Surpresas e expectativas para a Bienal

Curador do evento que abre em setembro, o escocês Charles Esche pretende dividir em três o espaço do Ibirapuera

Maria Ignez Barbosa, Especial para o Estado de S. Paulo

15 de maio de 2014 | 03h00

Ao contrário do usual, a Bienal de São Paulo do escocês Charles Esche e seu time de seis curadores que atuam de forma igualitária e sem hierarquias, não ocupará linearmente o prédio de Oscar Niemeyer com obras ou artistas separados por paredes divisórias. O projeto do curador-arquiteto Oren Sagiv propõe a compartimentação do espaço em três áreas, como se fossem três diferentes exposições ou experiências, moldadas de acordo com as obras ou projetos ainda em processo de execução por artistas pelo Brasil e mundo a fora. A abertura do evento acontece a 6 de setembro.

A ideia é que os visitantes fiquem menos cansados, mais orientados e que haja uma maior intimidade entre o público e a história contada em cada projeto. Segundo Esche, é como dividir um livro em capítulos. E, de acordo com a curadora israelense Galit Eilat, que tem todos os gráficos arquitetônicos em seu laptop e é quem está todo o tempo ligada eletronicamente com os artistas, as áreas próximas à rampa, nos três andares, formará um espaço independente e haverá obras ocupando verticalmente os três andares. Algumas paredes ganharão cores, tudo em sintonia e harmonia com os artistas. As próprias paredes e os trabalhos, de forma orgânica e tranquila, deverão indicar ao visitante o caminho a seguir e facilitarão a observação das obras.

Também ao contrário do usual, o grupo de curadores não despacha todos os dias nos escritórios do prédio da Bienal. Depois de terem viajado o Brasil de norte a sul, de terem descoberto artistas desconhecidos através de encontros e conversas organizadas em cada estado, e sem recorrer a galerias estabelecidas, o time pode se reunir na Casa do Povo, uma escola fundada por judeus no Bom Retiro, na casa alugada onde três deles se hospedam, no Sumaré, em parques onde podem "sentir" a cidade ou num prédio da Faap no centro, próximo a Praça do Patriarca onde alguns artistas fazem residência.

Partindo da constatação de que o mapa das artes mudou totalmente em eras pós globalizadas, que não são Paris ou Nova York que ditam a arte para o mundo, mas que a criatividade e a imaginação podem estar em lugares como África, Indonésia, Líbano, e Egito, Charles Esche é da opinião que as Bienais, para sobreviver, têm de inventar uma nova razão de viver.

Não é preciso se preocupar em mostrar o melhor do mundo. São hoje, a seu ver, apenas uma ferramenta para contar uma história, mostrar a temperatura do momento e a diversidade de linguagem entre os artistas. Têm de ser um retrato do contemporâneo e não podem olhar para trás. E os artistas, não importa de qual canto do mundo, têm de mostrar como lidam com tópicos ligados ao ambiente em que vivem. Esche acredita também que a arte, embora não seja política, pode ter uma influência positiva sobre a política, provocando a imaginação, fazendo com que tanto a direita como a esquerda se emancipem, possam fazer algo novo e deixem de se apegar ao passado. "A arte deve refletir a ideia de um momento de transformação no mundo."

O trabalho da pernambucana Ana Lira, entre os nomes anunciados em primeira mão para o Caderno 2, como os dos brasileiros Marta Neves e Eder Oliveira, dos libaneses Walid Raad, Tony Chakar e da egípcia Anna Boghngian, discorrerá sobre a fugacidade da política. Seu trabalho constará de uma série de fotografias de cartazes com o rosto de políticos espalhados pelas ruas do Recife, alguns desbotados pelo sol, outros grafitados ou com os olhos arrancados em interferências feitas por passantes. Impressas em material transparente, as fotografias de Ana Lira mostram como tudo é mutável e pode desaparecer na paisagem urbana, estarão expostas em paredes também transparentes. Para Esche, uma arte como essa, trabalhada em cima de acontecimentos, e a fotografia sendo usada para fazer arqueologia, pode conceitualmente colocar os políticos em seus devidos lugares.

O trabalhos da egípcia Anna Bognghian, descoberta por Galit Eilat numa viagem a Cartagena, giram em torno da vida dos ribeirinhos às margens dos grandes rios e sua relação com a vida em metrópoles como Cairo, Nova Délhi e São Paulo. Atualmente excursionando e registrando através de desenhos pelo Rio Amazonas, Anna já fez o Nilo, no Egito, e o Ganges, na Índia. Para falar de democracia, a artista usa como metáfora a colmeia das abelhas onde a abelha rainha impõe um sistema monárquico.

Já o libanês Walid Raad faz um questionamento em cima da arte no mundo árabe, onde, à base do dinheiro, estão sendo criadas coleções milionárias e grandes fundos de pensão voltados para a arte. Estaria sendo criada na região, em torno desse fenômeno, uma tessitura entre o real e o fictício, e sendo imposta uma história onde ela não existe. Raad cria objetos com forte impacto visual que podem ser considerados pinturas e que usam a proporção e a sombra como elementos de apoio.

Já é possível adiantar que os 70 projetos que vão compor a Bienal abrigarão 250 obras, entre pinturas, desenhos, objetos ou vídeos, de 100 artistas de diferentes gerações, alguns trabalhando em conjunto. Dos 50% dos trabalhos feitos especialmente para a Bienal, 25% são de brasileiros e estão em fase de execução, o que aumenta o clima de expectativa e surpresa até mesmo para os curadores. A ideia é compor a Bienal com artistas menos atrelados ao sistema monetário. As diferentes proveniências dos artistas brasileiros devem aportar para a Bienal uma narrativa nacional, talvez desconhecida até dos brasileiros.

De paz com o mundo, o escocês Charles Esche, que torce pelo "sim" no referendo marcado para setembro próximo que decidirá sobre a independência de seu país do Reino Unido, "pois é preciso acabar com essa coisa de império britânico", tenta não ultrapassar os limites do orçamento de que dispõe a Bienal. À vontade no Brasil e desde sempre um amante do futebol, anda à cata de entradas para os jogos da Copa. Pergunto se o curador contemporâneo não seria de certo modo também um artista. Sua resposta é não. Nem apenas um mero organizador. Seria uma pessoa que atua entre o público e o artista para manter a discussão sobre o papel social da arte.

Nome mutante

O título da Bienal, Como Falar de Coisas que Não Existem, também é mutante. Pela web, será possível descobrir que o verbo "falar" pode se transformar em "gostar", em "sentir".

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