Tal como ribeirinho ao entrar na Selva

Visitante tem de acostumar o olhar para perceber a poética de Amazônia

Maria Hirszman, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2010 | 00h00

Impacto visual. Luminárias na obra sedutora da jovem artista Melissa Barbery

 

Realizar uma exposição sobre a Amazônia não é tarefa fácil. A quantidade de estereótipos e lugares-comuns associados à região só faz, no entanto, aumentar o mérito da mostra Amazônia, A Arte, em cartaz até setembro no Museu Vale, em Vila Velha, no Espírito Santo. Com obras de 32 artistas, aposta na diversidade, apresentando como são amplos os campos de experimentação mapeados pelos artistas da região. Deixando evidente a existência de fortes nexos internos nessa produção, se articula em torno de alguns claros eixos geracionais.

Situados estrategicamente logo à entrada, estão os trabalhos de dois dos grandes mestres da fotografia paraense, Luiz Braga e Miguel Chikaoka. "Tal qual o ribeirinho quando entra na selva", como diz o curador Orlando Maneschy, o visitante tem de ir acostumando o olhar para perceber as sutilezas, os encontros e desencontros entre as poéticas propostas. Os dois não estão sozinhos. Dividem a sala inicial - propositalmente sombria em seu tom de azul profundo - com obras de grande impacto visual, como a "floresta" de baixa tecnologia e alto poder de sedução montada pela jovem Melissa Barbery com uma série de luminárias e bolas coloridas (cuja iluminação vai definhando ao longo da exposição até que acabem as baterias e a composição literalmente se apague), ou um enorme backlight de Alexandre Sequeira. Intitulado Vozes da Selva, o trabalho promove uma sutil fusão entre as velas de uma singela cerimônia do Dia de Finados e as chamas de uma queimada ao fundo.

 

Fechando a mostra, no extremo oposto, estão as pinturas do acreano Helio Melo (1926-2001) e a instalação de Emmanuel Nassar, pintor e escultor paraense responsável pela formação do olhar de várias gerações que o sucederam. É curioso notar por exemplo a sintonia entre o trabalho de Nassar e as esculturas apresentadas pelo jovem escultor Marcone Moreira. A instabilidade e a precariedade, o uso de materiais de descarte, marcados pelo tempo, são características comuns aos dois artistas, cada um a seu modo. Enquanto Nassar faz uma versão precária das estruturas de Calder e exibe um painel feito de dejetos urbanos, Moreira parte para elementos mais orgânicos, restos de madeira com traços da pintura original.

Videoarte, fotografia, pintura, arte popular, escultura: todas as técnicas se somam, sem divisões estanques, ao longo do vasto espaço expositivo. "Não são olhares ingênuos, improvisados", afirma o idealizador da exposição, Paulo Herkenhoff. Apesar de visitar anualmente a região, sobretudo a cidade de Belém (cuja presença na exposição é marcadamente mais acentuada) desde 1983, e conhecer intimamente essa produção, Herkenhoff considera um fato importante que a curadoria de Amazônia tenha ficado a cargo de Maneschy que, como artista e pesquisador, apresenta um ponto de vista interno, menos marcado pelas noções de exotismo a que comumente é associada.

Talvez uma das principais conclusões a que é possível chegar ao longo da exposição é a de que é impossível construir uma visão única, sistemática e reducionista do artista amazônico. Bastante isolada do resto do País e com interessantes nexos com a cena internacional, convivem na região um elevado grau de experimentação, formal e tecnológica, com um olhar aguçado e crítico para os problemas locais, como as obras Quando Todos Calam, de Berna Reale, ou os registros dos ianomâmis feitos por Claudia Andujar.

Ao mesmo tempo que dialoga e se alimenta daquilo que é produzido em outras regiões do País, a Amazônia foi levada a estabelecer o que Maneschy chama de "sistema paralelo de arte", "uma produção artística menos comprometida com apelos do mercado e mais concentrada nas relações com seu lugar de pertencimento, sua luminosidade, suas peculiaridades socioculturais".

Desde 1998, quando foi criado o Museu da Fundação Vale, esta é a segunda vez que a instituição abre espaço para uma mostra de caráter temático. A primeira foi em 2000, A Forma dos Sentidos. A escolha do recorte amazônico, segundo o diretor do museu, Ronaldo Barbosa, foi quase natural, tendo em vista a forte presença da empresa mineradora na Região Norte do País. "É um sonho antigo que a gente tinha", afirmou ele, reiterando o cunho extremamente sofisticado dos trabalhos e a pertinência de uma série de pontos levantados por essa produção, que apresenta proposições diversas daquelas normalmente encontradas no Sudeste, mas que estão em fina sintonia com o restante do País. "São questões que deveriam ser as nossas mas não são", conclui.

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