Sylvio Back Retrata o 'Canudos do Sul'

O Contestado instiga a polêmica ao discutir o trágico episódio histórico

Luiz Carlos Merten / GRAMADO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

Terça-Feira à noite, dois documentários apresentaram interessantes propostas complementares na serra gaúcha. Da Venezuela, na mostra latina de Gramado, veio História de Um Dia, de Rosana Matecki. Concorrendo pelo Brasil, veio na segunda parte da noite O Contestado - Restos Mortais, de Sylvio Back. Entre ambos, o festival homenageou Paulo César Pereio. Considerando-se a personalidade avassaladora e irreverente do agraciado com o troféu Oscarito deste ano, a performance de Pereio surpreendeu. Ele não disse um palavrão. Elogiou a chanchada, da qual Oscarito foi rei, lembrando que os críticos a estigmatizaram, mas é a forma brasileira de expressão.

 

A homenagem a Pereio foi, até agora, o único momento em que o Palácio dos Festivais lotou. A sala dispõe de 1.200 lugares. A assessoria garante que o fato de a sala permanecer vazia, ou quase, não tem nada a ver com o preço dos ingressos. Gramado cobra os ingressos mais caros entre os festivais do País - R$ 50 e R$ 100. Não se trata de uma fonte de recursos, mas de uma atitude talvez política, para selecionar o público. Cerca de 30% dos ingressos são colocados à venda. Esgotam-se rapidamente. Os restantes são distribuídos entre convidados e patrocinadores. São os lugares vagos, a maioria. Para quem a Oi e a Petrobrás estão distribuindo seus ingressos? Para quem não gosta de cinema, com certeza.

 

 

 

      

Estética espírita. O cineasta encena possessões mediúnicas para dar voz às vítimas dos massacres do Contestado  

 

 

 

Dificilmente duas pessoas formarão a mesma ideia sobre História de Um Dia. O documentário de Rosana prescinde de palavras para acompanhar um dia na vida de pessoas e comunidades venezuelanas. Pequenos gestos cotidianos de homens e mulheres, o ritual de exumação de um cadáver, outro de casamento, uma representação cerimonial. Cada espectador é livre para formar a história que quiser. A inspiração, longínqua, vem do alemão Walter Ruttman, que contou, só com imagem e música, a história de um dia da capital alemã no clássico Berlim, Sinfonia de Uma Cidade.

 

O Contestado retoma como documentário o tema que Back tratou como ficção em A Guerra dos Pelados, de 1970. De 1912 e 16, houve um conflito entre o Paraná e Santa Catarina. Em troca da construção de uma estrada de ferro, o governo cedeu extensões de terras a uma companhia estrangeira. Os pequenos proprietários expropriados se entrincheiraram num reduto messiânico. A repressão foi sangrenta, a carnificina, terrível. Se Rosana prescinde da palavra, Sylvio Back constrói seu documentário em torno dela.

 

Pesquisadores e descendentes de "pelados", como se chamavam os expropriados do Contestado, sustentam interpretações polêmicas da história. O episódio teria sido o "Canudos do Sul". O papel do Exército, a presença estrangeira, a estrutura fundiária, tudo passa pelo crivo revisionista. Mas o que torna o filme controvertido é o partido estético do autor. Em vários momentos, os relatos e análises se referem a transes mediúnicos das lideranças do Contestado. Sylvio Back radicaliza.

 

Ele encena, por meio de sessões espíritas, a possessão mediúnica que dá voz às vítimas dos massacres do Contestado. Seu filme não deixa de se inscrever nesta vertente do espiritismo que parece tão forte no cinema brasileiro atual. Além de Chico Xavier e do inédito Nosso Lar, o tema está em O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, que também concorre em Gramado. O que representa essa estetização do espiritismo? Para alguns críticos, é um retrocesso, mas o espiritismo já vem de longe na obra de Back. Aparece em O Autorretrato de Bakun, por exemplo. O filme dura mais de duas horas e meia. Exibido no fim da noite, foi um massacre, até pela verborragia. Mas nada daquilo é gratuito. Uma nova representação do transe? O autor é mais inteligente do que os críticos medíocres, que fazem chacota de O Contestado por sua trágica incapacidade de entender que o realismo não é a única ferramenta, ou linguagem, para investigação da dor do mundo no cinema.

 

 

Um curta de amigo

Amigos Bizarros de Ricardinho, de Augusto Canani, parece piada, mas é mais. O garoto que enfrenta as tensões da vida corporativa tem encanto todo especial. Valorizou a seleção de curtas.

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