Burberry/ Divulgação
Burberry/ Divulgação

Sustentabilidade pauta desfiles de moda de Londres e Milão

Na temporada de moda internacional, grifes entram no debate sobre clima e meio-ambiente, defendendo a ideia de que se deve consumir menos roupas com mais qualidade

Maria Rita Alonso, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2019 | 07h00

Às vésperas do encontro da cúpula das Nações Unidas (ONU) para o maior debate internacional do ano sobre meio-ambiente, marcado para segunda (23), o papel da indústria da moda na crise climática virou o assunto número 1 da temporada de desfiles -- ofuscando tendências, blogueiras e a mise-en-scène toda.  A estudante-ativista sueca Greta Thunberg, com sua  jornada marítima para os Estados Unidos,  virou referência-mor nas conversas sobre os efeitos corrosivos das emissões de carbono na atmosfera e colocou em xeque o glamour do circuito internacional de moda, com quatro semanas consecutivas de desfiles em Nova York, Londres, Milão e Paris, acarretando o deslocamento aéreo de um contingente de modelos, cabeleireiros, jornalistas, influenciadores, executivos e profissionais da área, de uma cidade a outra, em apenas um mês.

"Espera-se que a moda reflita e influencie, a qualquer momento, o que nos afeta. Mas o que fazer quando ela acaba virando uma das principais culpadas em relação a grande questão da nossa época?", pergunta o jornalista de moda Andres Christian Madsen. Na segunda-feira (16) , a Burberry apresentou seu primeiro desfile carbon neutral, anunciando a compensação das emissões de gases de efeito estufa gerados pelos convidados da marca que voaram até Londres para assistir ao show. A produção de todo evento também foi compensada por meio do projeto VSC, certificado pela REDD+, organização que ajuda a combater o desmatamento na Amazônia.

Em Milão, Miuccia Prada, tida como uma das mais intelectualizadas entre os criadores de moda, se aprofundou na questão: "Por um lado, queremos salvar o planeta, não consumir e não gastar. “Mas aí as pessoas não terão emprego, não terão dinheiro e teremos que vender mais novamente”, resumiu ela, em entrevista a Vogue. “A crise ambiental é um problema político gigantesco, que todos precisam abordar à sua maneira e através de seus próprios esforços”. No inicio de novembro, a  Prada realizará, em Nova York, a conferência 'Moldando uma Sociedade para um Futuro Sustentável', explorando temas como a natureza, a ética nas escolhas e no comportamento social, a igualdade no ambiente de trabalho e as transformações na sociedade contemporânea.  

Considerada uma das indústrias mais poluentes do mundo, em um ranking liderado pela produção de petróleo e pela pecuária, a moda agora enaltece a ideia de roupas feitas para durar. "De repente, a atemporalidade está sendo apontada como um valor central, até mesmo em Milão, a cidade da moda mais intimamente associada aos lançamentos de tendências de varejo", observa Vanessa Friedman, crítica do The New York Times. A longevidade da roupa, e a lógica de comprar menos com mais qualidade, no entanto, não altera o fato de que os lançamentos seguem na disputa por despertar desejo e angariar as maiores vendas possíveis.

Nesta estação, por exemplo, Miuccia brilhou com uma coleção que em muito fez lembrar a elegância chique de suas criações dos anos 1990, época em que a marca emplacava um hit atrás do outro, guiando a concorrência. Investindo esforços em peças que vendem bem, a estilista colocou na passarela tricôs de malhas finas de lã, casacos dupla face, calças flaire, saias com corte minimalista, além de misturas ricas de texturas (macramé, veludo, palha) e detalhes em bordados.

“A pessoa deve ser mais importante que as roupas", disse Miuccia. Na plateia, entre os convidados brasileiros da Prada, estava a filósofa e ativista brasileira Djamila Ribeiro, mestra em Filosofia Política e autora de “O que é um lugar de fala?” e “Quem tem medo do Feminismo Negro”. Sobre o desfile, em seu Instagram, ela escreveu apenas: "Foi uma tarde incrível!"

Na linha de "roupas eternas", muito bem feitas, com matérias-primas naturais, acabamentos impecáveis e o preço nas alturas, o maior representante da Itália é o estilista Brunello Cucinelli. Seus tricôs feitos a mão levam até 40 horas para ficar pontos, tudo é confeccionado em uma fábrica dos sonhos em uma vila medieval da cidade de Solomeo e a marca fatura 450 milhões de euros e cresce 10% ao ano (no Brasil, está no Shopping Cidade Jardim, em São Paulo). “Evite os modismos e as distrações do momento", diz.

O alvoroço causado nos últimos dias com a saída de Demna Gvasalia da Vetements indica que Cucinello pode estar certo. A marca fundada pelo designer georgiano impulsionou a sua carriera fazendo com que ele assumisse a direção criativa da Balenciaga, liderando a ascensão do streetwear de luxo. Com o declínio das venda da marca Vetements, alguns observadores da indústria se perguntaram agora sobre o futuro da Balenciaga. “A casa histórica - que deve ultrapassar € 1 bilhão em receita este ano, mas carrega uma estética de streetwear de luxo semelhante à Vetements - é suscetível ao mesmo balanço do pêndulo da moda?”, pergunta Laure Guiulbalt, em um artigo do Business of Fashion. Como esse é um movimento cíclico por natureza, o que era o máximo ontem pode entrar em decadência amanhã. Ao que tudo indica, a febre da moda de rua chique e cara está prestes a ser engolida pela onda das roupas longa-vida e politicamente corretas. “A saída de Gvasalia marca o fim de um ciclo da moda”, avalia o jornalista. 

 

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