Szot, a voz

Aclamado no Metropolitan de Nova York, nosso barítono revela: vai filmar com Almodóvar

Lúcia Guimarães / NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

"Ainda bem que ele não perdeu o ouvido!" A mulher atrás de mim soltou a exclamação no empurra-empurra que sucedeu a ovação, de pé, à première da ópera O Nariz. Em inglês, ouvido e orelha são a mesma palavra. A mulher se referia à enorme dificuldade oferecida pela partitura atonal cantada pelo protagonista major Kovalyov, vivido pelo barítono brasileiro Paulo Szot, em sua aclamada estreia no Metropolitan Opera de Nova York. Espere aí, o protagonista guapo que se curva aos aplausos não passou os últimos dois anos no teatro ao lado, derretendo o coração da heroína do musical South Pacific?

Aqui, vamos aposentar o clichê "o paulista de Ribeirão Pires". Afinal, todo mundo tem que nascer e crescer em algum lugar. Se o glamour do berço e a proximidade ao umbigo urbano do planeta na segunda metade do século 20 equivalesse a uma certidão de nascimento artístico, então Louis Armstrong, Albert Einstein, Laurence Olivier e Philip Roth, entre outros, teriam nascido em Times Square.

Quantos tenores, barítonos e baixos profundos não gravitam no pensamento em torno do levemente fascista conjunto de prédios no Upper West Side de Manhattan, construído na década de 60, sonhando com a chance de acrescentar à sua biografia a frase "Estreia no Metropolitan Opera"? Quantos?

A expressão de Paulo Szot, quando o zangado segurança do teatro abriu a porta do camarim, ajuda um pouco a explicar a carreira extraordinária do jovem que embarcou num navio cargueiro para a Polônia aos 18 anos, com planos de ser bailarino. Confesso que a compostura jornalística foi ligeiramente prejudicada pela consciência de que, desde 1937, quando Balduína de Oliveira Sayão, a nossa Bidu, havia despertado reação semelhante, um brasileiro não estreava como protagonista no Met. Ofereci meu cumprimento torcedor e notei a reação que o diretor Bartlett Sher, o primeiro a apostar no carisma de Paulo Szot no palco, havia descrito em 2008, quando Nova York se apaixonou pelo Emile de Becque de South Pacific. Na festa de comemoração pela estreia do musical que faria de Szot o primeiro brasileiro a ganhar um prêmio Tony, Sher me contou que Paulo parecia não entender o que estava acontecendo.

Ovação. A esta altura, ninguém mais subestima a inteligência de Paulo Szot. Mas ao sair do camarim em meio à zoeira eufórica do restante do elenco, e justamente quando perguntei "está feliz?", Paulo não deu o menor sinal de que tinha acabado de ser ovacionado por 3.800 pessoas. "Não sei como foi, não vi, estou tão cansado", reagiu com um sorriso subjugado, antes de ser arrastado pela corrente humana para mais uma festa de comemoração.

O Paulo Szot que abre a porta do apartamento no 43º andar, numa tarde gloriosa de temperatura amena, já digeriu todo tipo de elogio à sua estreia publicado na imprensa americana e continua desassombrado. Sua primeira ordem de preocupação é saber se o fotógrafo e a repórter não querem um bolinho com o café expresso que se apressa em fazer.

Em seguida, diante dos superlativos inevitáveis de quem se depara pela primeira vez com a vista espetacular para o Rio Hudson e o Central Park, o anfitrião quase se desculpa por acordar todos os dias naquele cenário. "Eu sei, eu sei, quando cheguei, exclamei de cara "quero a vista", nem prestei muita atenção no apartamento", lembra-se bem. Para um apartamento alugado por temporada já mobiliado, a decoração não insulta a vista panorâmica. Há gravuras de Alexander Calder e Jean Michel Folon, móveis modernos de cores neutras e o toque dos dois barítonos moradores do lugar, visível nas muitas fotos e vasos de orquídeas. Logo a porta se abre e um sorridente Eduardo Amir vem ao nosso encontro.

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