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O desafio de contrapor o discurso do constrangimento incivilizado a fatos é enorme

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

20 de agosto de 2018 | 02h00

Como debater com o extremista? Como entrevistar o extremista? A rede alemã ZDF exibiu um programa que oferece bons exemplos para lidar com a safra de políticos que faturam a emergência das simpatias antidemocráticas dos dois lados do Atlântico. O entrevistado da noite era Alexander Gauland, o líder da AfD (Alternativa para a Alemanha), partido de ultradireita que chegou ao parlamento graças à onda de sentimento contra os refugiados.

O repórter Thomas Walde, calmo e composto, não perguntou ao tosco Gauland se ele tinha prazer em ver crianças se afogando no Mediterrâneo. Não usou os quase 19 minutos para visitar as feridas óbvias do passado alemão.

Gauland foi sabatinado sobre políticas concretas. Qual a mudança seu partido propôs no sistema de aposentadoria? Estamos discutindo, ainda não sabemos, Gauland admitiu, mostrando que não tinha articulado qualquer reforma do status quo. O mesmo quando foi questionado sobre clima e tecnologia, temas que o eleitorado alemão considera urgentes. O resultado foi uma demonstração clínica da ignorância, demagogia e dependência da associação de nativismo à segurança que fincou bandeira em países da Europa e nos Estados Unidos, com sua variação emergente no Brasil. O Alternativa para a Alemanha não tem plano B.

O dilema para candidatos adversários, jornalistas e formadores de opinião é encontrar o tom de engajamento com extremistas que exploram a democracia para minar a democracia. Minha experiência nos EUA, onde melhor acompanho o mal-estar com o declínio democrático, mostra que há esforços valorosos para informar sem obscurecer, mas há ainda perplexidade que leva à potencialização da minoria extremista. Um exemplo foi a marcha dos nacionalistas brancos perto da Casa Branca pelo 1.º aniversário da infame marcha de Charlottesville, que atraiu mais jornalistas do que neonazistas. 

Quando descobrirmos quem vai ser o(a) próximo(a) presidente do Brasil, não há dúvida de que um destaque da campanha será o melancólico close-up da mão do capitão com a cola e a revelação de que precisava se lembrar de “pesquisa”, “armas” e “Lula”, além de seu olhar de aluno pego em flagrante e sendo espinafrado no gabinete da diretora Marina. O momento é o oposto da vil campanha de João herança maldita Santana que identificou em Marina a principal adversária de Dilma e mentiu descaradamente sobre a candidata em 2014. Desta vez, o capitão que teria planejado colocar bombas em banheiros de instalações militares “só para assustar” a liderança do exército, como narrou reportagem de Cássia Maria na revista Veja, em 1987, teve sua bravata desarmada pela simples e direta resposta da candidata à sua frente.

O desafio de contrapor o discurso do constrangimento incivilizado a fatos é enorme. Vivemos num ambiente de estilhaços de informação e vastos segmentos de eleitores que não distinguem fato de ficção sobre questões que decidem seu futuro. 

Em dezembro de 2015, durante um debate entre os nove pré-candidatos republicanos, um apresentador de rádio perguntou ao futuro presidente dos EUA sobre seus planos para a tríade nuclear, numa referência ao sistema de distribuição de armas nucleares espalhados por terra, mar e ar. O homem que hoje tem a posse dos códigos nucleares não tinha ouvido falar desta tal de tríade, como demonstrou pela resposta evasiva. A maioria do público também não sabia do que se tratava e o candidato surfou a gafe relativamente intacto.

Mas, não importa o grau de educação do eleitor, duvido que o bordão do Posto Ipiranga não acabe desabastecendo demagogos, seja na Alemanha ou no Brasil.

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