Taça de vinho para Edla

No meu derradeiro momento quero bagaceira, ou Mimosa, que só tem em Araraquara

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

11 Maio 2018 | 02h00

“Entre as coisas deixadas pelo Sábato tem uma fotografia sua junto a Vivien Leigh. Ele separou para você. Vou procurá-la, logo te entrego.” Meses atrás, Edla desceu e caminhou para sua casa, na esquina da rua Piauí. Eu tinha dado uma carona. Foi o último encontro de uma amizade que começou em 1960, quando, como crítico de cinema do jornal Última Hora, a conheci e entrevistei na estreia de Na Garganta do Diabo, de Walter Hugo Khouri, que a definia como “beleza translúcida”.

Em 1965, lançamos juntos nossos primeiros livros. Ela com Cio; Thomaz Souto Corrêa, com Morte Semi-Virgem; eu com Depois do Sol. Reencontraria Edla quando ela fez um papel em Annuska, Manequim e Mulher, de Francisco Ramalho, de 1968, baseado em um conto meu. Segundo e último filme, apesar de um mundo de prêmios e de muita mídia como atriz. Dali em diante, ela se dedicou inteira à literatura e dentro dela atravessamos 58 anos como amigos. Nascemos em 1936, ela no 12 de julho, eu no 31.

Nessa travessia percorremos o Brasil, indo a festivais de cinema ou a feiras e bienais literárias, porque ela aceitou e se divertiu com aquela novidade que causava o desdém de alguns conservadores: falar em escolas, auditórios, faculdades, igrejas, praças, onde houvesse espaço. Até então se pensava no ofício como algo solitário em cômodos fechados e, de repente, nossa geração partiu para as ruas em busca de leitores e também resistindo à ditadura e aos censores. O corpo e corpo como definia João Antônio.

Naquele 1965, fomos a Marília participar de um festival de cinema e fazermos a primeira tarde de autógrafos do interior. Foi no Cine Bar, espaço junto ao Cine Marilia (ali hoje é um banco). Em três mesas, Edla, Thomaz e eu esperávamos, olhando para um bando de gente que por sua vez nos olhava. Ninguém sabia o que fazer, nunca havia sido feito. Edla chamou seu amigo Anselmo Duarte, que lá estava para lançar seu terceiro filme como diretor, Vereda da Salvação, e murmurou. “Dê um jeito.” Anselmo apanhou nossos livros e explicou: “Comprem os livros, os autores vão autografar para vocês. Os livros vão valer muito um dia, além de serem gostosos de ler”. Vendemos um bocado. Edla mais do que nós, claro, era muito linda e sorridente.

Nestes 58 anos de convivência, Edla se entregou à literatura publicando romances, contos, infantis, peças teatrais, viveu uns tempos em Paris, viajou mundo, defendeu a classe e sua profissionalização. Ela descobriu autores e propôs reedições de esquecidos, organizou dezenas de antologias de contos e crônicas para a Global. Fazia escolhas cuidadosas que ela denominou Os Melhores de... Sempre digo que não sei se são os meus melhores, mas gosto deles, seriam os que eu escolheria. Nos afinávamos. Considero um ato de amor o livro que ela organizou com a crítica teatral completa do marido Sábato Magaldi. Trabalho monumental que deveria ser adotado em escolas de arte dramática, ali está a história do teatro brasileiro e mundial. Não por acaso, o volume se chama Amor ao Teatro.

Semana passada os e-mails explodiram entre amigos: Venha para celebrarmos o primeiro mês da morte de Edla. Do jeito que ela gostava, com vinhos e queijos. Uma happy hour. No domingo passado, voltando do Pará, fiz com ansiedade três conexões e cheguei em tempo à casa de Paula e Ricardo Van Steen, no Pacaembu. Tarde de sol. Dei com um mundo de gente, alguns conhecidos, outros não. Ali estavam escritores, publicitários, críticos, arquitetos, dramaturgos, advogados, jornalistas, fotógrafos, editoras de moda, artistas plásticos, atrizes, músicos, o que se possa imaginar, o mundo de Edla era vasto a harmônico e tínhamos certeza de ouvir, a todo instante, o riso dela, expansivo, irônico, forte. Era como se estivéssemos revivendo as noites do Gigettto, do Clubinho dos Artistas, do Bar do MAM, do Pirandello, as entregas do Sacy, as estreias de filmes, as noites do Jabuti, os encontros das manhãs de sábado na Livraria Cultura, com chope e empadas.

Ao entrar e ao sair, circulei em torno de enorme mesa onde foram espalhadas (não fosse Ricardo, o filho, um designer) centenas de fotos de todas as épocas de vida de Edla. Desordenadas, a cronologia desarrumada propositalmente. Todos comentaram uma foto de Edla e Tônia Carrero, sem poder dizer qual era a mais bela. Cada imagem celebrava um momento. Foi quando pensei na foto que Sábato queria me dar. Em 1962, fui cobrir a visita de Vivian Leigh ao Oficina. Ela, um ícone, estava em São Paulo com o Old Vic. Naquela tarde encenaram trechos de Um Bonde Chamado Desejo, com Maria Fernanda como Blanche Dubois, que Vivien tinha vivido na Broadway e no cinema. Direção de Alberto Boal. Fiquei siderado, foi a primeira superstar que vi cara a cara. Em uma foto, me disse Sábato, estamos ele e eu ao lado dela. Imaginem, essa figurinha falta em meu álbum. Parti no início da noite, lembrando o que Anna, filha de Edla, me contou: em cima da hora, sabendo que ia partir, o coração fragilizado, Edla pediu o quê? Uma taça de vinho. No meu derradeiro momento quero poire, bagaceira, ou Mimosa, sendo que esta só tem em Araraquara. Quanto à foto não fará a mínima falta diante da ausência enorme de Edla.

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