Tarsila inspira peça sobre o modernismo

Elegante e bela, Tarsila do Amaral (1886-1973), pintora, musa do modernismo brasileiro, vai entrar em cena. E não é força de expressão. A partir de novembro, a criadora do Abaporu, A Cuca, Antropofagia e outras pinturas/ícones do movimento modernista, terá sua vida contada em um espetáculo teatral. Tarsila é o nome da obra e Maria Adelaide Amaral, o de sua autora.Na montagem, em fase de articulação de equipe e captação de recursos, um nome está certo no elenco, até mesmo porque ao seu redor criou-se a idéia da peça. Ester Góes será a protagonista. A direção caberá a Sérgio Ferrara, que imaginou a atriz encarnando Tarsila do Amaral enquanto ensaiavam Abajur Lilás, de Plínio Marcos, que estreou em março de 2001 e encerrou sua carreira há duas semanas, no Teatro Villa-Lobos, no Rio. Em Tarsila, Ester Góes contracenará com três atores, ainda não escolhidos, aos quais caberão os papéis dos poetas Oswald de Andrade, marido da pintora, Mário de Andrade, seu amigo, e Anita Malfatti, amiga e rival artística.Tarsila pôde vir à luz graças a uma brecha que a TV Globo abriu na agenda de Maria Adelaide. Ela deveria estar redigindo há meses a novela A Dança da Vida. Mas o projeto foi adiado, pois trata de ética e política e "estamos em um ano eleitoral", segundo um representante da emissora afirmou à dramaturga. Ao mesmo tempo em que tocava outros vários trabalhos, entre eles um romance e um roteiro para cinema, a workaholic Maria Adelaide Amaral, autora das elogiadas minisséries A Muralha e Os Maias, encontrou o tempo de que necessitava para mergulhar em algumas dezenas de livros e deles extrair as informações que a levaram à tessitura de sua Tarsila.O texto ficou pronto há poucas semanas e uma leitura realizada para amigos, com a própria escritora no papel de Anita Malfatti, deixou os ouvintes entusiasmados. A convite do Estado, Maria Adelaide e Ester Góes encontraram-se para falar da personagem, da obra e do trabalho. Embora suas produtivas carreiras, iniciadas nos anos 70, sejam paralelas, pelas primeira vez as duas estão reunidas em um mesmo trabalho.Como surgiu a idéia da peça sobre Tarsila? Ester Góes - No filme de Norma Bengell (Eternamente Pagu, 1987), interpretei Tarsila. Para mim, os modernistas eram gigantes inatingíveis, figuras da história. Mas ao fazer Tarsila, fui ler sobre essas figuras. Comecei justamente pelo livro de Aracy Amaral (Tarsila - Sua Obra e seu Tempo, Edusp/Perspectiva, 1975). E fiquei fascinada. Ri muito ao descobrir como eles realmente eram. Quantas fofocas circulavam ao redor daquela turma. Pareceram muito próximos de nós. Seres reais. Isso me interessou muito mais do que os personagens históricos que estudei na escola. E havia casos fantásticos, como o de um loteamento de terrenos do Oswald em Pinheiros. Nunca mais esqueci disso. Maria Adelaide Amaral - Então, me convidaram para ver Abajur Lilás e, ao final, saímos para jantar, eu, Ester e Sérgio (Ferrara). Foi quando eles me propuseram escrever uma peça sobre Tarsila do Amaral. Sérgio disse depois que percebeu quando meus olhos cintilaram. E é verdade. Fiquei interessadíssima. Mas não podia nem pensar no assunto naquele momento, pois estava prestes a começar a escrever uma novela para a Globo. Quando ela foi adiada para 2003, em novembro do ano passado, telefonei para Ester e disse-lhe que ia aproveitar aquele tempo, com que eu não estava contando, para escrever a peça. E mergulhamos, então, ela e eu. Foram sete meses de intenso trabalho, de muita pesquisa.A peça tem como personagens Oswald, Mário, Anita. Por que o nome, "Tarsila"?Maria Adelaide - Porque Tarsila é a protagonista. A peça se constrói ao redor dela.Em que consistiu a pesquisa sobre a personagem? Maria Adelaide - Quando falo em pesquisa não me refiro apenas aos livros sobre a personagem, dos quais, sem dúvida, o da Aracy Amaral me parece o mais completo e importante, mas também a correspondência deles. E entrevistas com pessoas que os conheceram, a começar pela própria família. Tivemos uma segunda-feira memorável. Fomos para o interior de São Paulo, para Mombuca, visitar um dos sobrinhos dela, Guilherme. E sua sobrinha-neta, Tarsilinha, nos levou para conhecer quatro das muitas fazendas do pai de Tarsila. Visitamos as fazendas Sertão, São Jerônimo, São Bernardo, Santa Tereza do Alto e pudemos mergulhar no mundo em que ela viveu por longos períodos. Entrevistei Antonio Candido, Jorge Miguel Marino, especialista em Mário de Andrade, Telê Ancona Lopes, que abriu para mim o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, além de Beth Malfatti, sobrinha de Anita, Helena Amaral, Aracy Amaral, Tuneu (pintor, aluno de Tarsila). E lemos todos os livros escritos sobre eles, a correspondência do Mário de Andrade com vários escritores e amigos, toda a correspondência da Tarsila, da Anita. As famílias de Tarsila e Oswald nos acolheram muito bem. Durante cinco meses, eu e Ester fizemos uma pesquisa intensa, até que eu me sentei para escrever e, então, durante dois meses, elaborei a peça. Tenho de dar um crédito importante para a professora Gilda de Mello e Souza. Quando fui falar com Antonio Candido sobre o projeto, a professora perguntou-me quem seriam os personagens. "Tarsila, Mário e Oswald", eu disse. E ela respondeu: "Está faltando uma pessoa nessa sua história. É Anita Malfatti." E estava faltando mesmo. Anita estabeleceu um contraponto muito interessante com Tarsila.Ester, como você vê Tarsila hoje e o que ela representa? Ester - Ela é um exemplo. Uma mulher viajada, culta, que foi atrás de sua arte. E não era de discutir: fazia. Quem debatia as teorias eram eles, Mário, Oswald, os outros. Ela era prática, executava. E não tinha medo. Fez e aconteceu, casou mais de uma vez, e isso em uma São Paulo provinciana, nos anos 20, 30. E era muito elegante. Reagia pelo silêncio. Foi assim que ela fez em 1929, quando Oswald se mandou com Pagu (Patrícia Galvão, escritora), a amiga que Tarsila havia levado para dentro de casa. Como resposta, ela se recolheu discretamente.Maria Adelaide - E não ficou chorando. Algum tempo depois de se separar do Oswald, já estava com novo companheiro. E no início dos anos 30, casou-se com Luís Martins, jornalista, 20 e tantos anos mais novo que ela. Se isso é um escândalo hoje, uma mulher com um rapaz muito mais jovem, imagine naquele tempo. Eles ficaram casados até o início da década de 50. Construíram sólida relação.Ester - Tarsila nunca entregava os pontos. Morreu com mais de 80 anos, e nos últimos anos de vida, já em cadeira de rodas, sem enxergar, perguntaram a ela com o que estava se ocupando, e ela respondeu: "Estou aprimorando meu inglês". Acho fascinante isso. Ela estava aprimorando seu inglês.De que forma a história é contada pela peça?Maria Adelaide - Tem uma parte histórico-biográfica. Comecei e terminei como se ela estivesse dando uma entrevista. Enquanto ela se arruma, ouve-se a voz dela em off. Assim, as várias fases de sua vida vão sendo pontuadas com depoimentos dela e projeções das obras. Vai ser fundamental mostrá-las. Não sei como Sérgio vai fazer com essas projeções, mas ele está muito entusiasmado e creio que ele já descobriu como trabalhar com isso. As imagens dela têm de aparecer. Estamos falando de uma pintora, não de uma escritora.Ester - E há também o fato de que as figuras em cena estão muito humanizadas. O que a peça mostra são seres humanos com seus defeitos, suas qualidades. Isso é importante.Como era Tarsila? Maria Adelaide - Uma mulher que viveu uma vida plena, produtiva, e foi feliz. Enfrentou tragédias, como a morte da única filha, Dulce. Mas não ficou amarga. Apesar do escândalo que foi sua separação com Oswald, permaneceu amiga até a morte dele, ilustrava seus livros. A única pessoa a quem ela jamais perdoou foi Pagu, a quem se referia como "a normalista". Mas foi essa sua única mágoa.Ester - Adelaide entrou de fato no universo dela. Cheguei a vê-la tomada. Não só por Tarsila, mas pelos outros modernistas também, por suas vidas.Maria Adelaide - É verdade. Cheguei a ter sonhos nos quais conversava com eles. Fiquei apaixonada. Mas não sei trabalhar de outra maneira. Tenho esse impulso. E se eu não me apaixono por um trabalho, não fica legal, eu não consigo. Estava falando de seres de verdade. Tinha de entrar no território deles de modo muito intenso. O grande problema, quando se lida com mitos, é ir atrás de seus demônios, tornar essas figuras mais humanas. Por isso foi um processo demorado. Tarsila tem início em julho de 1922, quando ela, uma jovem rica que volta da Europa e não gosta de arte moderna, conhece o grupo dos modernistas. E acompanha-a até o final da vida, por meio de cenas, depoimentos, projeções.Ester - E a peça mostra, como de fato aconteceu na vida, que aquele momento dos anos 20 foi o mais importante da carreira deles. Nunca, depois, conseguiram criar obras com a mesma importância, a mesma projeção. Tarsila, Oswald, Mário, Anita, todos eles atingiram então uma espécie de auge coletivo.Maria Adelaide - E que se desfez quando uns romperam com os outros em 1929. Quanto a isso não há dúvida. É um fato registrado por historiadores do modernismo. Devo dizer que, foi maravilhoso, um presente, ter podido entrar nessas vidas como entrei, para recriar em cena o clima em que eles viveram, registrar seus erros e acertos e as muitas lições que deixaram. Foram grandes artistas, que é preciso conhecer.

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