Swami Jr a serviço da grande dama de Cuba

O talento de um brasileiro que venceu as resistências na ilha e fez de Omara Portuondo uma cantora universal

O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2013 | 11h02

Nenhum músico brasileiro conhece mais Cuba do que o violonista Swami Jr. Arranjador, produtor, violonista, sua presença definitiva na personalidade de Omara Portuondo é resultado de um trabalho que começou em 2003, quando o produtor Alê Siqueira o chamou para trabalhar com os músicos cubanos, que acabavam de ganhar o mundo graças ao projeto Buena Vista Social Club, de 2001, que incluiu filme com direção de Wim Wenders e álbum do guitarrista Ry Cooder.

Chamado a princípio para gravar três músicas no disco de Omara, Flor de Amor, de 2004, Swami acabou fazendo violão em todas as faixas. "Aquilo era um sonho, eu ao lado de músicos cubanos maravilhosos. Então, Omara virou para mim e disse: 'Agora, fica'." Swami ficou. Ainda como instrumentista, saiu com o grupo em turnê de dois anos pela Europa, Ásia e América Central. Ao terminar, recebeu um desafio um pouco maior. "Agora você vai dirigir."

Um novo projeto começou a ser pensado, o álbum Gracias, de 2007. De músico brasileiro acompanhante, Swami passaria a comandar cubanos cheios de orgulho e sentimentos hierárquicos. "Isso não foi fácil", lembra. "Imagina chegando um cara de fora para dirigi-los. Eu sentia essa resistência não só dentro do grupo, como também de pessoas que estranhavam o fato de um brasileiro dar as cartas ali."

A pedreira foi sendo demolida com música. "Ao mesmo tempo, eles respeitam muito os instrumentistas brasileiros." Uma vivência na França por quatro anos e uma temporada com o grupo Heartbreakers, em São Paulo, já haviam colocado Swami em contato com as tradições cubanas. Agora, ele se aprofundava consumindo lotes de discos. Ao fazer suas primeiras sugestões, sentiu as barreiras caindo. "Eles adoram as harmonias que fazemos, não têm muito isso por lá. Gostam desse sabor brasileiro."

A aproximação de Swami com a música cubana não se dá pela frente do ritmo, o caminho mais comum quando músicos querem promover casamentos entre as duas culturas. Sua aposta foi nos arranjos, nos acordes. Foi assim que fez Omara soar menos cubana, no sentido regional do termo, e mais universal. O grupo que comanda, embora sejam todos músicos da Ilha, é livre, de concepção jazzística, algo que o ajudou muito ao decidir pisar nas terras de Nat King Cole, já tão batidas pelas muitas regravações.

Fazer com que o disco não caísse na releitura de cabaré não era tarefa fácil. Ao mesmo tempo, Swami não queria tirar Omara de sua casa e levá-la para um mundo de sofisticação além do que suas origens em Havana poderiam suportar. Primeiro, ele entendeu com quem estava lidando. Depois, propôs as novidades. Mas ganhou mesmo ao ter a humildade de trabalhar a serviço da maior voz que até hoje vive em Cuba, e não de sua própria imagem. / J.M.

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