Sutil Cia. de Teatro estréia "Nostalgia"

A Sutil Cia. de Teatro vem de doisgrandes sucessos que lançam âncora no terreno da memória. Em2000 foi a vez de A Vida É Cheia de Som e Fúria, adaptado doromance Alta Fidelidade, de Nick Hornby. A seguir, AMemória da Água, de Shelag Stephenson, que se apresenta paraplatéias lotadas desde que estreou em abril deste ano, no Rio.Tão grande é a fila dos cariocas desejosos de assistir aprodução estrelada por Eliane Giardini e Andréa Beltrão, que elateve sua temporada paulistana adiada para meados de 2002. Agora,tomando mais uma vez como tema a lembrança, a recordação, atrupe, formada em Curitiba há oito anos por Felipe Hirsch eGuilherme Weber, inicia no Teatro do Sesi a carreira de um novotrabalho, Nostalgia.Concebido por Hirsch e Weber, roteirizado pelo primeiro,Nostalgia parte de temas e personagens extraídos de váriasobras de John Fante (1909-1983), escritor ítalo-americano, autorde clássicos do romance realista do século 20, entre elesPergunte ao Pó e Espere pela Primavera, Bandini. Em seusrelatos, Fante retratou um mundo de imigrantes italianos pobrese suas famílias, divididas entre as tradições da antiga pátria ea luta pela sobrevivência em uma terra nova, estranha e hostil.Artur, o menino de 13 anos que protagoniza Nostalgia foi inspirado numa criação de Fante, Arturo Bandini. Sensível,inteligente, observador, o jovem Bandini era o alter ego deFante, que lançava mão do personagem para falar de sua infância,das doçuras e dos choques familiares, das primeiras experiênciascom a literatura, o amor, o sexo, a morte.Em Nostalgia, Artur, adulto, rememora aadolescência. A trama da peça é universal. Seu cenário pode serSão Paulo, Curitiba ou qualquer outra cidade onde existamfamílias com filhos adolescentes que descobrem as muitasasperezas e a pouca poesia da vida.Apesar da bela idéia que usaram como ponto de partida,desta vez os talentosos e criativos integrantes da Sutil Cia.não atingiram o alvo. Nostalgia em grande medida retoma afórmula de Som e Fúria. Adota a mesma linguagem dramática ea estética. Mas a montagem não é tão bem servida quanto a outrano terreno da dramaturgia. O texto que Felipe Hirsch extraiu deAlta Fidelidade levava para o palco um balanço de vida feitode energia e franqueza, cativando por isso o espectador. EmNostalgia a fórmula resulta em uma narrativa esgarçada,pouco convincente, que não consegue insuflar na montagem o vigor, a curiosidade e a ânsia de vida do jovem protagonista.Assim como faz Arturo Bandini nos livros de Fante, Arturapresenta ao espectador um resumo de suasexperiências familiares, o contato com a velhice e a morte, asprimeiras aventuras amorosas. Ao mesmo tempo, traça um painel depreferências culturais, em especial as literárias, que passampor J.D. Salinger entre muitos outros, e as musicais, queincluem Smiths, The Cure, etc.Ocorre que as lembranças do homem e as emoções do meninonão funcionam em Nostalgia como um cimento eficiente. A históriaavança aos tropeços e não recria em cena o mundo áspero e líricode John Fante. Fica ao fim no espectador a sensação de ter vistoalgo incompleto, um trabalho em progresso, ao qual é precisoagregar novos dados.Num intrigante paradoxo, o texto frustrante deu origem aum espetáculo levado à cena com bom gosto e elegância. Como emSom e Fúria e outros trabalhos da Sutil Cia, uma tela separao palco da platéia, possibilitando projeções de imagens erequintados efeitos de luz. A cenografia de Daniela Thomasconsiste em uma casa reduzida ao esqueleto, espaço vazado, amploe austero, delimitado ao fundo por uma parede de gavetas. Ocenário/instalação criado pela multiartista ganha dimensõesmisteriosas e fantásticas sob a inspirada iluminação de Hirsch.Figurinos sóbrios e bem desenhados completam a competentemoldura em que se inscreve a encenação.Os atores que integram a Sutil Cia. têm bom preparotécnico e criam seus personagens dentro de um estilo naturalista,arejado e contemporâneo. Estabelecem um jogo intenso que, apesardo cuidado formal com a composição dos personagens, não perde avivacidade. Convidada especial da Sutil Cia., Ana Kutner (ABoa, O Jardim das Cerejeiras) vive Karen, menina pela qualArtur nutre intensa paixão. A atriz confere à personagem um aretéreo, delicado. Desenha o papel da jovem idealizada por Arturde modo habilidoso, sem recorrer a lugares-comuns. Cria umagarota intensa, delicada e algo remota.Guilherme Weber vive Artur, protagonista da história.Envergando o tempo todo terno e gravata, sem qualquer recurso decaracterização, vive simultaneamente o narrador adulto e oadolescente Artur. Consegue com um mínimo de recursos passar domoleque intenso, arrebatado, cheio de sonhos para o homemponderado, melancólico, que 20 anos mais tarde volta à casa desua infância para vê-la arrasada e vazia.Esse belo aparato técnico e humano foi posto a serviçode um texto teatral que não define seu alvo. A Sutil Cia. vemtrabalhando há alguns anos na investigação da memória. Outrosespetáculos do grupo já mostraram que essa temática, presente emimportante parte da ficção do século 20, pode ser teatralizadacom vigor eletrizante. Em Nostalgia, a pesquisa desaguou nãoem um exercício estimulante, que envolve o público, mas em umaviagem difícil através de uma paisagem árida.Nostalgia. De Felipe Hirsch e GuilhermeWeber. Direção Felipe Hirsch. De quinta a sábado, às 20 horas;domingo, às 19 horas. Grátis (retirar convites com uma hora deantecedência). Teatro Popular do Sesi. Avenida Paulista, 1.313,em São Paulo, tel. (11) 284-3639. Até 2/12.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.