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Te amo, mas não te suporto

Dora reclamava para as amigas que o marido não era nada afetuoso.

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

04 Dezembro 2016 | 02h00

Dora reclamava para as amigas que o marido não era nada afetuoso. Dizia que ele era absolutamente incapaz de demonstrar seu amor por ela - se é que ele ainda existia, como fazia questão de ressaltar. Que jamais levava flores, jamais comprava joias e que nunca escrevera uma mísera carta de amor. Dora dizia se esforçar, ser tolerante. Mas que, sinceramente, não sabia até quando aguentaria a indiferença de Geraldinho, aquele homem de olhos tão azuis por quem se apaixonara em 1997.

Chegou em casa e encontrou o marido na cozinha. Ao vê-la, Geraldinho abriu seu sorriso largo e manifestou sua alegria por vê-la chegar cedo do consultório. Disse que havia comprado as alcachofras das quais ela tanto gosta, de um vendedor na esquina de trás, e que estava colocando-as para cozinhar. Ela nem ouviu e interrompeu reclamando “nem vem até a porta me dar um beijo?”. Ele suspirou e voltou os olhos para a panela com água borbulhante.

Dora colocou seu pijama contrariada. Arrumou a mesa para o jantar. Viu que Geraldinho tinha feito molho para a alcachofra com azeite, sal e vinagre. Ela questionou qual o azeite que ele havia usado. Ele disse que aquele menor, que estava aberto. Dora ficou furiosa, caminhou até o marido, que revisava um contrato importante de sua empresa na sala, e perguntou se ele não era capaz de diferenciar o azeite do dia a dia do azeite grego carésimo que só poderia ser utilizado em situações muito especiais. Ele disse que não. E afirmou que se o azeite era bom, eles deveriam usá-lo. Não?

Dora virou as costas. Foi reclamando para a cozinha, dizendo que ele não tinha regras e que não era capaz de respeitar as que ela estabelecia para aquela casa. Geraldinho levantou-se, foi até ela e deu-lhe um abraço silencioso. Depois, disse que sabia que aqueles tempos não estavam sendo fáceis, depois da perda do pai e da saída do sócio do consultório. Dora ficou um pouco mais mansa, pensou até em agradecer o marido. Mas interrompeu o momento bradando “VOCÊ PAGOU A CONTA DA ÁGUA?!”. Paguei. “E A ESCOLA DO HEITOR?”. Também. “MARCOU A REVISÃO DO CARRO?”. Ih, esqueci.

Pronto. Dora começou um monólogo sobre a falta de responsabilidade de Geraldinho, que sempre se esquecia de alguma coisa. E que sempre colocava as ervilhas no canto do prato. Quarenta e seis anos, Geraldo. Você tem 46 anos e ainda fica tirando ervilha da torta. E seu ronco. E os dias em que você chega tarde do trabalho. E os dias em que você chega cedo. E a forma como deixa as escovas de dentes descabeladas em duas semanas. Francamente, Geraldo, francamente.

Geraldinho preferiu não discutir. Ela precisa extravasar, pensava. Jantaram praticamente em silêncio. Dora mexia no celular, olhando o saldo da conta conjunta, quando viu uma compra de R$67,90 na padaria e começou um novo sermão.

Geraldinho levantou-se e disse que aquilo acabava ali. Ela disse “não, não, eu não acabei de falar”. Ele disse “a gente acabou, Dora”. Ela emudeceu. Geraldinho foi para o quarto e pegou uma mala. Dora disse que finalmente ele teve coragem de assumir que não a amava mais. Que finalmente ele se portou como homem. Parabenizou-o, bateu palmas irônicas. Geraldinho já não sabia quem era aquela mulher. Atirou duas mudas de roupa na mala, a escova de dentes descabelada e o contrato da empresa.

Chegou na porta, virou-se para trás e disse “Eu te amo, Dora. Eu te amo, mas não te suporto mais”. Ela riu e disse “se você tivesse demonstrado algum amor, eu não seria tão insuportável como você diz”. Ele fechou a porta. Dora teve a certeza de estar certa. Enquanto isso, o amor de Geraldinho seguia boiando nas alcachofras da panela, nos boletos pagos no prazo e nos abraços mudos. Mas ela nunca os viu. Estava ocupada demais, queixando-se da falta de flores e de joias.

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