Talentos made in Hollywood

Brasileiros conquistam espaço em importantes funções técnicas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Eles são tão focados em seu trabalho que, sem perceber, criam frases globalizadas, misturando palavras em português e inglês. "A maioria nem percebe", diverte-se Rodrigo Teixeira, um dos seletos brasileiros que conquistaram postos de destaque na maior indústria de cinema do planeta, em Hollywood. Não como auxiliar do substituto, mas em postos de importância. O gaúcho Teixeira, por exemplo, consta nos créditos de grandes produções, como O Dia Depois de Amanhã e Alice, na função de diretor técnico, ou seja, discutiu diretamente com os cineastas daqueles filmes (Roland Emmerich e Tim Burton, respectivamente), aspectos que foram decisivos no produto final.

Assim como ele, estão no mesmo patamar a profissional de make-up Bruna Nogueira e o artista plástico Cláudio Reis, responsável pela definição dos cartazes promocionais - e no grupo de assuntos gerenciais estão Cláudio Ramos, diretor mundial de marketing da DreamWorks, e Talize Sayegh, organizadora do Hollywood Brazilian Film Festival, porto de entrada para as produções brasileiras. Todos vivem em Los Angeles, centro nervoso dos grandes estúdios. Alguns há mais de dez anos, o que explica a natural confusão com o idioma. "Nossa vantagem está em conhecer bem os detalhes de cada profissão, you know?", conta Bruna, que ostenta mais de 40 filmes no currículo, em que desenvolveu uma técnica particular para tratar tanto dos cabelos como da maquiagem dos artistas. "Cada personagem tem um caráter e isso precisa ficar evidente a partir do visual", explica, lembrando do talento dos brasileiros em cuidar dos cabelos, qualidade apreciada pelos atores americanos.

Novamente, detalhes que se revelam determinantes. Rodrigo Teixeira conta que decidiu trabalhar no cinema depois de assistir à uma sessão de Independence Day, de Roland Emmerich. Uma resolução tão firme que ele se arriscou a desembarcar em Los Angeles, em 2001, com apenas US$ 500 no bolso e 150 cópias de seu portfólio. Bateu em várias portas, mas foi durante uma festa à beira-mar que surgiu a oportunidade: sem saber, ele elogiou Independence Day justamente para Volker Engel, responsável pelos efeitos especiais daquele filme.

"Ele me convidou para trabalhar um ano depois, em um projeto para a televisão, e logo participei de O Dia Depois de Amanhã, que considero minha estreia no cinema americano", conta Teixeira que, espirituoso, conseguiu deixar sua marca em alguns filmes, graças à cumplicidade conquistada com os diretores. Assim, tente descobrir o logotipo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ao lado do símbolo da Nasa, em uma cena de O Dia. Ou ainda o T, de Teixeira, na placa do carro usado por Bruce Willis em Sun City. Finalmente, a assinatura mais pessoal: ao trabalhar nos efeitos de 2012, Teixeira colocou-se em uma cena, a que mostra carros despencando de um viaduto e de um estacionamento vertical.

Feeling. Pequenas ousadias que revelam não apenas personalidade, mas também talento. No mesmo rumo segue o baiano Cláudio Reis, recentemente contratado como diretor de criação pela agência Five33, uma das maiores de Los Angeles. "Comecei como ilustrador, adepto do hiper-realismo, estilo bem-aceito nos cartazes promocionais do cinema", conta ele, que chegou em 2006 na cidade americana, onde, depois de diversos trabalhos, foi descoberto por um caçador de talentos que o convidou a criar campanhas publicitárias. Foi o feeling pelo gosto do público que coroou a carreira de Reis - contratado para trabalhar nos estúdios Disney, logo descobriu as normas rígidas de controle de trabalho. "Um único filme tem diversos cartazes, que atendem à necessidade específica de cada nação", conta.

Em Encantada, por exemplo, a França recebeu um cartaz mostrando a atriz Susan Sarandon segurando uma maçã, fruta que agrada àquele povo. Já a animação Ratatouille exigiu muitos cuidados, especialmente por unir assuntos delicados como ratos e comida. "O principal objetivo era não deixar o espectador enojado - pelo contrário, motivado a entrar na sala de cinema", conta Reis, que fez inúmeros testes até atingir o ponto considerado certo.

Ele conta que os grandes estúdios criam equipes específicas para cada região do mundo - a sua compreende países da Europa e da Ásia. O trabalho tem de ser muito cuidadoso, pois uma fratura na comunicação pode comprometer a carreira do filme. "No Japão, o gosto difere do restante do mundo, o que exige um trabalho específico."

O cartaz vem ganhando uma importância tão grande na divulgação cinematográfica que, assegura o artista brasileiro, já se fazem testes com anúncios em 2D ou até animados. "Estamos experimentando uma nova tecnologia que não utiliza vídeo para dar o efeito de movimento", conta Reis, sem entrar, contudo, em detalhes. "Ainda estamos na fase de estudos."

Tamanho cuidado também rege a criação de produtos inspirados nos filmes. Cláudio Ramos, que está há mais de oito anos nos Estados Unidos, conta que a DreamWorks criou um grupo apenas para trabalhar com o licenciamento entre os americanos e outros que se ocupam das demais regiões do planeta. "O Brasil recebe um tratamento especial, pois oferece uma enorme capacidade de expansão", argumenta ele, lembrando que o público-alvo habitualmente é o infantil. "Isso porque criança compra produtos relativos à marca do filme, enquanto adultos preferem carros e vestuário."

Em alguns momentos, o desafio parece intransponível, como o início das aventuras do ogro Shrek: como vender a imagem de um ser tão aparvalhado? É nesse momento, acredita, que a personalidade do personagem é decisiva para nortear o plano de ação.

Os brasileiros que trabalham em Hollywood reconhecem que o aprendizado no mercado americano é fundamental. E, na medida do possível, tentam um intercâmbio com a cinematografia nacional. Essa é a meta de Talize Sayegh, em Los Angeles desde 1989. Uma das vítimas financeiras do plano econômico do presidente Fernando Collor de Melo, ela passou por diversos apuros até adquirir o conhecimento necessário para organizar, no ano passado, o 1.º Hollywood Brazilian Film Festival. "O segredo do sucesso é que sou versátil como brasileira, mas com pensamento americano."

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