Imagem Ignácio de Loyola Brandão
Colunista
Ignácio de Loyola Brandão
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tarde mágica na feira de Ribeirão

De repente, aquele homem alto, forte, cabelos grisalhos, sorriso amigável me assustou, quando subiu ao palco em dois saltos e veio me abraçar. Sussurrou em espanhol, mesclado ao francês. "Trago a saudade de Berlim para você, este é o abraço da cidade que, sei, você ama." Afastei-me um pouco e nesse momento, quatro décadas se escoaram e me vi com Hans Christoph Buch, no Paris Bar, em Berlim, nos anos 80. Ele me foi apresentado pelo Peter Schneider, então enfant gâté da jovem literatura alemã, da geração de escritores que mudava os rumos de um país em ebulição, levantando temas como o muro, o nazismo, turcos, gays, minorias de todo o tipo, partido verde.

IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2013 | 02h12

Hans, que se denomina escritor viajante, correu mundo e ainda corre. Dele disse o poeta e ensaísta Hans Magnus Enzensberger: "Quando Hans não está viajando, vive em Berlim". Viveu e trabalhou na África, no Haiti, em Cuba, na América do Sul, foi professor visitante em Nova York, em San Diego, Austin, Hong Kong, Buenos Aires. Hans e Schneider, dois de meus melhores amigos naquele período em que vivi na cidade e descobri lugares que poucos conhecem. Frequentávamos bares, restaurantes, cabarés, leituras, parques. Eles me abriram e me fizeram amar a cidade.

Ao longo deste tempo todo, nos vimos esporadicamente, sempre encontros fraternos. Mas fazia 20 anos que me distanciara de Hans Christoph, bom conversador, bem-humorado, irônico. Daí o sortilégio da tarde de domingo passado, em Ribeirão. Nada surpreendente ele estar ali, porém muito bom para o status da feira, cada vez maior, mais envolvente. Eu tinha acabado de fazer uma conversa sobre o livro Solidão no Fundo da Agulha, ao lado de minha filha Rita Gullo. Foi na sala principal do Teatro Dom Pedro II, e nos alegramos todos. Literatura é, acima de tudo, prazer. Rita cantava, eu falava. Fomos nos alternando, porque o livro tem texto e CD. Domingo, praticamente horário de almoço, o jogo Brasil-França estava para começar, ninguém se importava. Na sala ao lado, falava Affonso Romano de Sant'Anna, casa lotada.

Assim tem sido a Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que chegou em ritmo alucinante à sua 13.ª edição, número de bom agouro, ao contrário do que se diz. Moro em um 13.º andar e sou feliz. Tive sorte de fazer um ginásio e científico com 13 matérias, todas eliminatórias. Aos 13 anos, ganhei Alice no País das Maravilhas e minha cabeça mudou. A fantasia e o delírio é que mandam, decidi. Estive cinco vezes nesta feira. Ela cresceu, explodiu. Não coube mais no espaço central a que estava confinada. Abraçou a cidade. Afirmo tranquilo: está entre as cinco melhores do Brasil.

As Bienais de São Paulo e do Rio são nada perto dela, pela programação, pela aproximação com o povo. Ela é grátis, não existe o princípio odioso de se pagar para ver livros num espaço fechado e barulhento. É uma feira rodeada pelo orgulho e pelo carinho da cidade. Você precisa apanhar o programa e decidir o que ver e executar uma logística apertada. Os estandes de livros ainda ocupam a praça em frente ao teatro, mas agora também se estenderam ao parque Maurilio Biagi, além de ocupar os Estúdios Kaiser - lugar histórico - do empresário Edgar Castro que realiza um trabalho voluntário ao lado de Heliana (com H, ela sempre me alerta) da Silva Palocci e da presidente Isabel de Farias. Imaginem que a presidente entrou pacientemente na fila de autógrafos, ela que tinha todo o direito de furá-la, porque é das pessoas mais solicitadas. Sem esquecer a incansável Laura Abbad, que fica por trás, convidando, coordenando, correndo, se desesperando, se alegrando, brigando.

A Feira de Ribeirão já faz parte do calendário da cultura nacional. Por que outras cidades não a imitam, não buscam o know-how, em lugar de ficarem promovendo 'seminariozinhos' sobre formação do leitor com discussões acadêmicas e estéreis? Foram mais de 300 eventos (a feira termina domingo) que partiram da aula espetáculo, de Ariano Suassuna aos shows de Gilberto Gil, Verônica Ferriani, Diogo Nogueira, Hélio Ziskind (a criançada cantou e dançou com ele), Larissa Baq, às falas de Thiago de Mello, Menalton Braff, Pedro Bandeira, José Luis Tejon, Tania Zagury, Luiz Felipe Pondé, Humberto Werneck, Frei Beto, Viviane Mose, Zuenir Ventura, Audálio Dantas, Jairo Bouer, Ricardo Kotscho, Rubem Alves, Flávio Gikovate, Gilberto Dimenstein e dezenas de outros de bom quilate. E mais os Cafés Filosóficos, os Salões de Ideias, as oficinas criativas, as mesas de debates e o amplo espaço aberto aos escritores locais. E, claro, Christoph Buch, que fez uma fala emocionante sobre identidade e não identidade.

Ao voltar, quando o avião sobrevoava Ribeirão, me vi na adolescência em minha cidade, distante apenas 90 quilômetros, quando se perguntava: e isto? Um livro, um disco, um produto, um alimento, um tecido, sapato, perfume, fosse o que fosse. A resposta era: tem em Ribeirão, vamos lá. Refiz a pergunta hoje que pode vir de qualquer cidade paulista ou brasileira: E feira de livro? É a de Ribeirão. Não me queiram mal as outras cidades.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.