Tapuiassauro

Tapuiassauro é o nome provisoriamente dado ao dinossauro brasileiro mais recentemente descoberto, em Minas Gerais, cujos fósseis indicam que ele viveu há mais de 110 milhões de anos, no período Cretáceo. Mas bem poderia ser o apelido do Leviatã à moda da casa, o monstro do poder público que Hobbes descreveu em 1615 e que no Brasil ganhou uma face doce e benevolente, apurada ao longo dos séculos, sob governos oligárquicos. Quando se lê a história do balcão montado na Casa Civil pela ministra Erenice Guerra, amiga, braço direito e sucessora da candidata Dilma Rousseff, o que choca não é a novidade, mas a maneira como os fatos parecem antigos, tributários de priscas eras. A diferença é que os fósseis não são de um animal extinto.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Durante décadas ouvimos de gente supostamente de "esquerda" que o PT ia romper com a apropriação da máquina pública por grupelhos particulares. Durante oito anos de governo Lula não vimos nada senão isso. Outro dia li um desses articulistas que juravam que o socialismo democrático seria a salvação do Brasil, em oposição ao suposto neoliberalismo dos governos tucanos, qualificar Dilma de "esquerda" e Serra de "direita". Afora a infantilidade da catalogação, que mostra que certas espécies não evoluem, fica a pergunta: como é que pode ser chamado de um governo de "esquerda" um que se devota tão aplicadamente à mais conservadora tradição brasileira? Sei, vão dizer que ser de "esquerda" é defender o papel do Estado, ignorando como o que eles mesmos chamam de "direita" gosta de um governo forte, à la George Bush ou Costa e Silva, que interfere na vida produtiva e pessoal ao máximo possível.

A violação de sigilos fiscais por servidores da Receita, aloprados ou comandados, não é outro caso; é o mesmo. Erenice expandiu seus tentáculos familiares - filho, irmão, amigos, etc. - para todas as partes, usando expedientes vezeiros como oferecer vitória em licitação em troca de dinheiro de campanha. Sua noção de liberdades individuais, da separação entre Estado e sociedade, simplesmente não existe, ou então só existe para os inimigos. Violar um sigilo é ter a mesma desconsideração pelo fato de que as autoridades foram eleitas por nós e devem nos servir, não o contrário. Do caseiro Francenildo aos milionários fora dos esquemas, todos estão à mercê da facilidade com que ocupantes da máquina oficial xeretam suas vidas. Eles simplesmente acham que o Estado tem todo o direito, e não por acaso quem criou o Gabinete Civil foi Getúlio Vargas e quem o consagrou foi Ernesto Geisel.

As comparações com Mussolini e outras frases tucanas só atrapalham. Primeiro, porque a população não vê o PSDB como exceção à regra, tanto é que os escândalos não mudaram as pesquisas eleitorais. Segundo, porque não se trata de um fascismo institucional, e sim da velha e boa malandragem brasileira. Obviamente, apesar das justificativas de intelectuais e artistas, essa malandragem é antidemocrática. Volto a dizer que o governo Lula lembra os do regime militar, principalmente em sua retórica do "Brasil Grande" e "ame-o ou deixe-o" e em seu gosto por estatais faraônicas. Mas não se trata de um regime autoritário, apenas de um governo que periodicamente tenta violar algumas regras da democracia. Lula é popular não porque faz lavagem cerebral dos brasileiros, mas porque a economia está melhor e o desemprego caiu.

Acontece que o problema é cultural; é da leitura que se tem feito da atualidade política, na maioria dos casos guiada por uma desonestidade intelectual persistente. Se alguém critica o PT por essa sequência acachapante de rupturas com a ética (único tipo de ruptura que fez, já que, de resto, só seguiu os acertos e os desacertos do governo anterior), imediatamente ouve que "todos roubam", é xingado de "tucano" e recebe uma lista dos números comparativos da economia (até mesmo o número de pontos da Bolsa de Valores, que eles antes diziam ser uma ciranda financeira elitista). O articulista de página 2 que citei, por sinal, acha que Lula fez "uma inclusão (sic) inédita na história", o que é mentira (até Getúlio, JK e os militares aumentaram mais a renda média do trabalhador) e esconde a base de boa parcela dessa melhora (o Plano Real, as privatizações e os programas sociais que antes os petistas tanto criticaram). E nada mais "direitista" do que brandir estatísticas para desculpar a falta de ética, pois ética não se mede em gráficos.

Acho que nem o PSDB e muito menos o PT mudaram o modo brasileiro de exercer o poder, como deveriam ter mudado. Note que nesse caso Erenice não havia partidos "aliados" para dividir a conta do mensalão, nem exemplos semelhantes na oposição para anular o efeito; eis o motivo por que ela teve de ser demitida. Note também a postura da futura presidente, Dilma: "Onde está a prova do meu envolvimento?", pergunta na célebre linha consagrada por Lula, "não vi e não sei"; ninguém disse haver prova, então não entendo a necessidade da candidata de rebater o que não foi dito. Se o governo Lula aprimorou as políticas econômica e social do governo FHC, aprimorou também os caminhos da corrupção e da impunidade. Pegou o dragão estatal e lhe deu nova vida, com os mesmos métodos do loteamento político e das empreitas viciadas, só que reforçados pelo vale-tudo das declarações e pela militância das ocupações.

Outra prova indubitável de desonestidade intelectual é a dos que dizem que essas notícias só estouram em época de eleição, ou seja, não merecem crédito porque têm interesse político, movido pela "grande imprensa" a serviço da "zelite". Bem, a zelite está felicíssima com o governo Lula, tanto é que Dilma ganha em todas as classes, regiões e instruções (com diferenças de porcentagem, mas ganha), as revelações nunca vêm da mídia de massa, a TV, e fatos são fatos. Eu também gostaria que outras Erenices viessem à tona em anos não eleitorais, porque tenho certeza de que existem muitas delas, que nem a Justiça nem a imprensa conseguiram revelar ainda. Mas que as acusações são graves e refletem um padrão histórico brasileiro, sobre o qual não resta quase nenhuma esperança de que vá mudar tão cedo, é inegável. O Tapuiassauro continua forte e vigilante, e as presas somos todos nós.

Terpsícore. No sábado retrasado fui ver a São Paulo Companhia de Dança, que em pouco tempo já demonstra uma consistência de trabalho e repertório muito longe de usuais em terras tapuias. Ela repetiu a apresentação de Temas e Variações, de Balanchine, sobre música de Tchaikovski, com um pas-de-deux que dialoga com o clássico e ao mesmo tempo é moderníssimo; e terminou a noite com uma peça de outro coreógrafo genial, Seis Danças, de Jiri Kylián, com números cômicos a partir da música e da época de Mozart (que adoraria rir das perucas empoadas). Mas o prato principal foi o Prelúdio à Tarde de Um Fauno, música de Debussy a partir de poema de Mallarmé, coreografia de Marie Chouinard a partir das fotos da lendária apresentação de Nijinski em Paris em 1912. Dá para imaginar o escândalo que aquilo causou há quase cem anos, mas dá para imaginar também que a beleza grandiosa ficou mais na memória do que o choque moral.

De la musique. Beleza também é o Haydn de Antonio Meneses. Faz semanas que escuto o CD, quase continuamente. Fiz pausas para ouvir o Ária de Djavan (com voz nasalada e arranjos simplórios que não fazem jus ao grande cantor que é) e o celebrado The Suburbs, do Arcade Fire (que me pareceu um The Smiths revisitado), mas os concertos de violoncelo de Haydn são muito ricos e Meneses pega todas as nuances, como bom herdeiro de Pablo Casals. Corra e escute.

Duas lágrimas. Para Wesley Duke Lee, aos 78 anos, um artista muito capaz e interessante, que sabia combinar a técnica e a ironia como raros em sua área. Quando fiz uma matéria sobre sua retrospectiva no Masp, visitei sua casa e ateliê na avenida João Dias. Pela fachada da casa não se adivinhava o interior repleto de livros e objetos e, nos fundos, um jardim japonês, com carpas e tudo. Ele era muito bom no desenho, tinha muita cultura, formou toda uma geração com suas aulas e seu exemplo e teve um papel importante na criação de uma arte pop brasileira; seu Helicóptero, com colagens de imagens tiradas da mídia, sempre me lembrou Rauschenberg. E isto é um baita elogio.

A outra lágrima é para Claude Chabrol, aos 80 anos, mais um - como Eric Rohmer, morto também neste ano - que é elogiado por ser precursor de algo (a Nouvelle Vague de Truffaut, Godard e companhia) e não por sua obra em si. Gosto de sua primeira fase, de Os Primos até O Açougueiro, e especialmente de seus filmes maduros, como Um Assunto de Mulheres, Mulheres Diabólicas e Madame Bovary, para mim a melhor adaptação do clássico de Flaubert, com Isabelle Huppert primorosa. Chabrol sabia da sutileza feminina.

Por que não me ufano. Alguns emails tentaram responder às minhas perguntas sobre a onda espiritista, ensinando que as almas têm uma matéria "mais tênue, menos densa" e "povoam os espaços infinitos", que falam conosco por uma "sintonia mental" e que "todos somos médiuns", apenas alguns são mais "puros" e "preparados" para a missão. Bem, prefiro a companhia dos que têm matéria impura a falar com os mortos. E, quando morrer, me deixem descansar.

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