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'Tabu', um filme real e outro sonhado

O diretor português Miguel Gomes fala sobre longa em que discute temas como o passado africano e a juventude

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2013 | 02h09

Existem filmes que necessitam de uma preparação mais longa para lançamento. Em geral, são os filmes chamados de arte, como o Tabu do português Miguel Gomes. Desde que ganhou o prêmio da crítica no Festival de Berlim, em fevereiro do ano passado, e depois no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, Tabu teve mídia à altura de suas excepcionais qualidades. O lançamento talvez devesse ter-se dado ainda em 2012, mas o distribuidor e os exibidores preferiram esperar. Tabu teve várias datas de lançamento abortadas nas últimas semanas. O filme agora entra, e numa semana rica em atrações.

Nem por isso deixa de ser a joia esperada pelos cinéfilos. Como todo filme de Miguel Gomes, possui o formato de dois em um. Um filme real e outro sonhado. Já havia sido assim em Aquele Querido Mês de Agosto, que era um filme sobre outro filme. Tabu, a partir do próprio título, remete a uma obra cult - o Tabu de 1931, que marcou a parceria de F. W. Murnau e Robert Flaherty. Um realista intimista e um documentarista. Tabu, o original, divide-se em duas partes - Paraíso e Paraíso Perdido. Miguel Gomes inverte o formato. Filma primeiro o paraíso perdido e só depois, na segunda parte, o paraíso.

Ao repórter do Estado ele explicou, em Berlim e depois em São Paulo, que existem muitas possibilidades de leitura paras seu filme. A primeira parte trata dessa senhora em situação terminal, assistida pela doméstica africana e por uma vizinha. Ela se refere a um homem misterioso, que as outras duas vão tentar localizar. A velha senhora chama-se Aurora, como o título de outro clássico (silencioso) de Murnau. Ele é Ventura. E é o homem que conta, na segunda parte, a história de Aurora na África.

Muitos críticos veem na primeira parte de Tabu a nostalgia do império africano perdido de Portugal. Essa leitura é possível, mas Miguel Gomes não a considera ideal. "O verdadeiro paraíso perdido talvez seja a juventude", ele diz. Seja como for, a segunda parte de Tabu - a aventura africana - é narrada como um filme mudo, sobre o qual se imprimem quadros com diálogos que fazem avançar a história, como no cinema silencioso. Gomes conta que a filmagem em Moçambique foi uma aventura em si.

"Éramos uma equipe muito reduzida, e meus técnicos sabiam que também teriam de ser atores. Sou uma raridade, um diretor cujos técnicos são também grandes atores." Gomes filmou em preto e branco, com uma granulação e um brilho da imagem que dão a Tabu, o seu Tabu, a aura de filme antigo. O que bate na tela é um drama e talvez uma tragédia, mas, como ele lembra, a filmagem foi um pouco uma comédia. "Como o filme é mudo, os atores diziam coisas aleatórias ou repetiam as mesmas frases. Isso às vezes criava certos absurdos, e era difícil não rir. Virou uma norma para todos - não rir. Mas se alguém for fazer a leitura labial, verá que o que os atores dizem não tem nada a ver com as cenas."

Tabu se impôs como melhor filme para a crítica na Berlinale de 2012. Virou uma unanimidade - mesmo revistas como Cahiers du Cinéma e Positif, que em geral discordam em tudo, uniram-se no elogio à obra-prima de Miguel Gomes. Ele diz que nunca experimentou uma sensação parecida em sua carreira - o filme foi vendido para quase todo o mundo e ele precisou dar um basta a tantos convites para lançamentos internacionais, porque senão não faria mais nada. Com a cinematografia portuguesa em crise - acompanhando a situação do país -, ele precisou de parceiros internacionais para concluir o filme. Entre eles, a produtora brasileira dos irmãos Gullane. Com eles, Tabu ganhou um ator também brasileiro - Ivo Müller. Mesmo com atraso, Tabu é um grande filme que vale ver e admirar. Suas duas partes, suas múltiplas referências e ideias contidas em cada imagem fazem dele uma fonte de fascinação para o cinéfilo. Viajar nos signos de Tabu é reconhecer que se trata - já! - de um dos grandes filmes do ano.

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