Sutil e teatral, Zélia Duncan arrebata pela palavra de Tatit

CRÍTICA: 'ToTatiando' é um dos espetáculos musicais mais surpreendentes dos últimos anos

Lauro Lisboa Garcia,

22 de setembro de 2012 | 07h00

Um dos espetáculos musicais mais surpreendentes dos últimos anos é ToTatiando, de Zélia Duncan, com direção de Regina Braga, que teve rápida passagem pelo Sesc Belenzinho e agora está em cartaz no Tuca até o fim do mês, antes de viajar para outras capitais.

A palavra "espetáculo" faz todo sentido nesse caso, porque esse de Zélia é um misto de suíte musical e encenação teatral sobre o genial cancioneiro de Luiz Tatit. Zélia encarna as personagens das canções (como no ótimo bloco das mulheres - Sofia, Matilde, Odete, Vera) e o próprio Tatit, com sutileza. Surpreende ao modular a voz alguns tons abaixo do habitual, exigindo assim que se faça silêncio absoluto para conseguir ouvi-la.

Dois músicos (Webster Santos e Tércio Guimarães, alternando-se entre teclado e instrumentos de corda e sopro) desenham a delicada trama instrumental para ela poetar e bordar com as palavras (especialmente em Ah, que trata disso), de forma lúdica, dramática, irônica, metalinguística, favorecida pelo próprio formato canto-falado do estilo de Tatit.

Primando pelo essencial, este é um dos melhores trabalhos de Zélia, que se revela expressiva atriz e provoca encantamento e emoção - principalmente na cena de Dodói, com uma grande orquídea nas mãos, em homenagem a Itamar Assumpção, parceiro de Tatit na canção. O roteiro - que começa com O Meio e termina com Essa É Pra Acabar - é impecável, dura o tempo necessário. A direção de Regina Braga é sensível, precisa, não deixa nenhuma sobra, e é de uma elegância ímpar; o cenário e a iluminação são deslumbrantes.

Poderia ficar óbvio "comentar" a letra de O Meio gestualmente, mas a sutileza que Zélia e Regina imprimiram na encenação de sua entrada no palco, andando de lado até chegar no meio, só engrandece a canção e deixa o público perplexo, na maior expectativa. É de imaginar que se começou daquele jeito só poderia vir mais e mais surpresas boas.

Principalmente para grande parte do público dela que não conhece Tatit, o arrebatamento já de início é fundamental. E induz ao silêncio necessário e precioso. Como ela mesma comentou no camarim, melhor seria se o público não aplaudisse entre um esquete e outro, deixando para se manifestar só no fim.

Além de canções que contam histórias ou descrevem situações propícias à teatralização, como Banzo, Haicai, Olhando a Paisagem, Felicidade e o palhaço de Esboço, há outros pequenos textos, como o apaixonante poema de Mário de Andrade Quando Eu Morrer Quero Ficar, da Lira Paulistana (não por acaso).

Há um show clássico da cantora Marlene, recentemente reeditado em CD, cujo título poderia se adequar a esse de Zélia: Te Pego Pela Palavra. Numa era em que a maior parte do que se canta na música brasileira serve apenas pra fazer ruído vocal, do tipo tchum e tcha, é mais do que urgente essa revalorização da inteligência.

As letras no cenário são poesia concreta, como é o cartaz do show, brincando com o ritmo e a sonoridade da palavra que move a musicalidade de Tatit. Ao separar as sílabas do sobrenome Dun-can, emendando com o título do show ToTatiando, fica o can-to e a aliteração que vem em seguida com o sentido do tato e tal. Sutil e significativo, brilha como uma subliminar homenagem dessa fluminense aos 90 anos da paulistana Semana de Arte Moderna. Bom saber que vai ser registrado em DVD. Esse sim vale a pena guardar e rever.

 

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