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Taturanas e outra infância

A digressão é o sal de uma conversa.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 02h13

Um papo sobre o sabor de um bom azeite extravirgem pode terminar numa distante noite de carnaval, que faz ruborizar homens grisalhos e mulheres de meia-idade.

Uma discussão sobre a violência de torcidas organizadas pode nos conduzir a uma visão do mar clareando e da lua na parede do céu, e terminar num belo poema de João Cabral de Melo Neto. Uma observação mordaz sobre as palavras de uma jornalista racista pode transcender a miséria de uma circunstância e evocar um dos pesadelos ou magias das Mil e Uma Noites, essas narrativas circulares e vertiginosas que tanto fascinaram Jorge Luis Borges e Machado de Assis.

Meu amigo olhava o piso do pátio e, de repente, disse que nos dias mais quentes do ano as taturanas descem das árvores e tornam-se verdadeiros rastros de fogo.

Rastros de fogo? Que mal fazem esses bichinhos cabeludos?

"Há taturanas terríveis... Algumas, do sul, são venenosas. Certa vez, quando o meu caçula tinha 2 anos de idade, ele pôs na boca um pedaço de uma taturana morta. Os pelos dessas lagartas podem causar anafilaxia, por isso meu filho foi internado. Meto a sola nesses bichos e sinto prazer quando escuto um estalo. Declarei guerra total às malditas..."

Meu amigo suava, e parecia possuído pelo ódio aos bichinhos marrons e esverdeados, que davam algum brilho e graça às lajotas do pátio.

"Além disso, elas devoram as folhas, ameaçam as pessoas descalças, queimam as criancinhas que brincam nos quintais, ruas, calçadas..."

Interrompi meu amigo: as criancinhas não brincam mais nos quintais, ruas e calçadas. Talvez essa infância ainda exista em aldeias, povoados isolados, ou em alguns bairros e subúrbios. Mas nas cidades e metrópoles, as brincadeiras da infância foram reduzidas a uma tela de tamanho variável. A experiência da infância está mudando, e a própria infância se transformou em outra coisa. Nunca a humanidade ficou tão distante das relações humanas. O pandemônio tecnológico criou um mundo paralelo, virtual, e até as crianças foram envolvidas por esse mundo.

"Mas outro dia vi você e sua filha jogando diante da tela..."

Joguei e perdi. Perco todos as disputas, as derrotas já fazem parte da rotina. Mas não são jogos de guerra, jogos que cultuam a violência, a destruição, a carnificina... Há ainda tempo para a leitura, para o silêncio dos livros? Tempo para fantasiar, em silêncio?

"Conto histórias para os meus quatro filhos", disse meu amigo, já livre do ódio às taturanas. "A menina e o filho mais velho leem muito, o terceiro é preguiçoso, e o caçula só lê o caderno de esportes... Ninguém é obrigado a ler, mas é vergonhoso que as bibliotecas de milhares de escolas públicas sejam salas vazias."

Não vamos falar de política, eu sugeri, com desgosto. Bem-aventurados os pais, avós e tios que ainda contam histórias a seus filhos, netos e sobrinhos. Mas... E a caligrafia? Alguém ainda escreve à mão? As crianças...

Na tarde abrasiva, ficamos calados, entregues à malemolência, num estado quase febril. Meu amigo adormeceu, sentado. E eu também fechei os olhos. Quando acordei, ele e as taturanas tinham sumido do pátio.

Dias depois suspeitei que esse amigo não me visitara; na verdade, eu tinha conversado comigo mesmo na tarde de um domingo de verão, propício a devaneios e até a pequenos delírios, em que tudo entra de cambulhada: bichos de fogo, caligrafia, joguinhos eletrônicos, crianças sem livros e sem infância, crianças que vivem outra infância...

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