Teatro da Aliança Francesa reabre as portas

Ambos radicados em Paris, o angolano Artur Ribeiro e o brasileiro André Curti vêm trabalhando na difícil busca de unir, no palco, silêncio e densidade. Em 1995, na França, juntos fundaram a companhia Dos à Deux. A julgar pela sua mais recente criação, o espetáculo Aux Pieds de la Lettre - apresentado ano passado no Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte -, a dupla de criadores alcançou êxito em sua busca. Sem utilizar uma única palavra, conseguiram provocar riso, emoção e reflexão com o retrato cruel e lírico do cotidiano de dois homens confinados em um hospício.Depois de uma rápida passagem por São Paulo no ano passado - apenas duas apresentações no Sesc Anchieta -, Aux Pieds de la Lettre inicia temporada hoje na cidade reabrindo o Teatro da Aliança Francesa. A sessão desta noite é especial para convidados, mas a partir de amanhã o espetáculo poderá ser visto pelo grande público no Aliança Francesa, que reabre totalmente reformado. Servindo de sede para o Grupo Tapa desde agosto de 1986, quando a companhia dirigida por Eduardo Tolentino se transferiu do Rio para São Paulo, o teatro foi fechado em 2001 para passar pela primeira grande reestruturação desde sua criação, em 1964.O Grupo Tapa - que no momento apresenta na cidade dois espetáculos de sucesso, Executivos, no Espaço Promon, e A Importância de Ser Fiel, no Teatro Artur Azevedo -, não voltará a ocupar o espaço nos moldes anteriores à reforma. "Apesar do êxito dessa ocupação (o Tapa acumulou 43 prêmios nesse período, chegando a fazer seis espetáculos em um ano), pouco antes das reformas terminarem, decidiu-se pela recuperação do perfil anterior do teatro, sem vínculo com uma única companhia", explica Mario Martini, diretor da Cult Empreendimentos, também responsável pela administração dos teatros Renaissance e Hilton.A idéia da reforma, segundo Martini, surgiu há dois anos, quando o poder público começou a investir na revalorização do centro. "A Aliança Francesa decidiu então fazer a sua parte." Foram R$ 2,2 milhões gastos na reestruturação de todo o edifício de sete andares, da biblioteca à cafeteria. "O teatro recebeu atenção especial por ser o coração do prédio." Além das melhorias técnicas, nos urdimentos e equipamentos de som e iluminação, foram reformados camarins, palco e coxias. A sala ganhou ainda poltronas confortáveis, espaço especial para deficientes físicos e sistema de segurança modernizado.No que diz respeito à segurança na área exterior ao teatro - há quem ainda tenha receio de freqüentar salas teatrais no centro da cidade -, Martini antecipa que, entre outras coisas, a Aliança Francesa vai investir também na restauração e iluminação da fachada do prédio que fica em frente, na mesma rua, onde está o estacionamento utilizado pelo espectador. "Será uma iluminação recíproca, de prédio a prédio. O quarteirão já abriga uma universidade, o Instituto de Arquitetura e outras empresas já estão mudando para a vizinhança."Martini não revela ainda o pacote de programação, que será anunciado para o próximo semestre, mas enquanto se espera, vale conferir Aux Pieds de la Lettre. A peça foi criada durante dois longos anos, a partir de um trabalho realizado pelos dois intérpretes num hospício francês. No palco, há dois personagens obcecados - um pela limpeza dos pés, outro pela criação de um texto. O corpo de um deles serve de máquina de escrever para o outro, jamais satisfeito com o texto que cria. O elaboradíssimo trabalho gestual, posto a serviço de uma narrativa consistente, faz de Aux Pieds de la Lettre uma experiência estética que vale ser vivenciada.Aux Pieds de la Lettre. Criação, direção e interpretação Artur Ribeiro e André Curti. Duração: 1h06. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 25,00 (sexta) e R$ 30,00. Teatro da Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, tel. 3017-5684. Até 22/6. Patrocínio: Banco Sudameris. Estréia hoje somente para convidados.

Agencia Estado,

05 de junho de 2003 | 12h52

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