Sutilezas da obra de um colorista invade a Dan Galeria

A obra de um colorista pode ser um sonho bom. "Às vezes eu vou ver as obras de Paul Klee e ver tudo aquilo reunido é um sonho bom e instigante", diz o artista Gonçalo Ivo. Da mostra que ele acaba de inaugurar na Dan Galeria, não dá nem vontade de sair: telas e objetos de madeira pintados carregam cores fascinantes, calmas, quentes, tramas, texturas, enfim, revelam um trabalho que tem, desde seu princípio, "vocação contemplativa e jubilosa", nas próprias palavras do artista. E não há nada de menor nisso, pelo contrário: seria muito óbvio, ele adverte, recalcar sua produção ao status de alienada porque não espelha de forma literal e direta a bizarrice e a violência dos tempos atuais. Gonçalo Ivo, talvez uma "ovelha negra da arte contemporânea", segue a sua corrente: a do fazer apurado e experimental pelo uso sutil de tantos materiais e cores, sempre em direção ao belo, "ordem e simetria interna de todas as coisas", na citação de São Tomás de Aquino feita por Ligia de Franceschi, no texto sobre a atual exposição do artista.Têmpera, óleo, aquarela. Há muito de espiritual ao ver as obras do carioca Gonçalo Ivo reunidas na sala da galeria. Ao mesmo tempo, algo de ancestral e primitivo traduzido em obras contemporâneas. Nos objetos de madeira pintados - "não sou escultor, sou pintor", diz Gonçalo -, que ele vem produzindo nos últimos três anos, uma raiz de inspiração foi a da "arte primeira" - ("a maneira elegante que o Primeiro Mundo escolheu para falar do Quinto Mundo") - ou da arte primitiva, principalmente, as esculturas ritualísticas. O artista, que vive em Paris, mas tem também ateliê em Teresópolis, no Rio, usa pedaços de madeira calcinada que encontra ao acaso. Dessa maneira, as formas de seus objetos são as de totens, mas livres, que vão das escalas menores para maiores. "Há a precariedade do objeto, quase no limite da imaterialidade", diz Gonçalo Ivo. De certa maneira, a geometria está lá na forma dos objetos, não apenas nos desenhos presentes em suas faces (passeios pela obra de Volpi e de Klee, como Gonçalo mesmo diz, e por símbolos arcaicos) e nas áreas retangulares compostas com cores (são belas as azuis) ou pela colocação de diversos pregos de ferro, mas existe uma "alma da madeira". A arte de Gonçalo Ivo tem essa força justamente de reunir, ao mesmo tempo, a leveza e as formas construídas. "Minha geometria é mole, como a arquitetura da favela, imprecisa", diz o artista, arquiteto por formação.Essa geometria mole, por assim dizer, se vê também nas telas. Duas delas, grandes, são apenas pinturas, feitas de faixas vibrantes de cores. Mas há ainda outras telas, das séries Prière e Tissu d´Afrique, em que o artista usa a têmpera, mas as faz como colagens, já que usa pedaços de papéis raros (entre eles, do Nepal e japonês), tiras de serpentinas, grãos de ouro e de prata, uma série de matérias diferentes. "A cor procurada não é a que sai do tubo de tinta", diz o colorista. Não à toa ele remete o seu fazer ao tecer - lembra dos tapetes asiáticos, das colchas mineiras -, faz uma espécie de "elegia" em que todos os materiais e mais ainda o processo de pintura e aguadas nos levam a criações de pulsações e ritmos - diga-se, ritmos feito de imprecisões, não de formas rígidas e frias - ao longo das superfícies de suas obras. "As coisas não se fecham nas composições, não existe um centro para o olho, ele vai viajando", afirma Gonçalo Ivo, filho do poeta Lêdo Ivo. O artista vai fazendo ritmos e preenchendo os espaços com uso de formas seriais, que remetem a faixas, quadrados e retângulos, "como salmos de um culto". Ele, que ao mesmo tempo prepara obras para exposição em dezembro no Museu Nacional de Belas Artes do Rio, diz que não desenha antes essas composições, elas vão sendo feitas diretamente na tela. Por meio dessa colagem sutil de um pintor, o espectador, em momento de sensação de plenitude, não pode dividir o que é pintura e o que são os outros materiais.Gonçalo Ivo. Dan Galeria. Rua Estados Unidos, 1.638, Jd. Paulista, tel. 3083-4600. 2.ª a 6.ª, 10 h às 19 h; sáb., até as 13 horas. Grátis. Até 12/5

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