Sutil Companhia estréia em SP

Foram muitas as boas surpresas da mostra paralela (Fringe) do 9.º Festival de Teatro de Curitiba, realizado em março deste ano. A qualidade dos espetáculos apresentados no Fringe, não raro, superou alguns dos selecionados para a mostra oficial. Um desses destaques da mostra paralela, A Vida É Cheia de Som e Fúria, dirigido por Felipe Hirsch e protagonizado por Guilherme Weber, estréia nessa quinta, no Sesc Anchieta para uma curta temporada na cidade, antes de seguir para Belo Horizonte, onde participa do Festival Internacional de Teatro (FIT), em agosto, desta vez integrando a mostra oficial.Mas o sucesso da encenação de Hirsch - adaptação livre do livro Hight Fidelity (Alta Fidelidade), do inglês Nick Hornby, um mergulho no mundo pop, perpassando as décadas de 50 a 90 - não foi exatamente uma surpresa. Afinal, a Sutil Companhia de Teatro, fundada em Curitiba por Weber e Hirsch em 1993, tem no currículo mais de 40 prêmios por espetáculos como Baal Babilônia, de Fernando Arrabal, e Estou te Escrevendo de um País Distante, adaptação de Hamlet. Esta última, virou objeto de estudo na Universidade de São Paulo, analisada pela professora Célia Maria Arns de Miranda em sua tese de doutoramento sobre as adaptações modernas de Shakespeare.Rob Fleming, interpretado por Guilherme Weber, um típico representante da chamada geração no future (sem futuro) - título de uma música do Sex Pistols -, é o personagem central de A Vida É Cheia de Som e Fúria, referência à frase proferida pelo protagonista de Macbeth - a vida é uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota, significando nada. "Em plena crise dos 30 anos e recém-abandonado pela mulher Laura (Fernanda Farah), ele se sente um idiota cuja vida não tem sentido", comenta o diretor.Dono de uma loja de discos, apaixonado por música pop, Fleming esteve perto de sentir-se realizado durante o período em que foi DJ do Groucho Marx Club. Na tentativa de mostrar indiferença diante do "chute" de Laura, Fleming resolve relacionar as cinco piores separações de sua vida. "Minha geração não tem opiniões, tem listas: as cinco melhores capas de discos, os cinco melhores souls, etc", afirma o personagem. Depois de rever suas cinco ex-namoradas - "ele foi chutado por todas" -, Fleming reencontra-as de verdade, no segundo ato da peça.A memória das cinco piores separações - desde a primeira namorada, aos 13 anos - serve de mote para uma viagem por quatro décadas de música pop, de Bob Dylan a Kurt Cobain, estampados em pôsteres gigantes no palco. Músicas de Marvin Gaye, Leonard Cohen, Paul MacCartney, The Clash, Stevie Wonder, Elvis Costello e Nirvana estão entre as 70 que integram a trilha sonora do espetáculo, certamente um dos motivos do enorme sucesso do espetáculo entre os jovens na temporada curitibana.Mas não o único. A velocidade da narrativa - que aproveita o fato de ter como fio condutor a memória para saltar no tempo e no espaço com muita liberdade - causou sensação entre a garotada. Outro fator foi a identificação com os conflitos do protagonista. "Apesar de ser inglês, Hornby ficou famoso a partir de Seattle (EUA), assim como Kurt Cobain", diz Hirsch. "Até por conta da massificação da cultura pop, existe uma identificação muito forte entre todos os jovens urbanos de cidades como São Paulo, Londres, Seattle, Curitiba, todos esses lugares onde o céu é cinza chumbo seis meses por ano", argumenta Hirsch.No palco, dez atores interpretam personagens reais e fictícios, como a cantora punk Patti Smith, uma das namoradas de Fleming, inexistente no romance original. Uma história curitibana inspirou o acréscimo de outro personagem, Dick, fã de Ian Curtis, da banda Joy Division, que suicida-se como seu ídolo. "Curitiba é a cidade brasileira que apresenta o mais alto índice de suicídio entre jovens", afirma Hirsch. Segundo ele, a falta de perspectivas, tema abordado pela música pop, é o principal motivo. Mas Hirsch não é pessimista. "Depois do individualismo exacerbado da década de 80, o surgimento das tribos na década de 90 foi um acontecimento muito interessante"."A Vida É Cheia de Som e Fúria". Comédia. Direção e adaptação de Felipe Hirsch para obra de Nick Hornby. Duração: 150 minutos. De quinta a sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 15. Teatro Sesc Anchieta. Rua Doutor Vila Nova, 245, tel. 256-2281. Até 16/7

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