Tássia Camargo volta às novelas com "O Cravo e a Rosa"

Dezesseis anos separam a Nicinha, da minissérie Rabo de Saia, exibida em 1984, da Joana Penaforte da novela O Cravo e a Rosa. Em comum entre as duas, além do vigor da interpretação de Tássia Camargo, o fato de serem enganadas pelos maridos. Se a voluptuosa Nicinha ignorava que o caixeiro-viajante Quequé (Ney Latorraca) tinha outras duas mulheres, Joana tampouco tem conhecimento de que Nicanor Batista (Luís Mello) é, na verdade, um milionário de família tradicional e também casado. De volta às novelas depois de quatro anos, a atriz encara o novo desafio depois de superar o trauma da morte da filha Maria Júlia, vitimada por uma rubéola congênita tardia, em 1996. Ela desenvolve ainda projetos teatrais para o próximo ano. Após ficar marcada como intérprete de mulheres sensuais, ela retoma as atividades em novelas e prossegue uma trilha pontuada de sucessos. Uma trajetória embasada no início pela experiência nos palcos em espetáculos do diretor Antunes Filho, uma escola inestimável para ela. Aos 39 anos, Tássia empresta à Joana uma sensualidade madura, bem diferente do furor espevitado e moleque de Nicinha. "Eu era uma menina na época", lembra. A menina amadureceu sem perder a beleza, superou adversidades e solidifica uma carreira muito além dos estereótipos de símbolo sexual. Estadão - Como está encarando esse retorno às novelas depois de quatro anos? Tássia Camargo - Mesmo que não tivesse ficado afastada esse tempo, haveria uma grande ansiedade. Isso acontece ainda mais depois de um período como esse. Todo trabalho novo gera uma expectativa, senão a criação acaba ficando sem graça. Fale sobre a Joana Penaforte, seu personagem em O Cravo e a Rosa, mulher por vezes até rude, mas de uma sensualidade à flor da pele. Ela é rude e, ao mesmo tempo, não é. É uma mulher diferente das outras dessa época, uma mulher da terra, meio índio, absolutamente espontânea. Além disso, ela ama desesperadamente o marido. Apesar de enganá-la, ele também a ama e acha que, se a Joana enriquecesse, certamente perderia as coisas que mais o agradam. Na casa dela, Joana tem atitudes que não poderia ter no palacete de Batista. Você passou por momentos extremamente difíceis com a perda de sua filha, há quatro anos. Como foi o processo de recuperação dessa dor e como se relaciona hoje com ela? Foi muito duro e ainda hoje é, para mim e para os meus filhos. Quando se altera a ordem natural das coisas fica tudo muito complicado. Na época tentei falar com o Ministério da Saúde, pois o que se dizia é que, como eu já tivera a doença, não poderia transmiti-la. Mesmo assim ela contraiu a doença. Agora estou tentando falar com a Fundação Oswaldo Cruz sobre o caso. Me separei de meu marido logo em seguida. Hoje, acho que estou mais amadurecida. Esta é uma palavra horrorosa, mas consigo administrar melhor a dor. Também trabalhei muito e isso ajudou. Ficou alguma lição espiritual desse episódio? Não tenho nada espiritual. Minha família é católica, mas nunca segui a religião, nunca acreditei em Deus. Procurei ajuda no Kardecismo e na filosofia Rosa Cruz. Atualmente acredito na energia da natureza, das pessoas, na minha própria energia. Você já foi dirigida algumas vezes por Walter Avancini (Tássia trabalhou com o diretor na minissérie Rabo de Saia (1984), nas novelas Chapadão do Bugre (87) e na segunda versão de Selva de Pedra (86)). Houve mudanças a cada processo ou ele mantém sempre a mesma relação com ator? Ele sempre se mostra mais amadurecido, se aprofunda constantemente no que faz. Falam de uma rigidez excessiva, mas acho que algumas pessoas confundem profissionalismo com rigidez. O Avancini olha no olho do ator, está sempre tentando provocá-lo para aquilo que ele quer.A Joana Penaforte tem algo em comum com a Nicinha de Rabo de Saia, um personagem marcante em sua carreira e que até hoje é lembrado? No primeiro dia de gravação da novela o Avancini falou: "Tássia, não é a Nicinha!" Eu era menina naquela época. A Joana é uma mulher que tem uma outra carga de sensualidade, embora também seja muito alegre. É a sensualidade de uma mulher mais madura. Alguns de seus personagens tiveram a sensualidade como traço marcante. Em algum momento a fama de símbolo sexual incomodou? Não comecei a carreira sendo sensual. Posei nua depois de alguns anos de carreira. Portanto, foi uma atriz que posou, e não uma aspirante a atriz. Além disso, nunca me deram personagens apenas sensuais. Qualquer mulher tem a sua sensualidade, mas não é só isso. Fale um pouco sobre seu início de carreira, sua experiência no teatro com Antunes Filho. Costumo dizer que meu pai no teatro é o Antunes e, na televisão, o Avancini. Os dois são parecidos na paixão pelo que fazem. Participei da segunda montagem de Macunaíma e de Nelson Rodrigues, O eterno retorno. Foram anos enlouquecidos. Às cinco da manhã tinha que nadar, às oito eram aulas de violino, às nove estudávamos Stanislavski. Eram cerca de quatro horas de espetáculo. Se a apresentação não tivesse sido boa, Antunes fazia os atores repassarem novamente a peça. Isso me deu muita disciplina. No início, nem queria fazer televisão, só teatro. Também tinha uma banda e era "crooner" em festivais de colégios e barzinhos. Aos sete anos, subi pela primeira vez num palco para cantar A Banda, de Chico Buarque, numa quermesse em Guarulhos (SP) (cidade natal da atriz). Ganhei um prêmio que detestei. Queria uma boneca e me deram sabonetes e perfumes (risos). Meu avô era ator, mas nunca cheguei a vê-lo em cena. Na TV comecei na novela Os Adolescentes, dirigida pelo Antônio Abujamra. Qual o papel das escolas de teatro na formação de novos atores? Talento, é claro, não se aprende na escola, mas é bom que haja a escola para ver se a pessoa tem algum talento. O teatro é a base de tudo. E a experiência de dar aulas de interpretação para Xuxa no filme Xuxa Requebra e num dos especiais de fim de ano da apresentadora? Foi uma surpresa. Já tinha dado cursos de teatro e cursos de interpretação em vídeo com o (diretor) Reinaldo Boury. Xuxa é disciplinada e atenta, além de muito estudiosa, foi um grande prazer trabalhar com ela. Teve ainda a experiência de estar do outro lado das câmeras. Gostaria de dirigir um dia, mas não sei quando vou ter esse amadurecimento. Como surgiu seu interesse pelo texto teatral Intimate Exchange, do inglês Alan Ayckbourn? Como anda o projeto da montagem do espetáculo? Era pra ter estreado em maio deste ano, mas ficou difícil por causa das gravações da novela. Adiei para 2001. Assisti a um filme com a adaptacão desse texto e fiquei fascinada. É uma mistura de drama e comédia, com dois atores em cena. Estou captando recursos através da Lei Rouanet. A adaptação foi feita pela Valderez Cardoso Gomes, que já trabalhou algumas vezes com o Antunes e é maravilhosa. Seus filhos demonstram interesse em seguir a carreira artística (Tássia é mãe de Diego, 16 anos, e de Pedro, 13 anos)? O Pedro adora pintura a lápis, é muito ligado no trabalho do Ziraldo. O Diego brinca de cantar. Mas ainda é muito cedo para se dizer se eles vão escolher o caminho artístico. Eu mesma, na adolescência, sempre adorei, era algo que me dava um grande bem-estar. Hoje, tenho certeza de que não tenho útero para subir no palco e fazer um show (risos). Como é a sua rotina fora das gravações? Gosto muito de ficar em casa. Moro no Leblon e costumo andar na praia. Também gosto de ler. Atualmente estou lendo Notas de Manfredo Rangel, do Sérgio Santanna, e estou adorando.

Agencia Estado,

18 de julho de 2000 | 21h52

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