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Tamar Guimarães e Yuri Firmeza estarão na Bienal de São Paulo

Enquanto a primeira propõe nova visão do espiritismo, o segundo explora uma cidade beckettiana no Maranhão

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

06 de maio de 2014 | 03h00

Mais dois artistas brasileiros acabam de ser confirmados para a 31.ª Bienal de São Paulo, que será aberta em setembro. De um lado, a mineira Tamar Guimarães prepara uma nova instalação da obra A Família do Capitão Gervásio, projeção de película em 16 mm exibida no ano passado na 55.ª Bienal de Veneza e criada com base nos registros em uma comunidade espírita do interior de Goiás. Já Yuri Firmeza, que vive em Fortaleza, vem fazendo um novo trabalho com as paisagens de ruínas da cidade de Alcântara, no Maranhão.

Sob curadoria de uma equipe formada pelo escocês Charles Esche, os espanhóis Nuria Enguita Mayo e Pablo Lafuente, os israelenses Galit Eilat e Oren Sagiv, e pelos curadores associados Luiza Proença e Benjamin Seroussi, a mostra, marcada para ocorrer entre 6 setembro e 9 de dezembro no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Ibirapuera, será mais do que uma edição política - será uma "bienal social".

É como Esche já definiu o projeto da exposição, intitulada Como Falar de Coisas Que Não Existem? -, mas o verbo da sentença é flexível. Centrada na situação de conflito que se vive em todo o mundo, trazendo questões como "o colapso do modo de representar a democracia, sonhos e aspirações" (em referência às manifestações populares), a coletividade, e ideias relacionadas a transformações - neste campo, tendo os motes transgressão, transcendência, transexualidade, entre outros; a concepção da mostra tem sido ainda tratada como "uma jornada".

"Talvez precisemos sair da política como tema-adjetivo e pensar a Bienal como ação-verbo", afirma Yuri Firmeza em entrevista ao Estado. "Bienais são políticas e a noção do que é política há de ser entendida num sentido amplo. Não são necessariamente reivindicações explícitas e protestos, mas formas capazes de alterar nossa forma de pensar, de sentir, de agir. Afinal, qual seria a opção contrária? Bienais que operassem simplesmente como antessalas do mercado de arte e mais nada?", opina Tamar Guimarães, que vive na Dinamarca.

Apostando em criadores de áreas diversas e não apenas nos das artes visuais; em participantes de um eixo para além de São Paulo e Rio - e em termos geográficos, há um olhar específico para o Oriente Médio -, os curadores anunciaram, em março, 32 projetos/nomes que estarão no evento, realizado com R$ 24 milhões. Do Brasil, Tamar Guimarães e Yuri Firmeza vêm se juntar aos artistas Tunga, Virginia de Medeiros, Ana Lira, Armando Queiroz, Graziela Kunsch, Romy Pocztaruk, a coreógrafa Lia Rodrigues, o coletivo paulistano Contrafilé e a historiadora Lilian L’Abbate Kelian, da USP. E outros ainda virão, já que a lista de integrantes nacionais e estrangeiros da edição ainda não estaria fechada.

 

 

Habituada a conceder entrevistas apenas por e-mail, a artista mineira que vive desde 2002 em Copenhague, na Dinamarca, fala sobre a 31ª Bienal de São Paulo e sua obra, realizada com seu parceiro, Kasper Akhøj. A seguir, trechos de suas falas.

Sua participação se dará com a exibição de A Família do Capitão Gervásio, exibida na última Bienal de Veneza? A peça terá algum desdobramento especial para o evento brasileiro, já que tem como raiz A Man Called Love, seu trabalho sobre o espiritismo e Chico Xavier iniciado em 2006?

Mostraremos A Família do Capitão Gervásio, uma película em 16 mm produzida em 2013, que gira em torno de uma comunidade espírita no interior de Goiás. Segundo essa comunidade, os espíritos intervêm no mundo material, nos ensinam e nos transformam. Há nisso a noção do espiritismo como prática social. O subtexto do filme é também um indicativo de como essas práticas entraram em conflito com os movimentos oficiais de higiene mental e os códigos de sanidade e loucura infligidos pela modernidade. Estamos trabalhando em uma nova instalação para a Bienal de São Paulo e o projeto terá outros desdobramentos. Em 2015, vou produzir um filme mais extenso e também um pequeno livro.

Qual sua ideia sobre estar em uma "bienal social", como já declarou o curador Charles Esche?

A proposta da bienal como jornada é muito pertinente. Interessa-me mais ainda a noção de "falar de", de "viver com", e de coisas que não existem, visto que essas tais coisas articulam fatos sociais para os quais não há um lugar definido dentro da linguagem vigente.

Você considera que foi escolhida para a 31ª Bienal pela via que faz a conjunção da política e do misticismo? Desde a 55ª Bienal de Veneza, como vê o misticismo refletido nestas duas últimas importantes mostras de arte?

Quando (a curadora) Luiza Proença me escreveu, ela contou que a 31ª Bienal está se construindo em torno de um processo de pesquisa e procura chamar atenção para coisas que o mundo moderno ignorou, muitas delas com propriedades mágicas, místicas, alquimísticas e espirituais. Animismo é o que teve que ser expelido para que a modernidade pudesse ser modernidade. É o seu lado de fora. Isso faz com que seja um motivo para investigação sociológica, filosófica e antropológica pós-moderna. Já faz alguns anos que é um tema importante nas artes plásticas. Por exemplo, a exposição Animismo, organizada por Anselm Franke, foi importante nesse sentido, argumentando que o animismo é o fantasma que ronda os limites bem mapeados e cientificamente organizados da modernidade. Não por acaso, esses limites se alinham com fronteiras geopolíticas e, também não por acaso, ecoam situações de subordinação frente a um eurocentrismo branco, masculino, colonizador.

Seu trabalho artístico traz muitas vezes documentos, numa forma de colocar o passado na criação de obras mistas entre a ficção e a realidade. Por outro lado, a 31ª Bienal propõe uma ruptura com o passado - com o modernismo especificamente, já afirmou Esche. Qual sua opinião sobre esta ideia?

Ao que parece, a 31ª Bienal não lida com o modernismo diretamente. Ele não seria nem um tema, nem um objeto de combate. A modernidade talvez sim, em certos aspectos. Parece-me que através da ideia das "coisas que não existem", pode-se considerar as muitas formas de entender o mundo que a modernidade ignorou ou com as quais não soube lidar. Nesse sentido, acho que A Família do Capitão Gervásio tenciona a existência de outras formas de pensar e viver dentro da cidade e da vida moderna. Não me parece que a proposta curatorial busca um rompimento com o passado. Falam de bienais como plantas que florescem a cada dois anos, cuja floração surge de uma continuidade em latência, e não de um vácuo.

Como se sente vivendo há tanto tempo fora do Brasil?

Interrogar a aparência de naturalidade da própria cultura e penteá-la a contrapelo é parte do trabalho que faço. Olhar com outros olhos o que se conhece bem por dentro e por fora é, afinal, a tarefa do artista.

 

 

Entre uma e outra viagem, Yuri Firmeza, que nasceu em São Paulo, em 1982, conta na entrevista a seguir que levará a questão da "multitemporalidade" à 31.ª Bienal com um trabalho inédito e a exibição da obra A Fortaleza, de 2010.

Como é seu trabalho novo para a 31ª Bienal?

O projeto em desenvolvimento, comissionado pela Bienal com apoio do Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, ocorre em uma cidade do interior do Maranhão, Alcântara. Esta cidade tem parte de sua paisagem marcada por ruínas. E, segundo uma de suas histórias, algumas dessas ruínas são decorrentes dos grandes palacetes construídos na expectativa de hospedarem o então imperador D. Pedro II. Porém, a suposta visita nunca aconteceu. A cidade foi geograficamente e economicamente muito importante no Brasil Colônia devido a suas ligações fluviais e a produção e exportação de arroz, açúcar, algodão. Sempre penso que Alcântara é uma cidade, por um lado, beckettiana, à espera de Godot-D.Pedro II. Como disse uma senhora alcantarense, neta de escravos, em Alcântara nada é – tudo foi ou será. Há, ainda, em Alcântara, uma festa tradicional de origem açoriana. Há também um grande número de comunidades remanescentes quilombolas com as quais eu pretendo desenvolver um projeto a longo prazo. É também lá que se localiza o Centro de Lançamento de Alcântara, um dos mais importantes locais de lançamento de satélites da América Latina.

E como seria a obra?

Pretendo que seja um filme não localizável no tempo e espacialmente não situável. Um lugar insólito, fugidio. Lugar do curto-circuito dos tempos verbais, foi no futuro, será no passado. Filme não exatamente sobre a cidade de Alcântara, mas a partir desse emaranhado temporal não linear, não cronológico, não determinista.

E poderia comentar a obra A Fortaleza?

A Fortaleza consiste em duas fotografias feitas no mesmo lugar, mas com o intervalo temporal de uma década entre ambas. Em uma das fotos apareço, quando criança, fazendo força nos bíceps e tendo a paisagem de fundo uma vista de Fortaleza. Na segunda foto, apareço já adulto replicando a mesma pose da foto anterior no mesmo lugar que foi registrada a primeira foto. No entanto, na paisagem percebemos a verticalização da cidade de Fortaleza onde, diferentemente da primeira foto, já não temos horizonte, mas um bloco maciço de prédios.

Na sua opinião, as bienais devem ser políticas?

O entendimento de política já não é mais o limitado campo das representações dos partidos, agremiações, sindicatos. Assumir a Bienal como "jornada" já me parece um gesto político no modo de pensar o papel da Bienal hoje. Talvez precisemos sair da política como tema adjetivo e pensá-la como ação-verbo e, quem sabe, o esgotamento, diferentemente do cansaço, seja esta potência ativa do que hoje entendo por política. / C.M.

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