Talento de fazer lixo virar ouro

O documentário, dirigido a seis mãos, enfoca o cotidiano do lixão de Jardim Gramacho, no Rio sob um ângulo inusitado, o da arte. Será lá que o artista plástico Vik Muniz irá recriar, com o material de que dispõe, o lixo, obras de arte de fato extraordinárias, como diz o título. Muniz tira fotos gigantes dessas pessoas em poses que mimetizam grandes obras da pintura, como é o caso de A Morte de Marat, de Jacques-Louis David. Depois, essa fotografia é construída com material de dejeto. Há aí uma transformação maravilhosa. Pelo contato com o humano, o que era lixo vira ouro, com cotação no mercado de arte internacional. E, melhor ainda, aquele ser humano desvalorizado, que vive dos restos da sociedade industrial, adquire novo valor e, por causa dele, renovada autoestima.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2011 | 00h00

Assim sendo, o filme parte de uma ideia que não apenas é generosa, mas também muito inteligente. Um filme convencional registraria, e comoveria no contato com aquela realidade tão dura. Lixo Extraordinário dribla essa piedade prêt-à-porter e revela o ser humano que está presente quaisquer que sejam as suas condições sociais. E mostra como podem ser artistas de si mesmos - dadas algumas condições favoráveis. É pena que essa atitude não esteja presente no conjunto do filme.

Isso porque há um olhar brasileiro sobre o conjunto da coisa e esse é o de João Jardim, ótimo documentarista de Pra o Dia Nascer Feliz. E há o olhar estrangeiro de Lucy Walker. Esse desequilíbrio tira um pouco da força de Lixo Extraordinário. Desse modo, o filme é composto de partes desiguais, que poderiam se anular. Mas o que tem de bom compensa eventuais desníveis..

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