Suspense expõe a marca da maldade

Em narrativa de ritmo veloz, Patrícia Melo busca atrair a cumplicidade dos leitores

Beatriz Resende, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

OLadrão de Cadáveres, de Robert Louis Stevenson, empresta o título ao primeiro inédito de Patrícia Melo pela editora Rocco. No relato do escritor escocês, uma grande sordidez tem razões nobres, ou quase. As duas histórias não têm mais do que isso em comum, mas é um bom tema para uma narrativa de suspense.

Um gerente de telemarketing, em São Paulo, perde a cabeça com a funcionária que tenta vender o que ninguém quer comprar com um piercing na língua. Dá-lhe uma bofetada e acaba demitido. Segue em direção a Corumbá, cidade onde as coisas apodrecem mais depressa. É o personagem-narrador que segura o romance com os dentes. Corumbá é perto de Porto Suarez, na Bolívia, vizinhança que traz ao romance além dos índios da loja em frente, traficantes e outros bandidos de diferentes níveis sociais.

O destino na nova cidade é decidido quando um avião, pilotado pelo jovem rico que morre em seguida, cai, deixando aquele que tentara salvá-lo com uma mochila e um quilo de cocaína nas mãos. O ladrão de cadáveres é cheio de boas intenções e o romance constrói uma simpatia incômoda mas incontrolável que cola o leitor ao personagem, emotivo e oportunista, sentimental e perverso com as mulheres, ladrão que não liga para dinheiro e dá o que ganha sem problemas, trapaceiro que protege a índia velha maltratada pela nora, trai o primo que o abrigara e delicadamente finge não perceber o cheiro da namorada que trabalha no necrotério.

Patrícia Melo aparece em grande forma, em narrativa de ritmo perfeito e construindo personagens como poucos, em habilidade que vem desde O Matador. Em contraste com o clima pesado e lento da cidade, a história segue veloz, fazendo com que o leitor busque também uma saída para situação em que se meteram os personagens. Mas é impossível se manter fora do esquema em que "corrupção é um negócio em rede, uma matilha" e os ricos fazem as próprias leis. E a tese de Patrícia Melo é afirmada mais uma vez: a bondade se aprende com dificuldade, é com a maldade inoculada que nascemos.

Ladrão de Cadáveres não é romance para grandes prêmios literários, mas é o tipo de obra que faz leitores, que dá gosto de ler a qualquer hora, em qualquer lugar. Precisamos, e muito, de romances como este, como das novelas de Stevenson e dos detetives de Conan Doyle.

BEATRIZ RESENDE É PROFESSORA DA UNIRIO,COORDENADORA DO FÓRUM DE CIÊNCIA E CULTURA DA UFRJ E AUTORA DE CONTEMPORÂNEOS: EXPRESSÕES DA LITERATURA BRASILEIRA NO SÉCULO 21 (CASA DA PALAVRA)

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