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Suzy Lee brinca com a linha que divide a fantasia da realidade

Em entrevista ao 'Estado', escritora sul-coreana fala sobre o seu novo livro 'A Trilogia da Margem'

ARYANE CARARO - O Estado de S.Paulo,

07 de novembro de 2012 | 02h10

Existe uma linha que separa a fantasia da realidade. Ela está em nossas cabeças e costuma ser firme, intransponível. Mas, algumas vezes, fica tão turva que parece não haver limite entre cá e lá. Crianças costumam saltar de um lado para o outro com uma desenvoltura que os adultos perdem por falta de treino. E mal se percebe que essa margem pode estar em qualquer lugar. Um dia, abre-se um livro e lá está ela, sólida, pura presença física: a grande linha grossa que separa uma página da outra. Uma fronteira que a sul-coreana Suzy Lee sabe trabalhar como poucos. Ela passeia tranquilamente entre o sonho e o real, deixando pistas dos dois mundos ao longo de seus livros. Basta ter a sutileza do olhar. Ou o livro A Trilogia da Margem em mãos, lançado pela Cosac Naify.

Mestre do carvão e da economia de cores, Suzy, aos 38 anos, não fecha um ciclo, mas sente necessidade de se explorar. Para se descobrir, para revelar. Neste livro, ela destrincha as fronteiras que ultrapassou em Espelho, Onda e Sombra (livros-imagem publicados pela Cosac) e aponta as migalhas que deixou para os leitores nas três obras - algumas levam a René Magritte, Lewis Carroll... Leitura boa para educadores, artistas, designers e curiosos em desvendar o processo criativo de Suzy. Neles, ilusão e realidade se invadem, se sobrepõem e se misturam ao cruzar a dobra central do livro.

De Cingapura, ela explica por e-mail que não pretende fazer deste um manual, só mais uma maneira de olhar para os livros ilustrados. O que não deixa de ser uma forma de provocar as certezas. "Como podemos saber o que é realidade e o que é ilusão? E se a vida é um sonho dentro de um sonho?". Uma descoberta que leitor e autora fazem sobre ela própria e uma reflexão sobre o turvo limite entre real e imaginário.

Por que decidiu escrever A Trilogia da Margem?

Aprendo com outros artistas e seus trabalhos, mas também aprendo muito com os meus. Percebi que, de alguma forma, meus livros têm lidado com o mesmo assunto de maneiras diferentes e isso é muito interessante. Achei que poderia escrever sobre as ramificações de meus pensamentos. Paralelo a isso, há dois anos vim ao Brasil e a diretora de núcleo infanto-juvenil da Cosac Naify (Isabel Lopes Coelho) me sugeriu escrever A Trilogia.

Foi necessidade de explicar seu processo criativo?

A razão de ter escrito A Trilogia da Margem não foi para explicar, mas explorar. É o leitor quem decide como lê um livro e como interpreta a história. Livros ilustrados são o que são - não precisam ser explicados. A Trilogia é como uma pesquisa, em papel, para me observar. Alguns dizem que trabalhar em projetos é como colocar uma estaca no chão. Você põe uma estaca, coloca outra a certa distância e, depois de um tempo, encontra uma direção. Isso foi essencial para encontrar minha direção em um nível pessoal. Espero que os leitores considerem a Trilogia não como um manual para ler meus livros, mas uma sugestão interessante dizendo-lhes que há outra possibilidade para ler livros ilustrados.

Como veio a vontade de trabalhar com a dobra central?

Eu me interesso pelo formato do livro como meio de arte. Naturalmente, estou lidando com os elementos de um livro quando o faço: quatro cantos, capa grossa, linha de encadernação… Um livro tem muito mais de um "objeto" a ser pensado como uma tela que projeta uma história. Leitores tendem a ignorar a linha de encadernação. Mas, e se essa linha não fosse censurada, mas incorporada? E se os componentes físicos do livro se tornassem parte da história? E se o livro, por si só, se tornasse parte da experiência de leitura? Eram questões que eu queria responder.

O que é a margem?

A margem que três dos meus livros - Espelho, Onda e Sombra - dividem é a dobra física do livro, e ao mesmo tempo, a fronteira entre fantasia e realidade. Você está vendo essa margem no centro quando lê um livro, mas não está consciente disso. Na vida, não acho que seja diferente. O mundo em que vivemos é que é transparente e claro? Como podemos saber o que é realidade e o que é ilusão? E se a vida é um sonho dentro de um sonho? A margem pode ser tudo: a fronteira entre realidade e sonho ou entre mim e você. No Império das Luzes, de René Magritte, onde está a fronteira entre o dia e a noite? É sobre essa fronteira turva que vivemos.

O que um livro sem palavras oferece ao leitor?

Se não há texto definindo, há mais possibilidades na leitura livre. Não há risco de ler errado um livro sem palavras. Cada história que o leitor cria é significativa. Uma história que muda cada vez que você a lê, não é divertido?

Você usa poucas cores em Espelho, Sombra e Onda. Por quê?

O uso limitado de cores rouba a atenção dos leitores e faz refletir sobre o significado delas. Em Onda, a roupa da criança fica azul à medida que ela brinca com as ondas. Depois de ficar completamente molhada pelo mar e voltar à realidade, sua roupa e todo o céu muda para um brilhante azul ciano. O amarelo em Sombra, por exemplo, representa o reino da imaginação. O amarelo que estava só no mundo imaginário preenche a última cena quando a margem entre realidade e imaginação se dissolve.

Em que está trabalhando?

Estou acabando as ilustrações para Open This Little Book (Abra Este Pequeno Livro, a ser lançado em janeiro pela Cosac), escrito por Jesse Klausmeier. Nesse livro, você abre a primeira página e encontra um pouco de história e outro livro. Que você abre, tem um pouco de história e outro livro. Há um livro dentro de um livro dentro de um livro... Como um sonho dentro de um sonho.

A Trilogia da Margem tem colaboração de crianças brasileiras.

Quando visitei o Brasil, tive muitos encontros com crianças. Algumas escolas fizeram workshop com meus livros. Tive a oportunidade de vê-los e fiquei bem impressionada.

Quais são seus livros ilustrados preferidos?

Há livros fantásticos, mas vou citar só alguns: Nella Nebbia di Milano, de Bruno Munari, L'Altalena, de Enzo Mari, Oi! Get Off Our Train, de John Burningham, Un Jour, Un Chien, de Gabrielle Vincent, Spider, de Susumu Shingu, Fish, Wind and Piano, de Dong-Jun Shin e Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak.

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