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Surpresas em Havana

Houve de tudo naquela viagem a Cuba. Até mesmo um papo de García Márquez sobre cocô

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

23 Maio 2017 | 03h00

Alertado por um velho camarada (palavra aqui usada em mais de um sentido), preciso admitir que fui injusto ao qualificar, na semana passada, como tão ruço quanto russo o Ilyushin 62 que me levou a Havana em novembro de 1985 – a mim e a dezenas de brasileiros, na condição de convidados para eventos cujo ponto culminante seria o lançamento do livro Fidel e a Religião, de meu amigo Frei Betto. 

Injusto e ingrato, pois, malgrado a idade avançada em que se encontrava, o jato da Cubana de Aviación portou-se impecavelmente na empreitada de nos transportar do aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, ao de José Martí, em Havana, com escalas em Lima e na Cidade do Panamá. 

Embarquei ressabiado, a ruminar a hipótese sinistra de que minha primeira incursão nas entranhas daquela antiguidade aeronáutica viesse ser também a última. A desconfiança, ao entrar no avião, foi agravada pelo espetáculo de uma nuvem de vapor que, vinda sabe Marx de quais gretas, aos poucos recobria o piso, reavivando em mim a lembrança de um filme em que vapores sobem de um pântano transilvano, no qual, entre uma jugular e uma carótida, o Drácula dá um tempo. 

Não tardou, porém, para que uma e outra, a nuvem e a desconfiança, se dissipassem, quem sabe graças a uma primeira rodada de mojitos servida por amáveis compañeras comissárias. Também isso contribuiu para tornar inesquecíveis, não só para mim, aqueles dias que passamos em Havana, parte deles enregelado no ambiente polar do Palácio de Convenções. Bem que Antonio Candido, ainda em Buenos Aires, me alertara para a necessidade de levar um agasalho (“joga um casaquinho nas costas”, teria recomendado a minha mãe), conselho dado com a autoridade de quem nunca foi a Cuba sem de lá trazer uma gripe, proporcionada, em pleno calorão caribenho, pelo bafo gélido de formidandos aparelhos de ar-condicionado. 

Dessa eu escapei – mas não das tentativas de mais de um guia cubano de me convencer de que meus jeans brasileiros em nada diferiam de seus “pitusas”, confeccionados com tesoura de burocrata e rígido tecido sintético, escandalosamente inadequado para uso sob o maçarico que costuma ser o sol de Cuba. Mas bastou ganharmos um mínimo de intimidade para que não só abandonassem a defesa do indefensável como passassem a me encher de perguntas sobre a moda masculina em meu país. 

Um dos moços, que no começo se referia às drogas como sendo “um câncer” que a revolução socialista havia “extirpado”, no final me pôs a par da existência de maconha em Cuba. Mais que isso: maconha de dois tipos, pois havia também a marijuana “salada”, salgada – aquela que os traficantes, quando acossados pela guarda costeira, jogavam ao mar, em seus fardos de pano, pois não dispunham de embalagens impermeáveis como as que, no litoral brasileiro, na virada de 1987 para 88, haveriam de proporcionar a multidões um fumegante “Verão da Lata”. 

Os fardos encharcados que a costeira não pescava iam dar à terra, onde não faltava quem os recolhesse e pusesse para secar. A “salada”, explicou o moço, insuspeitada autoridade no assunto, não se comparava à outra, mas nem por isso era de se jogar fora. Se o compañero, ali nas barbas do Fidel, fazia boca de anão? Vou fazer de conta que não ouvi a pergunta.

Daquela temporada, lembro-me de uma noite que não terminou em pizza porque, por mais que procurássemos, eu e todo um esfaimado grupo de brasileiros, de que faziam parte Adélia Prado e Affonso Romano de Sant’Anna, não encontramos certa pizzaria estatal que, em nossa ingenuidade capitalista, julgávamos estar aberta.

Lembro-me também do García Márquez, de sandálias, guayabera e os bastos bigodões em cujas cercanias uma verruga ameaçava concorrer com o nariz. Trazia, pendurado no pescoço, algo como um enorme escapulário de couro, dentro do qual guardava disquetes – daqueles primeiros, enormes e flexíveis. Cheguei a pensar que fossem de O Amor nos Tempos do Cólera. Mas o livro, já impresso, ainda não tinha sido lançado – informação que fui ler, há dois anos, em Paraíso Perdido, do Frei Betto. 

Foi também nesse delicioso livro que, com décadas de atraso, me inteirei de um diálogo travado, naquela temporada em Cuba, por García Márquez e Hélio Pellegrino, sob o olhar ecumênico do “Frayle”, como Hélio se referia ao Betto. 

Assunto, me perdoem, de merda – literalmente. Já distinguido com o Prêmio Nobel, o escritor colombiano pôs-se a discorrer, a sério, sobre duas categorias de seres humanos, “os que cagam bem e os que cagam mal” – e, confessando-se condenado ao segundo grupo, externou inveja dos que “cagam consistentes, roliços e rápidos, sem se sujarem muito”. O poeta e psicanalista brasileiro limitou-se a observar que “alguém deveria fazer um estudo comparativo sobre a consistência do cocô”, uma vez que “há bostas piramidais, como as dos bois, compridas, como as dos cães, e aguadas e disformes”.

Frei Betto, nesse ponto, houve por bem deixar os dois a sós – afinal, conta em seu livro, “a conversa não me cheirava bem”.

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