Suspense em alta definição

Dirigido por um jovem de 28 anos chamado Steven Spielberg, Tubarão fica ainda mais impressionante na era digital

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h10

Embora menos numerosos que no Festival do Rio, os problemas de exibição digital também empanaram algumas (muitas?) sessões da Mostra, incluindo a primeira de Tubarão, o clássico de Steven Spielberg que iniciou, em 1975, a era dos filmes arrasa-quarteirão, os chamados blockbusters. Mas agora você pode (re)ver o filme, e no esplendor de uma versão restaurada digitalmente. Como dizem os próprios técnicos, a era digital ainda pode ter seus defeitos, mas quando todos os arquivos funcionam, a projeção não é menos que perfeita. Som, imagem - cada frame parece dar a impressão de saltar da tela com nitidez impressionante. Tubarão nunca foi mais assustador, e você tem hoje a chance de confirmar.

O livro de Peter Blenchly já havia provocado um estouro editorial, mas ninguém sabia direito o que esperar da adaptação para o cinema porque o diretor era o jovem Steven Spielberg, de 28 anos, que assinava seu primeiro longa em Hollywood, depois de fazer carreira como enfant terrible na televisão. Carl Gottlieb lembra-se perfeitamente de como tudo começou, e dos problemas que, na época, quase acabaram prematuramente com a carreira do diretor.

"A produção estava orçada em US$ 4 milhões, mas estourou mais que o dobro e chegou a US$ 9 milhões, o que deixou o estúdio (a Universal) em polvorosa. Houve problemas com o turbarão mecânico que Steven ia usar em algumas cenas, e eles foram creditados à inexperiência do diretor. Na verdade, boa parte da força do filme veio daí, porque como o tubarão não funcionava, Steven reduziu suas aparições. Ele virou essa coisa que ninguém vê, assustando muito mais o público. Mas isso eu só posso dizer agora, com o distanciamento produzido pelo tempo. O estúdio estava a ponto de defenestrar Steven. O filme estourou e ele virou o Midas de Hollywood, o jovem que salvou a indústria."

Carl Gottlieb conta isso numa entrevista por telefone. Está com 74 anos. Em 1974, também ele era jovem. Tinha 36. Seu crédito era de roteirista, mas ele também fez o papel de Meadows, o editor do jornal da pequena cidade de Cape Cod, assolada pelos ataques de um tubarão comedor de gente. O prefeito, Murray Hamilton, quer abafar o caso, porque é verão e a cidade depende do faturamento com turistas, mas o xerife Roy Scheider percebe a gravidade da situação e se une ao cientista Richard Dreyfuss e ao caçador de tubarões Robert Shaw para caçar o bichão. "Steven era uma máquina de ideias", conta Gottlieb. "Como elas vinham aos jorros, não parávamos de reescrever o roteiro para adaptar o plano de filmagem às novas ideias do diretor. Toda noite nos reuníamos para discutir o que fora feito e o que seria, a seguir."

Criou-se uma situação rara, senão única - no afã de melhorar o roteiro, torná-lo mais denso e funcional, Gottlieb tomou a iniciativa e sugeriu a Spielberg que cortasse diálogos de seu personagem e, depois, que reduzisse o papel. Meadows aparece em duas breves cenas, apenas. Mas ele não se arrepende. Tudo pelo filme, que era a prioridade. Tubarão faturou US$ 470 milhões e o resto é história. Gottlieb seguiu como roteirista e chegou a ser dirigente do Writers Guild. Virou diretor e foi convidado por Spielberg e pelo estúdio para supervisionar o restauro de Tubarão. Ele adverte: "Não sou especialista no assunto. Apenas fiquei ali, ao redor, dando assessoramento para os técnicos que realmente trabalhavam com as ferramentas do digital. Mas o certo é que conheço tanto o filme que me tornei, como eles disseram, imprescindível."

Gottlieb lembra-se com entusiasmo das ideias de Spielberg. "Ele tinha o filme na cabeça e sabia o efeito que queria provocar no público. O primeiro ataque do tubarão ocorria mais tarde, mas Steven foi logo entregando a violência para deixar o público vulnerável, com medo do que poderia ocorrer. Steven tinha seus modelos e um deles era o Alfred Hitchcock de Os Pássaros, que também conta uma história de vingança da natureza contra os homens. O que mais me impressionava na época, como me impressiona hoje, é a habilidade com que ele alterna horror e humor e a sua eficiência em fazer com que o espectador se identifique com possíveis vítimas." Gottlieb arremata: "Não creio que alguém hoje em dia, na praia, não tenha sobressaltos ao pensar no filme. Não adianta correr para a areia. Watergate ainda estava rolando e nossa ideia era sugerir que ninguém estava seguro com os tubarões do seco, os políticos."

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