Felipe Hirsch/Divulgação
Felipe Hirsch/Divulgação

Sutil Companhia de Teatro estreia 'O Livro de Itens do Paciente Estevão'

Grupo de quase 20 anos de experiência apresenta espetáculo no Sesc Belenzinho, em SP

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2012 | 03h09

A Sutil Companhia de Teatro é formada por artistas inquietos - depois de apostar em uma poética autoral e de mergulhar no universo do ser e do vir a ser que se articula dentro de uma realidade em movimento, os integrantes do núcleo base, o diretor Felipe Hirsch e o ator Guilherme Weber, sentiram a natural necessidade de avançar.

Afinal, com quase 20 anos de existência (nasceu em 1993), a companhia sempre manteve uma conduta irrequieta - se a pesquisa do passado marcou os primeiros passos (A Memória da Água), logo o grupo combinou tanto a revisão de clássicos consagrados (A Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller) como o flerte com a vanguarda (Os Solitários, de Nicky Silver, e Temporada de Gripe, de Will Eno, são exemplos notáveis).

"Precisávamos, assim, dar mais um passo e o resultado foi algo surpreendente até para nós mesmos", comenta Hirsch, que assina a direção de O Livro de Itens do Paciente Estevão, que estreia nesta sexta-feira, 7, no Sesc Belenzinho. "Criamos uma Disneylândia macabra."

As expressões podem impressionar, mas são insuficientes para revelar a complexidade atingida pela companhia, uma imersão no fazer teatral que, durante três meses, transformou o trabalho em um estimulante ensaio sobre a simulação.

Tragédia de humor negro, O Livro de Itens do Paciente Estevão inspira-se no livro O Paciente Steve, do americano Sam Lipsyte (parceiro de Hirsch e Daniela Thomas no filme Insolação), e acompanha Estevão, um publicitário cuja doença misteriosa intriga uma junta médica. A única certeza é a de que sofre de um mal terminal, ou seja, de que vai morrer. Como se descobrisse uma novidade, Estevão busca a cura por meio da escrita de itens que recuperem seu passado.

É o início do desfiar de dores - ele revê o fracasso de seu casamento, a vida e a morte do melhor amigo, a filha internada numa escola para crianças sem afeto, o vazio existencial. Só encontra uma pálida esperança no Centro de Recuperação de Almas, comunidade fundada por um perverso terapeuta chamado Adolfo Henrique (as mesmas iniciais de Adolf Hitler), que propaga sua doutrina baseada em processos experimentais que envolvem tortura e falsos renascimentos.

Felipe Hirsch lembra que as diversas camadas do espetáculo foram surgindo ao longo do período de ensaios. "Seguimos a diretriz do livro de Lipsyte, mas o final é diferente", conta. "Eu o consultei sobre nossa proposta e ele aceitou. Isso aconteceu a dois dias da estreia." O prazo apertado reflete bem a profusão de ideias que cercou o trabalho, arredondado no derradeiro momento.

O diretor acredita que o espetáculo necessita de uma plateia dedicada - e tem razão. Dividida em duas partes, Os Princípios e Os Domínios, a peça (com quase cinco horas de duração) oferece uma série de descobertas: quando se vê diante da morte e começa a escrever seus itens incitado por Adolfo Henrique, Estevão torna-se alvo de uma corporação midiática, que transforma sua batalha em um reality show. Logo, transforma-se em celebridade, ícone das redes sociais e, pior, figura totalmente manipulável.

"Ele começa a ser monitorado, em um jogo que o acompanha até a morte, escolhendo inclusive a sua última refeição", diz Hirsch. "Um quadro que já vivemos hoje, com tantas empresas interessadas em monitorar as fronteiras que separam realidade de ficção."

O espectador, assim, torna-se também manipulável, pois acredita em uma história que não de fato aquela que se desenvolve no palco. Para um projeto tão fascinante, Felipe Hirsch trabalhou todos os detalhes. A trilha sonora, por exemplo, se desdobra em quatro partes: primeiro, a da literatura pulp, que marcou filmes italianos dos anos 1970; depois, a light music, considerada música clássica barata; em terceiro, a trilha muzak, gênero associado à música de elevador, ou seja, escapista; finalmente, o tom ecumênico, próprio de meditação. "A intenção é descobrir o belo."

Além da cenografia de Daniela Thomas e da iluminação de Beto Bruel, parceiros constantes, Hirsch convidou o quadrinista Rafael Grampá para conceber visualmente os personagens. Finalmente, o elenco: a Guilherme Weber e Leonardo Medeiros, antigos no grupo, unem-se Georgette Faddel, Isabel Teixeira, Danilo Grangheia, Márcio Vito, Maureen Miranda e Pedro Inoue. "Mesmo não habituados a esse tipo de trabalho, eles mergulharam e enriqueceram o projeto", conta o diretor.

O LIVRO DO PACIENTE ESTEVÃO

Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076- 9700. 6ª e sáb., 18 h. dom., 17 h. R$ 24. Até 21/10.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.