Teatrinho

Mauro e Mel eram casados. Faziam teatro e, para ajudar no orçamento, se apresentavam em festas de crianças. Levavam um pequeno palco e um elenco de fantoches para manipular: Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, etc. Não ganhavam muito com isto, mas sempre ajudava. Convites para apresentações não faltavam. O teatrinho para crianças estava indo bem. O que não estava indo muito bem era o casamento dos dois.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2010 | 00h00

***

Aquele dia já tinha começado mal. O Mauro amargurado, se queixando da vida e da falta de oportunidade para fazer teatro de verdade. Afinal, era um ator formado, não podia passar o resto da vida fazendo teatro de fantoches. A Mel, cansada das lamúrias do Mauro, rebatendo que os fantoches pelo menos pagavam as contas, e não deixavam de ser teatro. Os dois tinham brigado desde o café da manhã, e continuaram brigando no carro, a caminho da festa de aniversário onde se apresentariam àquela tarde. E só não continuaram brigando enquanto montavam o palco porque a plateia já começava a ocupar seus lugares, as crianças maiores no chão, as menores no colo das mães, num clima de grande expectativa.

***

Chapeuzinho Vermelho apresentava o espetáculo.

- Alô, amiguinhos! Meu nome é Chapeuzinho Vermelho e...

A cabeça do Lobo Mau apareceu num canto do palco.

- Chapeuzinho... Isso lá é nome?

Chapeuzinho (depois de um segundo de hesitação) - Ih, o Lobo Mau já quer entrar na história. Ainda não é a sua vez, Lobo Mau. Vá embora e espere a sua deixa.

Lobo Mau - Lobo Mau... Isso não é um nome, é uma sentença. Eu não sou intrinsecamente mau. Posso decidir ser mau, ou não. A existência precede a essência, segundo Sartre. É a velha questão, to be or not to be.

Chapeuzinho - Amiguinhos, vamos dar uma vaia no Lobo Mau para ele ir embora e esperar sua vez? Vamos lá, todo o mundo... Buuuuuu!

As crianças vaiaram o Lobo Mau, que desapareceu.

***

Chapeuzinho - Meu nome é Chapeuzinho Vermelho, e eu estou levando estes doces para a vovozinha. Será que esta floresta é perigosa? Será que eu vou encontrar um...

Apareceu o Lobo Mau.

Chapeuzinho - Lobo Mau!

Lobo Mau - Em pessoa. Mas você, também, está pedindo, hein beibi? Sozinha desse jeito no meio de uma floresta escura... Você não lê jornal, não?

Chapeuzinho - Eu...eu... Eu estou levando estes doces para a vovozinha.

Lobo Mau - E como é que essa vovozinha mora no meio da floresta, em vez de um condomínio fechado? Me dá esses doces.

Chapeuzinho - Não! Por que você quer os doces da vovozinha?!

Lobo Mau - Para a sobremesa, depois de comer você.

Chapeuzinho - Você esqueceu? Na história, você primeiro tem que ir até a casa da vovozinha, comer a vovozinha, vestir a camisola dela e me esperar deitado na cama.

Lobo Mau - Esta é uma versão condensada, sem o travestismo. Prepare-se para morrer!

Chapeuzinho (correndo de cena) - Não! Vou chamar o caçador. Socorro!

***

Sozinho no palco, o Lobo Mau dirigiu-se à plateia.

Lobo Mau - Amiguinhos, desculpem-me. Vocês não tem nada com isso. É uma crise pessoal, entendem? Eu não sou mau. Aliás, não sou nem lobo. Sou um ator. Antes disso, sou um ser humano. Perguntem à mamãe o que é isso. É uma coisa complicada, é...

Entrou em cena o caçador, carregando uma espingarda, que apontou para o Lobo Mau.

Caçador - Pare!

Lobo Mau - Você interrompeu meu solilóquio, pô.

Caçador - Mãos ao alto!

Lobo Mau - Está bem, atire. Atire! Vamos acabar logo com isto. Aqui está o meu peito. Mire no coração, que não tem mais serventia. Atire, Mel!

Caçador (fazendo o som do disparo) - Pum!

O Lobo Mau caiu para a frente, quase despencando do palco. Silêncio na plateia. Depois começaram as vaias - "Buuuuu" - não se sabe se para o desfecho abrupto da versão abreviada, para o fim do Lobo Mau ou para a condição humana. E depois começou a chuva de brigadeiros contra o palco.

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