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Laura Greenhalgh
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Tantas teclas

Depois da maratona com autoridades, religiosos, jovens peregrinos e o povão, ele ainda deu duas entrevistas reveladoras - a uma emissora de TV e a bordo do avião que o levou de volta para a Itália. Francisco, o papa que carrega a própria mala, trabalhou um bocado no Brasil. Mas, claro, sempre se poderá dizer que faltou a ele tocar neste ou naquele ponto.

LAURA GREENHALGH,

03 de agosto de 2013 | 02h14

O fato é que, entre um "bota fé" e outro, Jorge Bergoglio justificou por que os cardeais de Roma foram buscar um papa no fim do mundo. Da globalização da indiferença, uma de suas teclas sonoras, ele enveredou pelo Vatileaks e foi duro com corruptos na Cúria. Insistiu no compromisso com a pobreza. Criticou a visão marxista na interpretação do Evangelho, mas não poupou restauracionistas atados aos pilares dogmáticos. Tratou dos gays ("quem sou eu para julgá-los?"), dos divorciados e pediu maior participação das mulheres na Igreja, "uma instituição que sempre precisa mudar".

Quando bateu na tecla das mulheres, fez afirmações que podem ter soado contraditórias. Se cravou que Maria "tem mais importância na Igreja do que bispos e padres" e que hoje as mulheres não podem apenas ser coroinhas, catequistas ou dirigentes da Caritas, o papa também fechou a porta da discussão sobre a ordenação feminina. "Não haverá", disse. Sobre isso seguirá formulação de João Paulo II, que considera "definitiva". Pergunta que não quer calar: como alavancar a mulher numa instituição que coloca sobre sua cabeça um teto irremovível? Martelei essa questão nos últimos dias. Li, pesquisei, falei com especialistas. Estou convencida de que a fala de Francisco foi positiva e que, formulações à parte, a Igreja muda. Um dia há de rever o veto à ordenação de mulheres - tema que nem afeta os dogmas da fé. O que temos agora: maior participação feminina, numa Igreja mais colegiada. Bom sinal. Em frente.

Pesquiso mais e bato noutra tecla. Na verdade, numa Tekla. Num respeitado site católico, encontro longo artigo sobre Madre Tekla Famiglietti. O título me pegou: "A mulher mais poderosa de Roma". Como assim? Inicio peregrinação na vida dessa abadessa de 75 anos, chefe da Ordem do Santíssimo Salvador de Santa Brígida, com 700 religiosas pelo mundo. A ordem se transformou num big business, cujo produto à venda é a "hospitalidade cristã". Explicando: graças a uma formidável rede de contatos, Madre Tekla conseguiu abrir casas da ordem em inúmeros países, da Escandinávia à costa mediterrânea, mais Filipinas, Indonésia, Índia e, por aqui, Cuba, México e Estados Unidos.

Funcionam como hotéis ou pousadas de charme. O diferencial? Turista de qualquer credo, arqueado pelas dores do consumismo, pode experimentar a simplicidade da vida monástica, buscar paz para meditação e provar da boa comida feita por freirinhas laboriosas. Algumas, diga-se de passagem, depois de denunciar o trabalho escravo, pediram refúgio aos beneditinos e acabaram detonando um escândalo com o qual a madre-empresária não contava. Abalou a rede hoteleira? Não. As Casas de Santa Brígida contam com as bênçãos dos céus e muitas estrelas na cotação dos guias de turismo.

Tekla Famiglietti não está nem aí para o poder da mulher na Igreja. Esse reino na Terra ela já garantiu para si. Amiga de cardeais, a religiosa circula com desenvoltura pelo Vaticano, com seu hábito cinza e um véu negro preso por aros metálicos que lhe circundam o crânio (algo a ver com Idade Média). Era tão próxima de João Paulo II que fez parte do grupo restrito que esteve com ele, em vigília, no leito de morte. Depois mirou em Bento XVI, acercando-se do círculo íntimo do pontífice em Roma (a famiglia). Sem sucesso. O alemão a tratou com respeito, mas sem intimidade. Agora se especula se a abadessa cairá ou não nas graças de Francisco (na bolsa de apostas, "não" disparado).

Eis um exemplo de como essa estrutura supermasculina funciona para uma mulher de vida consagrada, focada no poder. Em 1998, João Paulo II fez a histórica viagem a Cuba. Dois anos mais tarde, Tekla encontraria Fidel Castro no México, na posse do presidente Vicente Fox. Apresentou-se ao líder cubano como a amiga do papa. Fidel se embeveceu com a religiosa determinada a abrir um hotel na ilha (há fotos incríveis deste encontro). E ela levou. O Hotel Santa Brígida surgiu num belo casarão doado em Habana Vieja, depois de passar por restauro. Jaime Ortega, arcebispo cubano, nem sequer participou das negociações. Ficou entre a madre, o comandante e o papa.

Setores do Vaticano reclamaram, o governo americano esperneou, mas Tekla seguiu com sua hotelaria, despachando da residência em Praça Farnese, perto da Praça São Pedro. Consta que tem financiado projetos de combate ao tráfico de pessoas. Seja como for, segue o estilo da fundadora da ordem, Elizabeth Hesselblad. Sueca como Brígida, Hesselblad foi feita beata por João Paulo II em 2000. Veio bater com os costados em Roma nos idos 1911, tornando-se amiga de muitos homens influentes, entre eles, o general Franco. Pois Madre Tekla aprendeu bem a lição, a ponto do vaticanólogo Marco Politi defini-la como "uma máquina de poder".

A Igreja coleciona casos de mulheres influentes, alguns conhecidos, outros até ignorados. Vejam a coincidência: chamava-se Tecla, com "c", uma apóstola (como tal era tratada) que seguiu Paulo, nos primeiros anos da cristandade. De família rica, Tecla recusou casamento para sair pelo mundo pregando o Evangelho. Não é citada na Bíblia, mas em textos apócrifos que dão conta da sua importância. Pois bem, em 1906, o arqueólogo austríaco Karl Herold encontrou uma caverna nas redondezas de Éfeso, na Turquia. Na parede à entrada, deu com uma pintura datada do século 6.º: um homem e uma mulher retratados de frente, olhos abertos (a visão para o mundo) e mão direita levantada (o gesto de ensinar). Mas a imagem feminina exibia sinais de raspagem nos olhos e na mão, num sinal de que aquela mulher de fé não poderia ver nem agir. Teria de ser cega e mutilada. Eram ícones de Tecla e Paulo.

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