Susan Sontag fala sobre fotografia

A escritora norte-americana Susan Sontag,aos 68 anos, não perdeu a mania de esbanjar charme e nadarcontra a corrente. Na palestra que fez ontem, na BibliotecaNacional, encerrando o seminário "Caminhos do Pensamento -Horizontes da Memória", promovido pela Unesco, ela ironizou aorganização do evento, que deixou uma centena de pessoasserpenteando uma fila no jardim enquanto o auditório estavaocupado pela metade, à espera dos convidados que não chegaram.Apesar disso, o bom humor permeou sua fala, baseada no ensaiosobre fotografia, ainda sem título, que acaba de escrever e quedeve ser publicado nos Estados Unidos ainda este ano. O assunto não é novo para la Sontag, que provocoupolêmica nos anos 60 por suas idéias anticonvencionais, por umabeleza incomum entre intelectuais e um comportamentopúblico/privado inovador naquela época. Ela visitou o tema nosanos 80, em seis ensaios sobre fotos de guerra e outrasatrocidades, considera-se uma pioneira - embora cite WalterBenjamin - e volta a ele sob nova perspectiva. Se antes diziaque as pessoas contemplavam fotos de seres humanos em sofrimentopara estar próximas e solidárias sem responsabilidade e/ou risco hoje essas fotos despertam um voyeurismo e só não são incômodasquando o sofrimento é alheio, na causa ou na conseqüência. "Nos Estados Unidos, existem museus do Holocausto, jápensam em fazer um para os armênios que foram massacrados pelosturcos no século passado, mas não há nenhum centro de memória daescravidão que, nos Estados Unidos, foi o pior exemplo deexploração e degradação do ser humano", disse ela. "O escravoamericano valia tanto quanto um cachorro ou uma faca, mas estámuito próximo da nossa realidade. É mais fácil, menos amargofalar do sofrimento de judeus na Europa, armênios nas mãos dosturcos do que de americanos brancos maltratando americanosnegros." Embora o tom fosse forte, Susan não deixa de antever umaesperança no futuro. Ela acha indispensável a publicação defotografias que denunciam as atrocidades e citam como melhorexemplo a reação contra as Guerras do Vietnã, nos anos 70, e daBósnia, nos anos 90, surgidas em função de imagens que sepopularizaram a ponto de virarem clichês. "O problema é quandoessas fotos são usadas para reavivar antigas mágoas. Para haverconciliação, é preciso ceder em algum ponto e a fotovoyeurística não contribui para isso", acredita ela.

Agencia Estado,

06 de setembro de 2002 | 16h48

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