Suspenso festival de Paulínia

Prefeitura diz que pretende utilizar a verba do evento na construção de escolas e casas, em saúde e no meio ambiente

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h08

A prefeitura de Paulínia, interior de São Paulo, anunciou ontem o cancelamento da 5.ª edição do Festival de Cinema. O prefeito, José Pavan Junior, declarou em comunicado que pretende usar cerca de R$ 10 milhões que seriam gastos no evento na construção de escolas e casas, na saúde e em programas de meio ambiente. E ressaltou: "Suspender não significa acabar". E garante que os outros investimentos em cultura serão mantidos.

Já a organização do festival discorda do valor divulgado. "O custo em 2011 foi de R$ 3,5 milhões. Não sei quais os parâmetros usados para se chegar àquela quantia", disse a atual diretora do Festival Fernanda Viacava. "Não sabíamos do cancelamento. Estou tão chocada quanto os outros. Nem eu, acredito, nem os membros da Secretaria de Cultura da cidade, fomos consultados."

A diretora informou ainda que havia apreensão por parte dos membros do festival diante do fato de o prefeito não ter assinado a aprovação oficial da realização da próxima edição, que ocorreria em junho. "Em geral, abrimos as inscrições em fevereiro. Mas, diante da demora da aprovação, esperamos até agora. E hoje (ontem) acordamos com esta notícia."

Ivan Melo, consultor do festival, e Tatiana Quintella, que já foi secretária de Cultura da cidade e idealizou e realizou o Polo Cultural e Cinematográfico, também contestam os R$ 10 milhões. "A prefeitura este ano investiria R$ 3,5 milhões. Há um edital de coprodução do festival, que pode ser consultado no site municipal que prova isso. O intuito era diminuir ao longo dos anos o aporte da prefeitura. O restante, pouco mais de 1,5 milhão (o valor total gasto com a realização em 2011 foi de R$ 5,8 milhões), seria captado através da Lei Rouanet pela empresa coprodutora que ganhou a licitação. A decisão de suspender é, no mínimo, precipitada", disse Melo. "Por lei, pode-se captar esse restante até dezembro. E havia negociações em andamento. Estávamos esperando a aprovação do prefeito."

O secretário de Cultura de Paulínia, Emerson Alves, que passaria a sexta-feira em reunião com membros do festival, não quis se manifestar, "Temos de encontrar uma forma de continuar o festival. Não pode acabar", disse Melo.

A classe cinematográfica está surpresa. "Na festa de lançamento da primeira edição e da inauguração do teatro, em 2008, recebi uma homenagem e fiz um agradecimento bem chato: disse aos vereadores e prefeito que fazer prédios era moleza - o difícil era enchê-los de som e fúria e esperava que a gestão fosse tão benfeita como a obra. Parece que fui profético ao antecipar a tragédia", declarou ao Estado o cineasta Fernando Meirelles.

"Ja vimos muitos polos nascerem e morrerem no Brasil: Brasília, Ceará, Paraná, Vitória", continua Meirelles. "Será este mais um? É inacreditável a falta de compromisso do poder público para com um patrimônio cultural brasileiro, sim, pois Paulínia, em tempo recorde, já tinha virado referência no calendário da nossa indústria. Como otimista incorrigível - ou estúpido? -, ainda acredito que o bom senso vai prevalecer."

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