Szot de volta à ópera

Após musical, barítono brasileiro já tem contratos até 2015

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h11

"Estava agora no ensaio", conta Paulo Szot, no fim da tarde de quinta-feira, por telefone desde Nova York. "Estamos preparando Manon e Peter Gelb me chamou para uma conversa, me ofereceu alguns contratos. Estou feliz."

A conversa precisa de legenda. O ensaio era realizado no Metropolitan Opera House. Manon, de Massenet, é uma das mais esperadas estreias da temporada - primeiro, porque tem a soprano russa sensação Anna Netrebko no papel principal; e também porque é regida por Fabio Luisi, o novo regente titular da casa. Gelb? É o mandachuva do Met, contratado a peso de ouro para "modernizar" o teatro. E há ainda os contratos - 12 apresentações de A Viúva Alegre em 2014 ao lado de Renée Fleming.

Isso já seria suficiente para ilustrar o momento vivido pelo barítono brasileiro Paulo Szot. Mas tem mais. Depois de estourar em Nova York em 2008 no musical South Pacific, que lhe rendeu o Tony, ele acaba de ser indicado, na categoria melhor ator, ao prestigiado Olivier, pela temporada londrina da peça. No ano passado, fez sua estreia na Ópera de Paris, cantando Mozart; em 2013, subirá pela primeira vez ao palco do Scala de Milão. E, no meio disso tudo, com uma agenda cheia até 2015, fará este ano as primeiras apresentações no Brasil desde que partiu para os Estados Unidos.

"É o sonho de todo cantor de ópera e eu não poderia estar mais feliz", ele diz. Nascido em São Paulo, criado em Ribeirão Pires, Szot estudou piano desde pequeno - mas, aos 18 anos, quando partiu num navio cargueiro rumo à Polônia, foi para perseguir o sonho de ser bailarino. Três anos depois, uma contusão no joelho o jogou de volta à música e na Europa mesmo ele começou a estudar canto. E, de volta ao Brasil, no fim dos anos 90, faria sua estreia brasileira como cantor em O Barbeiro de Sevilha. "O fato é que, por mais que a gente sempre queira alcançar o sucesso, viver o que eu vivo hoje é algo que não existe nem em sonho. Minha cabeça fica a mil pensando nisso tudo. E o que me tranquiliza é saber que é tudo consequência de anos e anos de luta, de esforço, de pequenas conquistas. Eu hoje estou colhendo o que plantei", diz ele, que completa 42 anos em julho.

No Brasil, Szot vai se apresentar, em novembro, com a Filarmônica de Minas Gerais e o maestro Fabio Mechetti, interpretando as Ruckert Lieder, de Mahler, e a cena final de A Valquíria, de Wagner; no mesmo mês, faz recital na Sala São Paulo, ainda sem programa definido - mas que pode ter as músicas do show que ele tem feito regularmente no Hotel Carlyle, em Nova York, com standards dos cancioneiros brasileiro e norte-americano. "De qualquer forma, vai ser bom poder voltar a cantar no meu país e ser visto no palco pela minha família", ele brinca.

No palco de ópera, os próximos compromissos de Szot o colocam entre o repertório tradicional e a música contemporânea. Ainda este ano, após Manon, que estreia no dia 26, participa de As Bodas de Fígaro, de Mozart, no Festival de Aix-en-Provence. No ano que vem, volta a fazer o protagonista de O Nariz, de Shostakovich, no Metropolitan, onde em 2014 participa também de uma nova montagem de The Death of Klinghofer, de John Adams. Em 2013, no Scala, canta The Dog's Heart, ópera de 2010 de Alexander Raskatov, baseada em livro de Vladimir Bulgakov (a regência será de Valery Gergiev).

"Não foi algo que imaginei desde cedo na minha carreira", diz Szot sobre a diversidade do repertório. "Adoro os papéis tradicionais da ópera, e estou muito feliz de voltar a Mozart agora na França. Mas as obras novas trazem desafios interessantes. Acho que caem bem para mim papéis que exigem não apenas cuidado com a música, mas também com o teatro. De qualquer forma, a música exige um outro tipo de cuidado, não dá para aprender a partitura durante uma semana e guardá-la no armário, você tem de ficar voltando a ela constantemente. Ao mesmo tempo, não há referência para o público, como no repertório tradicional. Subir ao palco de teatros como o Met ou o Scala é incrível, mas pesa pensar em todos os grandes nomes que já estiveram ali antes de você."

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