razão. Não se trata da ausência (de cor), mas do excesso, simbolizando tanto avanço científico e tão poucos resultados para a população mundial", diz o diretor. "Saramago nos alerta num final apologético: já estamos cegos, estamos nos transformando em feras, começando a nos devorar uns aos outros." A cenografia é composta por grades de ferro sobre um palco nu branco.Criado em 99, no Teatro-Escola Célia Helena, o Teatro da Insônia foi formado por estudantes de arte dramática, que analisaram obras de grandes autores do teatro mundial. As montagens resultantes foram O Telescópio, de Jorge Andrade (99) e direção de Fábio Nogueira, Nossa Vida em Família, de Oduvaldo Vianna Filho (99), dirigida por Márcio Trinchinatto; Bodas de Fígaro, de Beaumarchais (2000), com direção de Marcelo Lazzaratto; Sólove Dancing, com direção de Ruy Cortez (2000), e Rasto Atrás, de Jorge Andrade (2001), sob direção de Nelson Baskerville.Ensaio sobre a Cegueira. De José Saramago. Adaptação Reinaldo Maia. Direção Marco Antonio Rodrigues. Duração: 1h40. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. Grátis (convites distribuídos com uma hora de antecedência). Teatro Célia Helena. Rua Barão de Iguape, 113, tel. 3209-0470. Até 14/4. Estréia hoje.

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