Talento dedicado a Bach

"Hoje é fácil ganhar dinheiro no mundo barroco. Você compra baratinho um violino moderno, coloca cordas de tripa nele e compra um arco antigo. Pode deixar o cavalete moderno lá. Só que, para tocá-lo, é necessário segurar o violino espremido abaixo do queixo." É difícil de imaginar, mas o genial cravista, organista, maestro e musicólogo holandês Gustav Leonhardt, morto aos 83 na semana passada, era uma metralhadora giratória sob a aparência austera de um "protestante" calvinista típico, como o definiu o crítico francês Jacques Drillon em seu derradeiro recital, em 12 de dezembro.

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2012 | 03h02

Leonhardt, pioneiro do movimento da música historicamente informada e músico chave do século, foi mestre de praticamente todos os grandes cravistas dos últimos 60 anos. Escolheu o palco do Théâtre des Bouffes du Nord em Paris para anunciar sua aposentadoria. Sobreviveu pouco mais de um mês.

É quase impossível sintetizar sua importância. Ele escolheu o cravo ainda criança, na Amsterdã entreguerras, e conviveu 9 meses exclusivamente com o instrumento em casa, na cidade sitiada durante a Segunda Guerra. Foi paixão dupla: pelo instrumento e por Bach, a quem dedicou o melhor de seu maravilhoso talento. Gravou três vezes as Variações Goldberg, a primeira nos anos 50.

Em Viena, conheceu a alma gêmea Nikolaus Harnoncout, violoncelista com o qual dividiu a primeira gravação integral, para a Teldec, das 200 cantatas de Bach entre 1971 e 1990 (cada qual comandando seu grupo).

Nos anos 50/60, liderou em Amsterdã um grupo de extraordinários talentos como os irmãos Kuijken, o violoncelista Anner Bylsma e o flautista/regente Frans Brüggen em torno da música historicamente informada. Mas, refinadíssimo, jamais foi fundamentalista. Seu toque sempre foi sóbrio. Seu credo, simples. "Se você consegue ser convincente, a interpretação soa autêntica; se se esforça em ser autêntico, jamais será convincente." Os grupos que discutem e ensaiam muito "não são bons", pois "na segunda leitura de uma peça, já é possível a interpretação correta, se os músicos forem de fato bons".

Para fechar seu perfil, um pouco mais de Bach. "O homem Bach não me interessa, ele poderia ter sido um canalha, mas isso não me importaria; sua música continuaria a me deslumbrar." E esta, definitiva: "Na verdade, tocamos baseados em hipóteses, porque não podemos fazer melhor. Nós realmente sabemos pouco, muito pouco (sobre Bach e a música antiga em geral)". Indicações de gravações? Todas as que tiverem seu nome como intérprete, seja como cravista, organista ou maestro.

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