Tambores da África

Quando adolescente, vivendo a um continente de distância da terra natal, Baloji não queria saber de ouvir soukous ou qualquer outro gênero musical do Congo. O jovem expatriado, residente na Bélgica desde os 4 anos de idade, só tinha ouvidos para o rap. "Para mim, a música africana era dos meus pais, era algo dos mais velhos", diz. "Eu escutava muito hip hop e R&B e achava que não era legal ouvir aquilo." A indiferença adolescente à música de sua terra natal era apenas um desvio necessário no caminho. O hip hop que vem mostrar no Brasil no fim de março (leia abaixo) acabaria sendo o principal guia para conduzir Baloji de volta aos sons e ritmos de sua cultura. "Eu gostava de A Tribe Called Quest, NWA, Wu-Tang Clan, depois conheci o rap francês. Isso foi fantástico porque eles falavam de coisas mais próximas a mim, situações pelas quais tinha passado".

Entrevista com

FILIPE LUNA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h10

Hotel Impala, seu primeiro solo, segue o padrão do hip hop francês. A sonoridade é fortemente influenciada pela estética norte-americana. Baloji é versátil como MC e consegue alternar levadas com criatividade. O disco é muito bem produzido musicalmente, mas não se pode escapar da sensação de que está tudo no lugar certo, até demais. A próxima parada o tiraria da zona de conforto europeia e o lançaria numa viagem musical e pessoal. Este é o destino atual: Kinshasa Succursale, segundo álbum solo lançado pelo rapper em novembro do ano passado. Para a gravação, ele voltou à matriz e realizou todas as sessões de estúdio no Congo.

Seu retorno à música africana começou em 2007, duas décadas após sua última visita à terra natal. Seu primeiro guia foi o músico camaronês Manu Dibango. Baloji ouviu sua versão para Independence cha cha, de Joseph Kabasele e Nicolas Kassanda, um hino do movimento de independência do Congo nos anos 60. "Isso me trouxe muitas lembranças da infância. A partir daí, voltei a ouvir música do Congo, discos gravados no fim dos anos 60 que são mais próximos do jazz do que o soukous."

O projeto era bastante ambicioso: regravar seu primeiro disco, Hotel Impala, em apenas seis dias com a participação de músicos do país. Depois de meses de pesquisas, recrutou artistas como Konono No. 1 e Zaïko Langa Langa. Das 15 músicas do primeiro álbum, apenas sete foram regravadas e seis novas canções nasceram dessa experiência. O resultado é um som urgente, a tradução musical do choque de um expatriado com a fervilhante cultura da sua terra natal. O encontro de uma música afrodescendente, o rap, com sua origem mais antiga: a música africana. "Em Kinshasa, tentamos recriar a tensão que existe em cada tomada", explica. "Ensaiávamos as canções por duas ou três horas e fazíamos cinco ou seis tomadas. Existe pressão, os músicos ficam nervosos. Isso criou uma sensação que não havia no meu primeiro disco, pois foi gravado de uma maneira mais convencional."

O clipe de Karibu Ya Bintou, parceria com o Konono No. 1, é a melhor interpretação visual deste encontro. Uma cerimônia religiosa traduz o batismo africano do rapper, seu nome significa feiticeiro. Corte para Kinshasa, onde Baloji conduz um soundsystem pelas ruas movimentadas da metrópole congolesa ao som dos instrumentos caseiros do Konono, estilo próprio batizado de Congotronics. São as mesmas ruas onde Muhammad Ali conclamou uma multidão para apoiá-lo numa luta contra George Foreman, em 1974. O vídeo acaba num evento de luta livre, que parece, ao mesmo tempo, mexicano, norte-americano e africano. Assim como na música de Baloji, os limites entre tradição local e cultura ocidental se tornam indefiníveis.

Baloji vem ao Brasil no fim de março para mostrar ao vivo o resultado de seu intenso reencontro com a música do Congo. O rapper faz uma turnê longa que passa por Brasília, Belém, Belo Horizonte, São Paulo, Santos, Santo André, Campinas, Porto Alegre, Salvador, João Pessoa, Salvador e São Luís. Leia abaixo, trechos da entrevista com músico:

Você se sentia perdido entre as duas culturas?

Nem um pouco. Toda a música que faço é baseada nessa ideia de que estar entre dois mundos não significa estar perdido. Eu tinha uma educação, um gosto e uma visão de europeu, mas ainda era um negro na Europa. Não dava pra fingir que não existia uma grande diferença. Quando volto ao Congo, também sou diferente por ter vivido na Europa. A maioria de nós tem problemas para voltar à África porque tentam agir como se não fossem.

Como isso influencia seu

trabalho?

Minha música está entre esses dois mundos: é inspirada tanto por Franco como por Jacques Brel. Pela estrutura musical europeia, cresci com isso. Mas quis fazer, neste último disco, algo com a música do Congo que fosse mais próximo de mim.

Foi uma escolha natural rimar em francês?

Acho que sou mais fluente em francês. Não seria tão fluente em swahili ou tshiluba, embora sejam línguas muito bonitas. Além disso, o francês me dá mais possibilidades. Deve ser o mesmo para vocês com o português. É um idioma mais rico e me permite expressar emoções com mais detalhes.

Quais suas expectativas para essa turnê no Brasil?

Estivemos em novembro para tocar no Rio de Janeiro. Desta vez, espero tocar com outros artistas, como Criolo. Sou também um grande fã do primeiro álbum de Maria Gadú. Não gosto do segundo, mas o anterior é uma obra-prima. E adoro Cru, de Seu Jorge.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.