Tango para a nudez castigada

Espetáculo dirigido por Antunes Filho devolve o trabalho do dramaturgo Nelson Rodrigues ao óbvio ululante dos subúrbios

O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2012 | 03h12

Toda Nudez Será Castigada pode ser uma tragédia e pode ser também, um engenhoso folhetim intencionalmente nos limites da provocação escandalosa. Se Nelson Rodrigues cultivou com esmero a imagem de romântico e nostálgico das inocências do paraíso perdido, tirou igualmente bom proveito da imagem de "tarado", simulando sempre perplexidade agredida. O dramaturgo sabia ser personagem de si próprio. Nesta obra temos os extremos de tudo: um viúvo que se quer casto para o resto da vida, um filho meio histérico com sua homossexualidade latente, várias tias apopléticas com os tabus do sexo e o inevitável parente mau caráter. Em meio a isso, uma prostituta sedutora. Como em todo clichê, é ela outra uma esperançosa de amor e redenção. Dará tudo errado e em clima de tango Mas como se trata de Nelson Rodrigues e seu talento, a peça traz uma carga de simbolismo suficiente para que nele se encontre todo Freud e toda malícia de um anjo pornográfico. Ou tudo aquilo que se queira, até a comédia, a paródia, a caricatura grotesca.

O espetáculo de Antunes Filho faz lembrar que ele dirige um Centro de Pesquisas Teatrais (o CPT, do SESC). Não é apenas um grupo, mas um projeto de estudos e experimentos em artes cênicas com ênfase na elevação cultural do elenco, na voz e na utilização do corpo. Um desmonte das fórmulas cristalizadas para se compor o papel. O CPT não se obriga a sucessos convencionais e nesse procedimento podem surgir realizações perfeitas ou menos resolvidas. Antes de chegar à notável Medéia, de Eurípides (2001), o grupo fez um exercício com a tragédia grega em Fragmentos Troianos, mas que era de saída um teatro de muita força e beleza. Com Nelson Rodrigues aparentemente o caminho foi diverso. O encenador elevou o dramaturgo a uma amplitude jamais imaginada e a seguir começou a descer para a simplificação. Antunes foi se aproximando dele partir de A Falecida (1965) na Escola de Arte Dramática (EAD), trabalho que marcou uma geração de alunos. No contexto da escola e seus padrões de teatro, foi uma novidade. Voltaria ao escritor em Bonitinha, mas Ordinária (1974) com Mirian Mehler e Fregolente ainda numa estética conhecida e em curso. Houve depois longa pausa quando Antunes aprofundou radicalmente os estudos e práticas do uso do espaço, texto, gesto e fala. Período de leituras de física quântica, filosofia oriental, historia das religiões e teorias analíticas de Carl Jung. Nasceu daí a sua abordagem transformadora de Nelson Rodrigues nos espetáculos O Eterno Retorno (1981), Nelson 2 Rodrigues (1984) e Paraíso Zona Norte (1989). O dramaturgo foi transferido da moldura suburbana estática e da polêmica de sempre para a dimensão dos arquétipos fundamentais do comportamento humano. Antunes Filho aproximou- o da tragédia grega e do Velho Testamento. Agora, na contramão de tambores e clarins pelo centenário do autor, quebrou a densidade dos espetáculos anteriores. Mostra que, sim, Toda Nudez paga tributo ao jornalismo barato e sangrento, ao voyeurismo patético, ao exagero. Raspou o verniz mítico anterior para dar passagem a um bando de malucos e desajustados cotidianos, comuns. Reelaborou a peça no ritmo dos cortes cinematográficos e no tom do noticiário policial de TV, com a valorização dos pontos fortes. Esvaziou a cena, mas houve excesso, pois o palco muito nu paradoxalmente pode dispersar a atenção. O cenógrafo Jose Carlos Serroni, parceiro brilhante do CPT, faz falta. As mocinhas nuas e diáfanas de encenações anteriores agora estão destituídas de poesia maior. A invenção tornou-se um efeito.

Em um gesto final temerário e estranho de quebra de estereótipos, a direção apresenta Geni, a prostituta passional e irresistível em traje estilizado de monja. O apelo sexual está diluído. Em um ambiente de homens fracos, ela assume um tom masculino. É um achado, mas sua fala gritada incomoda. Geni causa impacto porque a atriz Ondina Clais Castilho, além da beleza, tem carisma e força dramática. A figura do irmão que engendra conspirações familiares tende para o caricato distante do canalha antológico de Nelson Xavier na versão de Ziembinski com Cleyde Yaconis. Mesmo assim, o sempre bom Marco de Andrade se faz notar. Enfim, chegou-se ao Nelson Rodrigues vapt-vupt, expressão adotada pelo CPT. Pode-se assistir como o experimento de desconstrução do dramaturgo. Fiel ao risco com conhecimento, arqueiro Zen à sua maneira, José Alves Antunes Filho empreende um "eterno retorno", dessa vez não ao universo lendário de Mircea Eliade, mas ao subúrbio obvio ululante com suas bonitinhas ordinárias, falecidas, viúvas honestas, anjos negros, dorotéias e afogadas. Ao fundo, o poço de tristeza do tango.

Crítica: Jefferson Del Rios

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