Tarsila do Amaral é alvo de disputa entre cidades

Quando a artista plástica Tarsila do Amaral presenteou o marido e escritor Oswald de Andrade com o quadro Abaporu, em 1928, ele teve uma clarividência absurda. Depois de ver a pintura da mulher, esclareceu num manifesto todas as amarguras contidas desde a Semana de Arte Moderna de 1922. Assim nasceu a Antropofagia, provavelmente o mais importante movimento da contracultura brasileira, centrado na busca da nossa conformidade artística pela deglutição das vanguardas européias. "Tupy, or not tupy that is the question", sentenciava Oswald na frase que marcou o manifesto.Anos depois, Tarsila teria seu próprio insight, mas do seu jeito modesto, caipirinha. Depois de uma amiga confessar-lhe que a figura do Abaporu lembrava seus pesadelos, ocorreu à artista que aquilo realmente fazia parte de sua infância na fazenda São Bernardo, onde morara até os 8 anos de idade. A "figura solitária monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado repousando num joelho, a mão sustentando o peso-pena da cabecinha minúscula", como descreveu a própria artista, era nada mais que uma reconstituição onírica das histórias que suas ama-secas lhe contavam na hora de dormir. O casarão onde estas histórias tomaram o imaginário da pintora, e criaram mais tarde o Abaporu e a Antropofagia, ainda existe, no pequeno município de Rafard, à 160 quilômetros de São Paulo.Ex-distrito de Capivari, Rafard emancipou-se em 1964, e é dentro de seu território onde se encontra a fazenda São Bernardo. Por isso, o município de Rafard busca o título de cidade natal de Tarsila do Amaral. Criada a polêmica no fim do ano passado, Capivari muniu-se do documento de batismo da pintora e das biografias escritas sobre ela e não está disposta a abrir mão da honraria. "Os aspectos geográficos não são preponderantes", diz o sobrinho de Tarsila e seu último procurador legal, o advogado Guilherme Augusto do Amaral. "O fato é que as primeiras inspirações dela como artista ocorreram num vilarejo que já naquela época se chamava Rafard."O primeiro quadro ? O município de Rafard, entretanto, não quer somente o título de cidade natal da pintora. Está organizando uma grande movimentação cultural em prol da artista. Foi criado o Conselho Municipal de Preservação Histórica e Cultural que, entre outras coisas, pretende construir um museu e um memorial para Tarsila, praticamente esquecida por Capivari. "A cidade vizinha tem um trecho de uma rua com o nome dela e um busto doado por um escultor, mais nada", afirma a historiadora Rita de Cássia Martins, membro do conselho e coordenadora de cultura do município de Rafard. "Nós queremos que as pessoas daqui da cidade conheçam a vida da artista e entendam seus quadros, sua vanguarda", explica. Para isso, as salas de aula da região estão contando com um reforço pedagógico sobre a história dos modernistas e a vida de Tarsila. Está sendo preparada, também, uma exposição itinerante que vai às escolas mostrar painéis com reproduções e um variado material didático sobre a pintora. A construção de seu memorial numa antiga estação de trem da cidade também está assegurada. A única incerteza é a criação de um museu na casa da fazenda São Bernardo, localizada hoje dentro de uma área pertencente à Usina Rafard, dedicada à exploração sucroalcooleira. "Estamos nos esforçando para convencer a diretoria da usina sobre a necessidade de preservação histórica do lugar, pois existe a possibilidade de demolirem a casa", lamenta Rita.Dentro desse movimento artístico, o museu tem uma maior representação cultural para a cidade. Além do patrimônio mais importante que é o próprio casarão centenário ? antes de ser comprado pelo avô de Tarsila havia pertencido ao conselheiro Bernardo Avelino Galvão Peixoto, o 34.º governador da província do Rio de Janeiro ?, existem em outras fazendas da região objetos relativos à família que reconstroem, quase completamente, a genealogia dos Amaral no Brasil. Na fazenda dos tios de Tarsila, a poucos quilômetros dali, estão objetos antiqüíssimos, como a cama dos pais da artista, o suntuoso coche usado pela família para ir até a cidade e livros que serviram aos primeiros estudos da menina. Há, ainda, um belíssimo retrato de Tarsila adolescente, pintado pelo artista italiano Enrico Vio, e o mais valioso de todos objetos: o primeiro quadro que ela pintou na vida, aos 15 anos. Trata-se de um Sagrado Coração de Jesus, que espantou as freiras do colégio onde estudava, por causa da perfeição e realismo da pintura.Biografia ? Paralelamente à polêmica, Tarsila do Amaral está escrevendo sobre Tarsila do Amaral. Não, não se trata de uma autobiografia psicografada. Tarsila do Amaral é o nome da sobrinha-neta da artista, que pesquisa há dois anos um vasto material sobre a tia, incluindo entrevistas que coletou com os parentes e amigos vivos que tiveram contato com a modernista. Filha de Guilherme Augusto do Amaral, ela também é membro do conselho que defenderá o tombamento da fazenda São Bernardo. "Conto no meu livro uma passagem em que minha tia, já na velhice, visitou Rafard, pois pedira que a levassem até a fazenda onde havia nascido", lembra Tarsila. "Rafard é a referência de seu primeiro berço, mas o que importa é que ela é do Brasil."Tarsila também está entusiasmada com o futuro museu. "A família e os amigos deverão colaborar com acervos particulares e, com outras relíquias que tentaremos colocar na casa, o resultado pode ser belíssimo", prevê. Dessa busca pelas origens da tia nas fazendas, cartórios e bibliotecas da região de Capivari, a sobrinha da artista acabou adicionando muito material à sua biografia, como diversas fotos e textos de Tarsila nunca publicados, entre eles o poema Harmonia (veja link abaixo). "A infância de minha tia, como ela sempre fez questão de ressaltar, foi importantíssima para que seu trabalho adquirisse a forma que atingiu", observa a sobrinha. Isso explica a temática predominantemente sertaneja na obra de Tarsila do Amaral, principalmente nos primeiros dez anos de seu trabalho. Certa vez, ela afirmou que era "profundamente brasileira" e estudaria "o gosto e a arte de nossos caipiras". Completava dizendo que esperava, no interior, aprender com "os que ainda não foram corrompidos pelas academias".Orientação ? Tarsila do Amaral, a sobrinha, que é amazona há 22 anos e já conquistou diversos títulos, tem um importante suporte para sua primeira aventura literária: o escritor Jorge Caldeira, autor de Mauá ? Empresário do Império e A Nação Mercantilista. Apesar de Tarsila ter formação em Direito, ela admite que Caldeira está sendo uma importante ajuda na formatação geral do livro. "Ele é um grande orientador; neste momento, está revisando a versão final da biografia", conta Tarsila. Depois, para o lançamento, faltará somente a parte gráfica da obra e o contrato com uma editora para distribuição.Tarsila se aproveita do contato pessoal que chegou a ter com a tia homônima para escrever seu livro. "Apesar de ter sido sempre muito atenciosa e bem-educada, ela não era de pegar criança no colo e brincar, a não ser comigo", lembra a sobrinha. "Talvez pelo fato de termos o mesmo nome, ela adorava colocar-me no colo e ficar perguntando sobre minhas ?artes? de moleca; dávamos muitas risadas juntas."Ao folhear e pesquisar os pertences de Tarsila, a sobrinha admite que é inevitável emocionar-se e muitas vezes terminar em lágrimas. A paixão adquirida no desenvolvimento do livro foi tanta que ela já tem projetos futuros, como um livro infantil sobre a carreira da tia. "Uma das coisas mais lindas que já fiz na minha vida foi conhecê-la por meio dessa pesquisa; me senti como se convivesse com ela novamente."

Agencia Estado,

13 de julho de 2000 | 01h46

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