TALENTO SELVAGEM DE FRIEDKIN

Autor do cult O Exorcista mostra família disfuncional em Killer Joe

O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h27

Houve um momento em que William Friedkin pareceu perder-se. Quando o Strip-Tease Começou, Os Rapazes da Banda, a trajetória havia sido ascendente até o Oscar - que recebeu por Operação França, reinventando o policial de forma (neo)realista - e depois ainda veio o megassucesso de O Exorcista. Friedkin era o tal numa Hollywood em que reinava o jovem Francis Ford Coppola e logo viriam Steven Spielberg, George Lucas. Os problemas começaram com Cruising, Parceiros da Noite, com seus 18 minutos de sexo gay (quase) explícito, mas a queda mesmo foi com A Árvore da Maldição, de 1990, quando a crítica o etiquetou como caso perdido.

Salvou-o, como ele próprio declarou ao Estado, a ópera. O fato de se tornar regista de ópera lhe deu novo fôlego. Ele retomou a criatividade, descobriu novas estruturas narrativas, colocou mais áudio no seu visual e, no limite, o antinaturalismo da ópera, como gênero cantado, revelou-se apropriado para expressar seu interesse pelos aspectos malignos da sociedade. Drogas, seitas, homossexualidade culpada - como assinala Jean Tulard no Dicionário de Cinema -, Friedkin renovou-se iluminando o que há de sombrio na mente humana.

Regras do Jogo, Caçado, Possuídos - com o último, Friedkin experimentou um novo esplendor. A garçonete Ashley Judd se envolve com Michael Shannon, e ele, repetindo seu papel na peça off-Broadway de Tracy Letts, tem delírios de que seu cérebro está sendo devorado por vermes - Bug é o título original -, como decorrência de uma experiência traumática na Guerra do Golfo. Possuídos era claustrofóbico, angustiante e essas características, acrescidas de humor - um humor sombrio, particular -, estão de volta em Killer Joe. O novo Friedkin é sobre uma família disfuncional, na qual, em vez de jogar a mamãe do trem (como na comédia famosa de Barry Sonnenfeld), Emile Hirsch contrata um assassino (Joe) para matar a mãe.

No limite, tudo se trata de dinheiro - o seguro -, mas há também o desejo ou a necessidade de se libertar, e desde a mãe de Norman Bates (no cult Psicose, de Alfred Hitchcock), você sabe que o afeto pode ser substituído por relações muito mais punks. O problema, no caso, mais que a própria família, é a personalidade do killer. Joe, interpretado por Matthew McConaughey, é um siderado (pervertido?) que fica fora de controle. Como se conta uma história dessas? Operisticamente - sem medo de desnaturalizar a narrativa, para exibir o que existe de sinistro nas relações.

Matthew McConaughey tem ousado como nunca em sua carreira e, se foi um stripper em Magic Mike, de Steven Soderbergh, que lhe valeu uma indicação para o Oscar de coadjuvante, vem aí em papéis de gay enrustido e travesti, sem se preocupar com os efeitos que isso possa ter em sua imagem de galã. O cinéfilo que for curtir Killer Joe só tem agora que esperar pelo Festival do Rio, ou pela Mostra, na expectativa de que tragam (se o É Tudo Verdade não o fizer) o documentário que James Franco produziu sobre os míticos 18 minutos de Parceiros da Noite nos embalos pesados de bares sadomasoquistas. Quando o filme de Friedkin passou em Berlim, em 1980, o diretor foi acusado de homofobia e de incentivar estereótipos associados à cultura homo. A (re)visão agora é outra. Friedkin não poupa a homossexualidade como não poupa a família, e James Franco, que produziu e participa de Interior - Leather Bar, pode dizer hoje, candidamente, que é atraído por esse tipo de coisa (filme? balada?) sem risco de discriminação.

Crítica: Luiz Carlos Merten

JJJJ ÓTIMO

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