Sutilezas de um recital afinado

Um recital delicado, bem cuidado nas suas escolhas. Fruto do primeiro encontro profissional entre Morena Nascimento e Benjamin Taubkin, Um Diálogo entre Música e Dança realiza bem mais do que a singeleza que seu título promete. Porque em um diálogo, o procedimento se pauta na singularização das vozes nele envolvidas e aqui, uma vai tomando a forma da outra. Ocorre um adentramento e não uma conversa pautada no ritmo da sequencialidade do fala um/fala o outro.

, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

A operação em curso é bem mais interessante do que uma tradução de música em movimento ou vice-versa. Os dois artistas vão transformando tudo em corpo. A música que Benjamin Taubkin produz não sai do piano, mas, surpreendentemente, se aloja nele. Cada sonoridade vai impregnando o objeto piano e, aos poucos, parece que tudo nele muda de forma, tal como sucede com o dueto entre teclado e pedal que, às vezes expande um no outro e, em outros momentos os comprime, simulando uma redução no tamanho do próprio piano. Com Taubkin, o objeto piano torna-se plástico, demonstrando que existe na dependência da materialidade acústica dos desenhos sonoros aos quais dá nascimento.

Quando o corpo de Benjamin se curva, é a sinuosidade do corpo do piano que nele se distende, seu corpo continuando o do piano, e o do piano continuando o seu. Quando Morena Nascimento, a certa altura, se abriga debaixo do piano, ele também se estende, mas agora no sentido de Rachel Whiteread. Ao preencher os espaços vazios dos objetos, Whiteread revela, nos moldes que vai produzindo, que em qualquer objeto há sempre partes obscuras para a nossa visão. Nas esculturas de Whiteread, o que antes era o vazio, e não atraía a nossa percepção, passa a ter volume, densidade, textura. Debaixo do piano que silencia, vestida de preto, Morena Whiteread vai percutindo a sua respiração, fazendo música com o ar que entra e sai, e vira piano. Não à toa, o piano, em seguida, continua a distender a sua respiração, agora a moldando "whitereadianamente" na forma de música.

A ação de distender um corpo no outro se instala de partida, já quando Morena, ao sentar-se ocupando metade da superfície do banco do piano, indicava a existência de outro corpo - o de Benjamin que, pouco depois, entra para moldar aquele aparente vazio. Os gestos que fazia com as mãos em silêncio se continuam nos dedos dele, que se continuam nas teclas, que se continuam no pé-pedal, na caixa de madeira do ex-objeto-piano, agora corpo-piano.

A qualidade com que Morena Nascimento realiza cada micro ou macromovimento a distingue. Seja com um único dedo, ou em um encadeamento entre tronco, braços e cabeça, cada trecho do caminho que o movimento toma em seu corpo tem a justeza do tamanho certo. Característica rara, restrita aos intérpretes-artífices, aqui também dá a ver a sua musicalidade, que estava na sombra da sua dança competente.

Nesse sarau de contaminações entre dança, música, piano, e corpos, são as distensões que atuam como os moldes preenchedores das novas formas que vão nascendo, fruto do talento desses dois intérpretes. Sintonia fina e muito afinada.

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