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Sushi e descontentamento

No ano de crianças mortas trazidas pelas ondas, das degolas no YouTube, de Paris transformada em espetáculo de sadismo, é notável como falsas vítimas tiveram protagonismo. Vivemos uma cultura do agravo.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2015 | 05h55

Neste 2015 que já vai tarde, o sushi servido no refeitório de uma faculdade de elite no Estado de Ohio foi denunciado como racista por se tratar de apropriação cultural indevida. Aulas de ioga para portadores de deficiência física num câmpus do Canadá foram canceladas sob a alegação de que a prática pertence ao hinduísmo e não deve ser apropriada por brancos. Estudantes protestando num câmpus do Estado de Missouri cercaram um aluno fotografando a manifestação, alegando que ele violava o direito ao “espaço seguro” de observação pela mídia. A expressão espaço seguro foi convertida em arma de ataque contra qualquer desconforto associado à identidade.

Outra palavra incorporada à artilharia da vitimização é microagressão. Ela foi cunhada para descrever pequenas hostilidades e abusos impostos aos negros norte-americanos. Passou a ser usada em casos de chauvinismo e hoje define qualquer elocução que desagrade a alguém identificado como o queixoso. Para combinar com este guarda-roupa mental, há um conceito recente: a sinalização de virtude, não muito diferente da militância de sofá. Consiste, por exemplo, em colorir seu avatar no Facebook em sinal de simpatia por uma causa sem incorrer em ação concreta em defesa das vítimas.

No país onde Chico Buarque batendo boca em porta de restaurante no Leblon comove muito mais do que Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, executado por policial na favela do Alemão pelo crime de sentar na porta de casa, a perversão das prioridades invertidas não fica nada a dever ao lado de cá do Equador.

Assim como microagressão, fascismo virou camiseta de tamanho único para xingar expressão política incivil. A conversa do Leblon, em que Chico e adversários se tocavam com a camaradagem comum a quem se identifica por classe, mereceu até demonstração de solidariedade por parte da presidente e do ex-presidente. E não são analfabetos que denunciam fascismo. É gente com acesso a dicionário no smartphone última linha que carrega no bolso. Fascista é aquele que quer derrubar uma democracia constitucional. O fascismo histórico é nacionalista e mitologiza a violência. O website Vox passou Donald Trump pelo crivo analítico de cinco historiadores do fascismo e concluiu que nem o extremismo do bilionário cabe na definição. Acho seguro supor que filhinhos de papai em fim de noite tampouco receberiam o diploma de fascista ou nazista conferido por gente que nos deve mais honestidade intelectual.

Mas ao contrário do bate-boca que não teria repercussão caso não fosse gravado, o uso da vitimização tem consequências e geralmente elas recaem sobre o menino morto no Alemão, não sobre o compositor no Leblon.

A vitimização que parte de universitários norte-americanos ou de quem ainda pode pagar preços do Sushi Leblon produz individualismo crescente e falta de empatia. Dilma Rousseff é a figura pôster deste comportamento, embora seu padrinho e antecessor seja hors-concours na categoria. Diante de uma tragédia como a lama de Mariana, a presidente demora a se manifestar e usa linguajar burocrático que trai evidente distância emocional. Quando se refere à situação do País cuja economia empurrou para a ribanceira, quer atrair simpatia para si mesma, como se não pertencesse ao partido no Planalto há 13 anos.

A vitimização instigada por interesse eleitoral, como a praticada por Donald Trump e Lula, reforça a falta de agência individual e erode a compaixão por grupos identificados como o outro, como atestam estudos psicológicos do agravo.

Muito sushi e pouca saúde, os males do Brasil são.

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