Sutil comemora 10 anos com "Alice"

A Sutil Companhia de Arte completaa sua primeira década de existência apresentando em São Paulo,além de um novo espetáculo, uma leitura dramática, uma encenaçãoanterior que permanece no repertório do grupo e uma publicaçãosobre a trajetória desse período. Trata-se, portanto, de umconjunto organizadíssimo, capaz de manter peças em repertórios,equipe artística e técnica estáveis e, como se isso não fossepouco, produzir reflexões escritas sobre suas criações.Essa disciplina na produção e na divulgação do trabalhoexplica, em parte, a projeção nacional do grupo originário deCuritiba. Não explica inteiramente porque é preciso considerar,além da inegável qualidade do trabalho, um núcleo de significadoque se mantém centrando as soluções estéticas do grupo. É umgrupo que vem trazendo para o palco, em diferentes perspectivas,o tema dos movimentos anímicos sob a superfície concreta da vidacontemporânea. Na linguagem do teatro há lugar para outrascoisas além da sociologia e da psicologia.A solidez da organização, o tratamento racional dostemas das peças e do domínio da tecnologia da cena parecem fazerparte da significação do trabalho. São talvez essenciais para umgrupo que se ocupa da fluidez, da escassa definição e daabertura para o imponderável da matéria psíquica. Esse trabalhoapresentado agora como título de Alice Ou a Última Mensagem doCosmonauta para a Mulher Que Ele um Dia Amou, adaptação depeça do autor escocês David Greig, mantém a fidelidade a umavertente trilhada pelo grupo em trabalhos anteriores.Sendo extensões simbólicas do desejo, o satélite, ogravador e o telefone são também traduções poéticas dos sinaisenviados por um ser humano a outro. Os personagens, que tentamincansavelmente estabelecer contatos humanos através dadistância geográfica e temporal, conferem um sentido emblemáticoàs mediações. Mesmo um instrumento malogrado - não há insucessomaior do que uma nave enviada por uma civilização extinta eperdida no espaço - sugere o esforço de ultrapassagem dasolidão.Dinâmica - A trama da peça, como explica diligentementeuma personagem logo no início do espetáculo, é modelada sobre adinâmica neurológica da sinapse. Todos os personagens desejam etentam algum tipo de restauração de contato. Sinais e mensagensdestinados por vezes a morrer no espaço, a errar o destinatárioou a confundir-se com memórias e desejos do outro adquirem, noespetáculo dirigido por Felipe Hirsch, enunciação clara e firme.Esse controle formal opera como uma moldura para contrastar ocomportamento errático das comunicações frustradas e aintensidade dramática da memória afetiva.Cada personagem tem um campo visual bem definido e ostextos são emitidos com a clareza de quem partilha com o outro(ou com o público) um discurso lógico e estruturado. A luzorganiza e distingue as cenas por tonalidade e intensidade, osmovimentos são precisos e não há, sequer por momento, a idéia delassidão ou incerteza nas imagens e ritmos.Não é a nostalgia, ao que parece, que orienta acomposição do espetáculo, mas o impulso transitivo dacomunicação. Mesmo as cenas mais pungentes do texto, como as dosastronautas semidementes, confinados em uma órbita incomunicável, são tratadas sem ênfase na dramaticidade.Seguindo o discurso introdutório da peça, em que umhomem recorre à descrição científica para tentar compreender omecanismo neurológico da memória, a organização do espetáculopõe em evidência a lucidez. Tudo funciona bem, ainda que não sesaiba por que e para qual finalidade as coisas funcionam. Nacenografia de Daniela Thomas os nichos para a situação ambientalde cada personagem são hiper-realistas, detalhados, enfatizandoo aspecto utilitário dos objetos.Mas são também câmaras isoladas, invioláveis no seuinsulamento. Animam-se quando se manifesta o desejo de entrar emcontato por meio de algum artefato tecnológico. Há homens queperderam de vista as mulheres amadas ou a mocinha que procura opai, mas em nenhuma dessas caracterizações se manifesta aexasperação dramática da busca. Permanece como uma constante noritmo do espetáculo, na organização visual e nas interpretaçõesdos personagens uma certa contenção, como se o esforço paraendereçar-se ao outro valesse por si mesmo.Os personagens se detêm sobre a procura, prolongam odesejo e o ato de evocar porque esses momentos são durações,instantes vitais arrancados ao não ser. Na perspectiva daencenação não há lugar para o desespero. E uma das coisas maisbonitas desse espetáculo é essa sobriedade ao tratar do universopsíquico. Ninguém se descabela, não há lugar para a displicência, ornamentos sedutores ou apelos sentimentalóides.Não deixa de ser intrigante o fato de que uma encenaçãocujo tema é o intervalo entre os seres, as sinapsesinterrompidas, os silêncios que rondam a comunicação humana,seja controlado com tanto rigor. Pode ser que a Sutil Companhiade Arte parta do princípio de que o nosso teatro, cheio deidéias e de ânimo esfuziante, transborda com freqüência,afogando com uma golfada o bom gosto e a transmissão das idéias.De qualquer modo não é esse o caminho do grupo porque osfragmentos que põem em cena traçam órbitas perfeitas.Alice ou A Última Mensagem do Cosmonautapara a Mulher Que Ele um Dia Amou na Antiga União Soviética.De David Greig. Adaptação e direção Felipe Hirsch. 120 min.Sexta e sábado, às 21 h; dom., às 19 h. R$ 20. Teatro SescAnchieta. R. Doutor Vila Nova, 245, em São Paulo, tel. (11)3234-3000. Até 16/2.

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