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Humberto Werneck
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Talento ao relento

Fez agora um ano que se foi Renato Pompeu, e esses doze meses sem ele não aplacaram em mim um sentimento de enorme, talvez irremediável frustração. Sentimento que era também dele, e que compartilhamos nos últimos anos de sua vida. Nunca fomos próximos, nunca nos frequentamos, nosso convívio praticamente limitou-se à redação da Veja, no final dos anos 70, começo dos 80, mas ainda assim, à distância, eu tinha um olho nele, e creio que o Renato não me perdeu de vista inteiramente, pois a largos intervalos me chegava um sinal de fumaça. Escreveu com simpatia sobre um livro meu, O Santo Sujo - A Vida de Jayme Ovalle. De minha parte, fiz ao longo dos anos, ponha aí três décadas, um intermitente esforço para trazer de volta a obra de Renato Pompeu, tão digna de ser lida porém miseravelmente esquecida.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h06

Parte da culpa desse esquecimento é dele mesmo, porque o Renatão, como o chamávamos, era, ele e tantos outros escritores, avesso a qualquer tipo de autopromoção, como se empenhar na divulgação de trabalho próprio fosse necessariamente cabotinismo. Hoje já não penso assim, e sou capaz de distinguir duas etapas, estanques e subsequentes, na atividade de quem escreve: botar o ovo e cacarejar. Uma coisa de cada vez, e, por favor, sem apoteose mental nem vertigem de sobreloja. Há quem já bote o ovo pensando no cacarejo, como há quem venha com ovo de codorna e cacareje como se ele fosse de avestruz.

Há também quem encha ninhos de preciosidades, mas, por preguiça ou pudor demasiado, não considere a necessidade de cacarejar. Estou pensando aqui em Ivan Angelo, o baita romancista de A Festa, novelista de A Casa de Vidro, contista de A Face Horrível e cronista de Certos Homens e Melhores Crônicas, para não falar na sua produção para público jovem. É um esplêndido autor, estudado e traduzido - porém suicidamente inapetente no diz respeito ao cacarejo com que, sem cabotinismo algum, atrairia os bons leitores que seus livros merecem. Repito isso a ele no limite da boa educação, e o Ivan até me ouve, até não discorda, mas não move um dedo.

Com Renato Pompeu, outro inapetente do cacarejo, a coisa era mais grave, e até dramática. De um lado, seus livros nunca fizeram sucesso comparável aos de Ivan Angelo, ainda quando destacados por críticos como Roberto Schwartz e José Guilherme Merquior. Ele nunca passou, e mesmo assim apenas nos primeiros romances, em especial o de estreia, Quatro-olhos, daquilo que o francês chama de sucesso de estima, com muitas palmas e poucas mãos. Houve, é verdade, uma tacada pelo então prestigioso e bem ramificado Círculo do Livro, que reuniu num só volume Quatro-olhos e o romance seguinte, A Saída do Primeiro Tempo. Mas o melhor da obra ficcional de Renato Pompeu, que além desses romances inclui A Greve da Rosa, ficou preso a uma editora nanica, da qual, no fim da vida, ele tentou, sem êxito, desvencilhar-se. Não queria muito, e não era pouco: como todo autor, ver seus livros numa prateleira, quem sabe numa vitrine de livraria.

Já que deu em nada, ao ponto de Renato ter morrido frustrado, posso assumir minha parte na batalha que juntos travamos para dar visibilidade a sua obra. Fui eu quem me ofereci para levar seus romances para alguma editora grande. Primeiro, a Record, ao tempo em que o setor de ficção brasileira tinha o comando de Guiomar de Grammont. Por alguma razão, a coisa não andou naquela imensa fábrica de livros. A segunda porta em que bati foi a da Cosac & Naify, e chegamos a sonhar, Renatão e eu, com as esmeradas produções gráficas da editora paulistana. Mas a literatura de Renato Pompeu, embora de alto nível, não era bem o que a Cosac buscava naquele momento. Nessa estaca zero estávamos quando me chegou, inesperada, a notícia de sua morte.

Quem sabe agora, me pergunto ainda. Os catálogos obesos e, nas livrarias, o espetáculo das gôndolas abarrotadas a um tempo me animam e deprimem. Hoje parece ser mais fácil do que nunca editar um livro. Como no verso de Drummond, passam gênios talvez entre as acácias. Tomara que sim. Mas nessa montanha de papel, entre gênios e acácias, haverá espaço para o biscoito fino, sem data de validade, que Renato Pompeu nos deixou?

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